Esqueça o fascismo

           DISCUTEM sobre se o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, é ou não é fascista. Há quem afirme, por um lado, que suas ideias e atitudes contêm, sim, todos os traços de uma mentalidade fascista. Por outro, há quem diga que ele é apenas um político de extrema direita, que não poderia ser considerado um autêntico representante do fascismo.

             A meu ver, não é hora de discutir, nem classificar, o perfil desse candidato à luz do fascismo – que foi um movimento totalitário surgido na Europa dos anos 30, especificamente na Itália e na Alemanha, com Hitler e Benito Mussolini -, cujo conceito ficou um pouco confuso, até mesmo entre os teóricos da política; nem sempre esses estudiosos se entendem acerca do que o termo “fascismo” designa exatamente.

           Para os brasileiros, neste momento, não interessa muito a definição e a classificação do perfil do candidato utilizando um conceito que não nasceu entre nós e que já está perto de completar cem anos – não quero aqui propor o “esquecimento da história”; o que se pretende é apenas apontar a “urgência da história”, ou seja, aquilo que os brasileiros deveriam considerar, de imediato, neste momento em que escolherão seu governante máximo.

        É que nestas eleições, especificamente, não estão em jogo apenas programas de governo, planos econômicos, ou medidas político-administrativas de execução desses planos e programas… está em jogo, está em risco a própria democracia.

          E quem pôs em jogo a democracia – que mal ou bem vinha funcionando há trinta anos – foi o candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro. E nisso, os analistas são unânimes, tanto à direita quanto à esquerda. Embora – verdade seja dita! – boa parte da mídia nativa também tenha colaborado (e muito) para o surgimento de um candidato ameaçador como esse ex-capitão.

              Os riscos que ameaçam o nosso sistema democrático, com essa candidatura radical de extrema direita, têm pelo menos três eixos que definem muito bem o perfil do candidato: (a) propostas autoritárias; (b) concepção militarista de sociedade; (c) discurso do ódio. Vejamos, ligeiramente, cada um desses eixos e como eles, de fato, ameaçam a democracia e até a paz social.

         As propostas autoritárias são aquelas que visam impor soluções arbitradas, sem discussão e sem nenhum sistema de controle. Por isso, elas têm pouco (ou nenhum) apreço pelas instituições democráticas e pelo debate político. Não é à toa que o candidato Bolsonaro já falou em “fechamento do Congresso” e vive falando na “eliminação dos adversários políticos” e dos movimentos sociais.

             Seus correligionários – vice e deputados eleitos -, inspirados nessa linha autoritária do candidato ultradireitista, já falaram em “autogolpe de Estado”, “fechamento do STF”, “impeachment e até prisão dos ministros da Suprema Corte” que, eventualmente, vierem a decidir contra seus projetos e suas propostas autoritárias.

            A concepção de uma sociedade militarizada é outra ameaça, outro risco. E bastaria dizer uma única coisa para demonstrar a procedência dessa ameaça: nas democracias, o poder armado nunca pode fazer política. A razão é óbvia: quem tem meios (armas) de constranger pela força não está em pé de igualdade com os demais agentes políticos, cuja arma é apenas o diálogo, a argumentação.

           Lembremos que o candidato Jair Bolsonaro disse que os militares exercerão um papel relevante no seu governo (ocupando Ministérios e a vice-presidência da república); disse que fortalecerá as polícias, mantendo-as militarizadas, subordinadas ao Exército; e, não bastasse tudo isso, afirma ainda que ampliará o número de escolas públicas administradas por militares em todo o Brasil.

           Por fim, o discurso do ódio. O candidato Jair Bolsonaro tem uma personalidade e um perfil político claramente agressivos, beligerantes – já foi assim considerado até por seus pares no Exército, que o viam como uma pessoa ambiciosa e de “argumentação agressiva”. Foi classificado pelo ditador Ernesto Geisel de um “mau militar”; foi rejeitado até mesmo pela direitista francesa Marine Le Pen e pela imprensa mundial, que o considera “repulsivo” (The New York Times).

           (Até os parentes distantes de Bolsonaro, que vivem na região de Anguillara na Itália e se assinam “Bolzonaro”, estão assustados com o discurso do candidato. Uma integrante da família, referindo-se ao discurso que ele faz sobre mulheres, negros e gays, se perguntou: Como é que alguém pode se eleger presidente de um país como o Brasil com um discurso desses?”.)

         Essa agressividade do líder ultradireitista (como toda agressividade) desperta ódio, intolerância e, consequentemente, violência. O ódio e a violência sempre têm um alvo certo. A História revela que, inicialmente, esse alvo são as minorias divergentes, quer dizer: aqueles que não se enquadram nos padrões de poder e cultura estabelecidos arbitrariamente pelos que, em dado momento, detêm a direção do Estado e do establishment.

       Depois, o ódio, a intolerância e a violência se espalham de maneira insidiosa, progressivamente, quase imperceptível: atingem as famílias, as amizades, os vizinhos e, finalmente, toda a sociedade. Nesse momento é que se dá a atuação mais incisiva, e mais dramática, das chamadas “milícias paramilitares” ou “grupos de extermínio” – movimentos voluntários de apoio aos regimes de força.

       Aliás, mecanismos que o candidato Bolsonaro aplaude e, com isso, incentiva expressamente a proliferação de tais grupos, que já andam mostrando a cara nas redes e nas ruas – há vários episódios de violência política pelo país, tanto física quanto virtual; inclusive contra o próprio Bolsonaro. Mesmo antes de vencer as eleições, já há órgãos de imprensa (Folha de S. Paulo) pedindo proteção policial do Estado contra correligionários do candidato. É grave.

           O perigo maior aqui nem é tanto a violência de Estado, a atuação atrabiliária dos órgãos oficiais de repressão (polícias, Exército, Justiça etc.), muito embora o candidato tenha dito – vê se pode! – que vai dar carta-branca pra polícia matar.

             O grande perigo está na proliferação descontrolada das milícias, dos grupos radicais que partem para a violência física (vide os “camisas-negras” na Itália fascista), sobre os quais o candidato Jair Bolsonaro disse não ter nenhum controle – já lavou as mãos antecipadamente.

        Isso tudo, numa sociedade armada – com as armas que o candidato extremista pretende liberar, e poderá fazê-lo até por Medida Provisória, sem o aval do Congresso -, é o caminho mais rápido para o caos: ou seja, uma sociedade de arma na mão, liderada por um radical autoritário e avesso ao diálogo, sob forte atuação de grupos paramilitares é tudo o que se precisa para uma guerra interna – é tudo o que os brasileiros não precisam.

          (Sobre o assunto, valeria a pena dar uma lida no artigo “Receita para uma guerra civil”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, publicado recentemente no jornal O Globo, em 12.10.18 – está disponível na internet.)

           Em suma, a primeira coisa que nós, os brasileiros, precisamos perceber – seja lá de que maneira for – é que estamos num momento de encruzilhada da nossa história. E nas encruzilhadas assim, a única arma é a razão, o discernimento, a solidariedade. Ou seja: não estamos passando simplesmente por mais uma eleição; por uma eleição qualquer.

           Por isso, neste momento (pelo menos neste!) o voto precisa ser definido acima de quaisquer preconceitos ou quizílias ideológicas e sociais  – precisamos mais do que nunca de alguma racionalidade, de algum sentido coletivo. Porque o contrário, o voto emocional, o voto cegado pela paixão ou pelo ódio, nós já sabemos aonde vai dar – aí sim, a história do fascismo europeu poderá nos ajudar a compreender mais, e melhor, este nosso delicado momento; esta nossa responsabilidade.

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