Debate, não

        SE um candidato à presidência da república nos Estados Unidos deixar de comparecer aos debates de campanha eleitoral, jamais chegará à Casa Branca. Isso nunca aconteceu naquele país: nenhum candidato (republicano ou democrata) deixou alguma vez de comparecer aos debates polarizados na reta final de campanha. E por quê?

      Porque isso seria considerado pelos norte-americanos como um grande desrespeito ao povo, e o candidato seria tido por covarde, impostor: quem se propõe a governar e liderar um país deve apresentar-se publicamente, com suas propostas, seus programas, suas ideias e argumentos; deve, portanto, expor o que pensa e revelar o que é: como político e como pessoa.

        No Brasil estamos assistindo o contrário. A maioria do eleitorado, neste momento, tende a votar num candidato que foge, que se recusa a debater suas propostas, seus programas e ideias. Um candidato que prega a violência e pede ao eleitor brasileiro que lhe dê um “cheque em branco”, pondo-o no Palácio do Planalto sem saber quais são seus verdadeiros planos, seus reais objetivos, quem são seus apoiadores…

         Mas, é compreensível que esse candidato não queira debater com seu opositor. Sua recusa tem aí uma meia dúzia de razões.

        Primeira delas: ele não tem um programa de governo claro, concreto e factível para submeter ao debate; não apresentou até hoje suas propostas para tratar os grandes e mais urgentes problemas brasileiros: retomada do crescimento econômico, administração da dívida pública, juros altos, política de câmbio (apreciado/depreciado), política externa, distribuição de renda, acesso à saúde e educação.

       Segunda razão: além de não ter um programa definido, trata-se de um candidato “vazio”; suas opiniões são monotemáticas e fundadas apenas no senso comum. Seu discurso é raso; quase infantil. O candidato não dispõe, sequer, dos recursos de retórica de que dispunha, por exemplo, um Fernando Collor, que também era “vazio”, populista, mas manejava alguma oratória.

     Terceira: as ideias do candidato são racionalmente insustentáveis; moralmente indefensáveis. Seu discurso é um discurso fundado no ódio, no preconceito e na discriminação. Está sempre irado e sua obsessão é matar. Ele abre a boca e perde voto. Tanto é verdade que a tática dele, nestes dias finais de campanha, é não dar sequer entrevistas – que dirá ir a debates.

     Quarta: o candidato sabe que não tem preparo nem condições intelectuais para enfrentar seu opositor num tête-à-tête; não tem a mínima condição de debater com alguém que ostenta formação humanística e multidisciplinar, como seu oponente, que é um intelectual formado em Direito, professor de Ciência Política, com pós-graduação em Economia e Filosofia – o candidato foge porque sabe que seria “engolido” pelo adversário.

        Quinta: o mau uso do português. O candidato fujão não consegue falar sem cometer graves erros de comunicação. (Não se trata apenas de “vícios de linguagem” – como os de Lula e de todos nós -, nem de pequenos erros que a linguagem oral tolera perfeitamente bem – são erros grosseiros de expressão.) Ou seja: além de não ter conteúdo, o candidato atropela a sintaxe e seria um desastre em qualquer duelo verbal.

      Última razão: ele não tem a serenidade e o comedimento necessários a qualquer debatedor. Sua comunicação é agressiva. A toda hora, na sua linguagem, surgem termos ameaçadores como “canalha”, “idiota”, “vagabundo”, “marginal” etc., revelando um notório destempero. Aliás, seus pares, no Exército, o consideravam “excessivamente ambicioso, agressivo e desequilibrado na argumentação”.

       Por todas essas razões, o ultradireitista que postula a presidência da república nestas eleições não comparecerá a debate algum. Este pleito eleitoral ficará marcado pela mentira (fake news); pela truculenta manipulação do eleitorado via WhatsApp; pela ausência do debate em torno de programas, e pela irracionalidade política que sufocou o senso crítico de muita gente – inclusive dos que se consideram letrados, instruídos e cidadãos conscientes.

       Não há política sem debate e informação. A essência da política é a divergência, o contraditório e a transparência das ideias. Só com isso é que se constrói o consenso e o bem comum – objetivos maiores da política, desde Platão, para solucionar conflitos coletivos.

      Esta será, portanto, uma eleição “no escuro”. É nas trevas, no obscurantismo que as ideias retrógradas e autoritárias encontram seu terreno fértil; foi nesse terreno que uma candidatura bizarra, que não era levada a sério por ninguém, se impôs e conseguiu seduzir grande parte do eleitorado brasileiro.

        Desse modo, mergulhada na mentira e na desinformação, pode-se dizer que esta será uma eleição-fake. Ou, uma antieleição, de um anticandidato, que manipulou seus antieleitores – quando a História apresentar a conta e faltar tudo – até a liberdade -, será mais fácil encontrar um dinossauro passeando por aí do que um eleitor que terá votado no candidato que fugia dos debates.

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