Esqueça o escândalo

         IMAGINEM o que aconteceria se a candidatura do petista Fernando Haddad fosse acusada, por uma reportagem-investigação da Folha de S. Paulo, de receber 12 milhões de reais ilegalmente, como caixa dois, para comprar pacotes e espalhar centenas de milhões de mensagens pelo WhatsApp, a maioria delas mensagens fake, contra o partido (PSL) do candidato Jair Bolsonaro.

           Conseguem imaginar o bafafá?

           Claro que essa notícia teria bombado no Jornal Nacional da Rede Globo no mesmo dia; seria matéria de capa do Estadão e do jornal O Globo, daqui até a eleição; matéria de capa das revistas Veja, Istoé e Época, desta e da próxima semana; o Ministério Público já estaria no calcanhar dos empresários que fizeram isso; o tesoureiro do PT estaria preso preventivamente; e o candidato Fernando Haddad, no mínimo, teria sido arrastado numa condução coercitiva para prestar esclarecimentos na Polícia Federal.

            Mas não. Não aconteceu nada disso. A reportagem-denúncia da Folha de S. Paulo, revelando que empresários bancaram a compra de pacotes para o disparo em massa de mensagens anti-PT, indicando os nomes das empresas que deram esse apoio ilícito a Bolsonaro, revelando quem foram as empresas que prestaram esse serviço ilegal, e esclarecendo até o valor individual pago por cada mensagem, tudo tim-tim por tim-tim… não deu em nada.

          Os grandes jornais simplesmente ignoraram esse crime eleitoral; o Jornal Nacional da Rede Globo fez que não sabia de nada e que isso era uma acusação do Haddad; o Ministério Público não intimou ninguém; a Justiça Eleitoral não prendeu nenhum tesoureiro de campanha; e o candidato Bolsonaro (que já está liberadinho da silva, pelos médicos, até pra comparecer a debates) não sofreu nenhuma condução coercitiva; não foi sequer interpelado.

          Ao contrário. Reagiu ameaçando processar o jornal que o denunciou; processar seu oponente Fernando Haddad que nada fez; dizendo que tudo isso não passa de armação dessa quadrilha, desses bandidos, desses idiotas que estão lá no PT e que querem implantar no Brasil um socialismo igualzinho àquele que tem na Venezuela – e o pior: o jornal Folha de S. Paulo afinou e todo mundo acreditou (convenientemente) no candidato valentão.

         Essa reportagem da Folha revela um caso clássico de corrupção política. De caixa dois. De abuso do poder econômico. De sonegação dos valores de campanha, sem contar o crime digital das fake news espalhadas contra o PT. É caso, no mínimo, de cassação da chapa beneficiada – claro que dentro de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), com ampla defesa e contraditório – e subsequente investigação criminal.

           Nada disso acontecerá. Os petistas, que fizeram a reclamação eleitoral no TSE – aliás, como era de seu dever -, podem tirar o cavalinho da chuva.

      A democracia brasileira continuará sendo hackeada, e o voto dos eleitores de Bolsonaro seguirá digitalmente “blindado”. Ninguém consegue impedir essa enxurrada de fake news nem pôr na cabeça dos eleitores manipulados que eles estão sendo vítima de uma propaganda sórdida, como aquela que, surpreendentemente, levou o fanfarrão Donald Trump à Casa Branca.

            Por falar nisso, você bem que poderia “dar um Google” pra ver a fotografia do filho de Jair Bolsonaro ao lado de Steve Bannon, exatamente o homem que comandou a maracutaia do WhatsApp na eleição norte-americana do Trump, e que está fazendo a lavagem cerebral de eleitores em outros países com a finalidade de estabelecer a hegemonia ideológica da extrema-direita na América e em boa parte do mundo europeu.

         Foi assim, com essa manipulação digital por meio de algoritmos, robôs e computadores sofisticadíssimos que Steve Bannon enfiou o Trump na cabeça e na goela dos americanos, e agora está enfiando goela abaixo dos brasileiros um candidato tosco como Jair Bolsonaro, que, à custa de muita mentira, conseguiu aparecer aos olhos de boa parte do eleitorado como um político antissistema – e honesto.

              Abra o olho, companheiro!

            Não tem nada mais velho que o Jair Bolsonaro na política brasileira. Foi deputado por 28 anos e nada fez. Recebia auxílio-moradia e escarneceu de seus eleitores dizendo que utilizava esse benefício para – pasmem! – “comer gente”, ou seja, para alugar uma bela casa onde fazia sexo com gente de seu naipe – vê lá se isso são modos de quem quer ser presidente da república!

           É tão “velho” que ainda é daqueles políticos profissionais que fazem “política em família”: está no Congresso há quase três décadas e já enfiou mais três filhos na carreira. É tão honesto que confessou ter recebido propina da JBS; passou por outros seis partidos, todos eles investigados na Lava Jato; registrou um aumento de 168% de seu patrimônio desde 2006; e aumentou o patrimônio de seu filho Eduardo em 432%, só nos últimos quatro anos – tudo isso segundo a pesquisadora Silvana Krause, da UFRGS.

             É esse pacote que você tá comprando, amigão. Esqueça a reportagem da Folha de S. Paulo revelando o crime eleitoral de Bolsonaro, de seu partido, e dos empresários que o apoiam. Esqueça as fake news disparadas contra o PT. Esqueça que o Steve Bannon existe e faça um bom proveito do seu voto – só não vale reclamar depois, nem dizer que anulou ou votou em branco; essa desculpa eu já conheço desde os tempos do Collor.

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