Abafa o caso

            O JORNAL Folha de S. Paulo – com impressionante riqueza de dados e detalhes – revelou que a campanha do candidato Jair Bolsonaro, por meio do WhatsApp, é fraudulenta. Caracteriza-se por doação ilegal de empresas, caixa dois, falsidade ideológica e abuso de poder econômico – talvez até se pudesse dizer que há uma organização criminosa por trás de toda essa campanha.

           Estamos diante, portanto, de um caso clássico de corrupção política. Apesar disso, não se viu nenhuma revolta por parte daqueles antigos paneleiros que queriam “passar o Brasil a limpo” e acabar com os corruptos – vai ficando cada vez mais claro que a revolta daqueles “honestinos” contra a corrupção não tinha nada a ver com honestidade: o que queriam mesmo era o terceiro turno pra derrubar Dilma Rousseff.

          Digo isso porque a corrupção política praticada pelo ultradireitista Jair Bolsonaro, que acabou de ser desmascarado por um órgão de imprensa insuspeito de ser favorável ao candidato da esquerda, não revolta mais ninguém: não revolta a mídia e nem mesmo as autoridades incumbidas de combater os corruptos.

           A própria Folha de S. Paulo, que denunciou o caso por meio do trabalho corajoso da repórter Patrícia Campos Mello (que já passou a ser xingada de “puta” pra cima pelos simpatizantes de Bolsonaro), baixou o tom e “tirou o pé do acelerador”: denunciou o caso num dia e no dia seguinte trouxe matéria apenas com a defesa do candidato fraudador – de qualquer forma: ponto pra Folha e sua corajosa jornalista.

         Já, os outros órgãos de comunicação de massa não deram destaque pro escândalo – se noticiaram, foi bem discretamente; quase às escondidas. As autoridades encarregadas de tomar as providências (TSE, Ministério Público e Polícia Federal), idem: permaneceram bastante discretas, dóceis, sem nenhuma iniciativa, sem nenhum rigor – se reuniram quase dois dias pra discutir e tomar alguma atitude.

       Nesse ínterim, foi preciso que uma empresa privada (WhatsApp Inc.) tomasse espontaneamente as medidas que a justiça deveria ter tomado para que, só assim, as autoridades se mexessem e a mídia noticiasse o fato. Ou seja, o WhatsApp bloqueou milhares de contas e, sobretudo, as contas das agências de mídia suspeitas de receber dinheiro para fraudar as eleições em benefício de Jair Bolsonaro.

          Aí, o TSE se mexeu: recebeu e mandou instaurar a Ação de Investigação Judicial proposta pelo PT contra a chapa da extrema direita. Porém, o ministro encarregado do caso (que no passado votou contra a candidatura de Lula) negou os pedidos de busca e apreensão solicitados pelo Partido dos Trabalhadores – disse que apreciaria as medidas cautelares somente após ouvir o Bolsonaro. Ah, tá!

        Tá bom que o Bolsonaro e sua turma vão ficar mantendo seus registros digitais e equipamentos à espera da futura apreensão do TSE! (É oportuno lembrar – e como não lembrar, né? – que o ex-presidente Lula nunca mereceu esse mimo: teve buscas e apreensões feitas de supetão, tarde da noite, de manhãzinha, fora de hora, em sua casa, na casa de seus filhos, e até nas coisas da neta mexeram para apreender o celular  da menina.)

           Vai vendo a diferença de tratamento. Vai vendo a disposição, o rigor e a eficiência das autoridades num caso e no outro. E para completar a delicadeza da Justiça, alguns ministros do TSE já estão dizendo que é melhor não fazer muita “marola” com esse caso do Bolsonaro, para não atrapalhar o resultado das eleições. Sacou?

          A Rede Globo, ante a iniciativa espontânea do WhatsApp Inc., não tinha mais como não noticiar o escândalo. Dedicou oito minutos do Jornal Nacional para relatar objetivamente o caso, mas não localizou nem ouviu nenhum dos envolvidos – não mostrou a cara de ninguém; nem mesmo (e muito menos) a cara do candidato beneficiado pela fraude.

          Sacou como é que se faz pra noticiar e não noticiar, pra mostrar e esconder as coisas ao mesmo tempo?

           Os demais órgãos de mídia – rádios, sites, revistas e jornais, liderados pela Globo -, já mandaram o caso Bolsonaro pras calendas – o silêncio do jornal Estadão chega a ser cômico! -, e ninguém fala mais em fraude – nem a Folha de S. Paulo. Tampouco convocarão aquela turma branca, limpinha e animada das camisetas verde-amarelas pra encher a avenida Paulista e protestar contra a corrupção política – cadê MBL, Vem pra Rua e cia. limitada?

           Enquanto isso, a apuração dos vários crimes e abusos cometidos pela campanha de Bolsonaro seguirá a conhecida marcha do “devido processo legal”, sem pressa, melindrosamente, com todos os prazos, recursos e sem nenhuma daquelas medidas draconianas que costumavam vir de Curitiba, quando os investigados eram os políticos da esquerda. Ao chegar – se chegar – a decisão deste caso Bolsonaro bem depois das eleições… já era. Sacou?

        E os eleitores enganados, manipulados pela campanha fraudulenta do candidato, como é que ficam nessa história toda, hein?

           Bem, consta que esses, com seus celulares entupidos de fake news – acreditando até em “kit gay” –  vão votar no próximo dia 28 para moralizar o país, “varrer” os políticos corruptos, botar “ordem na casa”… e pelo que dizem as pesquisas, votarão em peso no candidato que terá fraudado as eleições. Como diria um conhecido narrador esportivo da atualidade: “Que beleeeza!”.

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