Não há vencedores

            O PAÍS continuará dividido, politicamente encrespado, pois o presidente eleito não é nem de longe a pessoa talhada para promover o diálogo, a paz e a reconciliação do povo brasileiro. Seu adversário sim, reunia perfil e condições para fazê-lo, mas talvez não o conseguisse – talvez nem conseguisse tomar posse no cargo, que dirá governar em condições de normalidade para promover a reconciliação nacional.

        Não há vencedores; não há o que comemorar. Que razões teria para comemorar o povo que pôs na presidência da república um homem autoritário, racista, homofóbico, misógino e sem programa de governo? Aliás, a opção por Jair Bolsonaro é um verdadeiro “salto no escuro” – não sou eu que o digo, é o jornal mais conservador e mais antipetista do país, o Estadão, em seu editorial de hoje.

          Por mais paradoxal que possa parecer, o “melhor” para o país talvez seja exatamente o fato de que Bolsonaro é um candidato “vazio”; porque se ele puser em prática tudo o que lhe passa pela cabeça…

            Creio que não há razões para comemorar a vitória eleitoral de um homem “vazio” – vazio de ideias e programas. Seu “programa” se resumiu ao antipetismo recheado de ódio; ao discurso violento contra mulheres, negros, minorias e os que ele chama de “bandidos”; às ameaças contra instituições democráticas; e à militarização da sociedade como “programa de segurança” – isso na verdade é guerra, não é segurança: não há segurança na guerra.

          Por que comemorar a vitória do candidato que praticou abuso de poder econômico na boca das urnas, cometeu crime de falsidade ideológica ao não declarar o apoio de 12 milhões recebidos de empresários em caixa dois, usou e abusou criminosamente da mentira e da calúnia (fake news) na internet? Tanto que seu  mandato já está sub judice no TSE – resta saber se esse tribunal terá forças para aplicar a lei.

         Mas há, sim, um “vencedor”, um que tem razões de sobra pra comemorar a vitória de Jair Bolsonaro: o “mercado”. Esse venceu. O nacionalismo tosco do presidente eleito – já disse seu guru econômico Paulo Guedes – vai privatizar tudo; vai pôr abaixo o que resta das empresas públicas e semipúblicas do país, inclusive as estratégicas como, por exemplo, a Embraer e a Petrobras – o pré-sal, que seria nossa redenção energética, já está indo embora!

            O ódio dos brasileiros contra o petismo e a malchamada “corrupção do PT” fez com que os eleitores de Bolsonaro, fechando os olhos para tudo isso, votassem com o fígado, em vez de fazê-lo com a razão. Foi o antipetismo odiento e o moralismo seletivo, voltado apenas contra o PT, que definiram o resultado dessas eleições – não foi nenhum mérito do candidato “vitorioso”, que muitos definem como “vazio” ou “despreparado”.

           E é justamente o ódio (político e social) espalhado pelo país afora que está por trás do resultado desta eleição. Isso é mau sinal. E a culpa por esse ódio todo não é só do Bolsonaro: no fundo, Bolsonaro é um produto dele, não a causa. Esse ódio, que tornou o país “tóxico”, tem várias causas: umas próximas, outras mais remotas; umas conjunturais, outras estruturais.

    As causas próximas foram a eterna “cruzada” da mídia contra o Partido dos Trabalhadores (não há um dia sequer que não se veja alguém nos jornais, no rádio e nas televisões malhando um petista), bem como a criminalização da sigla promovida, seletivamente, por setores do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário – muitas vezes em inexplicável parceria com a mídia.

          Já, as causas estruturais, ou remotas, estão no nosso passado histórico. Como disse o escritor moçambicano, Mia Couto, o Brasil nasceu de um passado de “escravatura, violência racial e genocídio”. Essa herança fundacional sobrevive e alimenta até hoje o ódio de classe; estamos longe, muito longe, de superar a dicotomia “casa-grande e senzala” – até os nossos “doutores”, sedizentes mais letrados, ignoram a história do país.

          Neste momento, a maioria dos eleitores votantes resolveu pôr no governo central um político que representa os interesses da casa-grande (e do “mercado-grande”); um homem que desdenha publicamente das vítimas de nosso passado escravocrata, violento e genocida – escravizamos e matamos negros e índios como nenhum outro país na América Latina o fez.

          Com a elite que temos, será muito difícil superar essa herança, esse ódio – que jaz nos subterrâneos da formação de nosso povo. A eleição de um candidato autoritário, que faz apologia da tortura, e que incita (com os militares no poder e o armamento da população) o país a travar uma “guerra” interna, uns contra os outros, tem levado muitos a dizer que o conceito do “brasileiro cordial” é só um mito, nada mais.

         Quando o ódio vence, não há vencedores – todos perdem. Felizmente, os 55% de votos obtidos pelo candidato vitorioso nas urnas representam pouco mais que um quarto, ou 25%, da população brasileira (ao redor de um terço do eleitorado, apenas). Portanto, não dá pra generalizar; não dá pra dizer que “os brasileiros”, como um todo, são neofascistas, neomilitaristas e neocolonialistas – talvez ainda haja esperança; talvez ainda haja o quê comemorar.

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