Uma anticampanha inexplicável

       O CANDIDATO Jair Bolsonaro, por mais paradoxal que isso possa parecer, vive fazendo campanha contra si mesmo: é só abrir a boca e lá vem petardo contra a própria candidatura. E faz tempo. Desde o início de sua longa carreira política, como deputado, ele faz campanha contra si… e sempre acaba eleito; vai entender!

          Vejamos se não é verdade.

       O eleitorado brasileiro é composto por 52% de mulheres, portanto, a maioria dos eleitores. E o que faz o candidato para cativar o voto feminino? Diz que não empregaria uma mulher com salário igual ao de um homem; diz que quando teve uma filha mulher foi porque ele “fraquejou”; diz ainda que feminicídio é puro “mimimi”; e mais: segundo ele, tem mulher que não merece nem ser estuprada (há alguma que mereça, candidato?).

            Os negros, pretos, pardos, enfim, os afrodescendentes são maioria no país (51%). E o que diz o candidato para atrair essa fatia do eleitorado? Diz que seus filhos jamais se casariam com uma negra porque eles foram bem educados; e que os negros quilombolas são vagabundos, pois o mais leve que encontrou “pesava umas sete arrobas” – como se fosse um animal de engorda.

         Há pouco, uma pesquisa do instituto Datafolha revelou que 69% dos brasileiros consideram a democracia o melhor sistema de governo. E o que diz o candidato extremista para abocanhar essa enorme faixa do eleitorado democrata? Diz que é a favor da ditadura e que, se fosse eleito presidente, não hesitaria um minuto em fechar o Congresso e dar um golpe na democracia, pois – ainda segundo ele -, o voto não serve pra nada.

           O Brasil é um país religioso, considerado majoritariamente católico. E o que diz o candidato Bolsonaro sobre o quinto mandamento (Não matarás!) para cativar essa imensa maioria do eleitorado cristão? Diz que para pôr ordem no país é preciso matar uns trinta mil, mesmo que sejam inocentes; diz ainda que a ditadura militar instalada em 1964 errou porque matou muito pouco; e diz também que é a favor da tortura e da pena de morte.

        A diversidade sexual no Brasil é um direito defendido pelos democratas, tanto de esquerda quanto de direita – orientação sexual não tem ideologia. Não se trata apenas de uma reivindicação LGBTSI – as Paradas Gay põem milhões e milhões de pessoas nas ruas de todo o país. E o que faz o candidato extremista para captar o voto de todos esses milhões de defensores da causa? Diz que tem imunidade parlamentar para dizer que é, sim, homofóbico.

          O Brasil é um país com elevadas taxas de pobreza e exclusão social; são muitos milhões de compatriotas vivendo nessa condição. E o que diz (e faz) o candidato para captar esses milhões de votos? Diz que o Bolsa Família é uma mentira. Que pobre tem que trabalhar, como todo mundo. Que é contra as cotas para pobres. Que vai reduzir os impostos pagos pelos ricos.

          A imensa maioria dos brasileiros (creio) são pessoas pacíficas, avessas a qualquer tipo de violência. E o que diz o candidato para conquistar o voto dessa maioria de eleitores que desejam a paz? Diz que vai armar a população porque só uma guerra civil é que poderá pôr ordem na casa. E diz ainda que as crianças (como fez com seus próprios filhos) devem aprender a usar um revólver desde os cinco anos de idade.

            O país inteiro está encrespado com esse negócio da corrupção política, querendo prender tudo quanto é corrupto. E o que diz o candidato Bolsonaro sobre corrupção e honestidade, para seduzir esse eleitorado moralista? Diz que é sonegador. Que sonega tudo o que pode. Que recebeu, sim, 200 mil reais da JBS. E que seu partido recebe propinas porque todos os outros recebem.

            A classe trabalhadora é a classe majoritária no país, portanto, representa milhões de votos. E o que diz (e faz) o candidato da ultradireita para captar o voto dessa classe? Diz que trabalhador tem direitos demais, e vota a favor da reforma trabalhista que acabou de destroçar a CLT adotando o trabalho intermitente, o trabalho sem carteira assinada, a redução da licença-maternidade, redução do descanso remunerado, impossibilidade de reclamar na justiça etc., etc., etc.

          A economia brasileira, como se sabe, está desandando. Será uma debacle que atingirá milhões de lares, milhões de eleitores. E o que é que o candidato diz sobre seu programa quanto à geração de emprego, geração de renda e crescimento econômico para cativar esses eleitores aflitos com os rumos da economia? Diz simplesmente que não entende nada de economia.

            Como se vê, nem os opositores de Bolsonaro fariam uma campanha tão competente contra ele. O homem é um desastre! E detalhe: tudo isso aí acima está gravado, está na internet pra quem quiser ver e ouvir – não é boato, não é fake news – é só “dar um Google”. Mesmo assim, o candidato extremista tem ao redor de 60% da preferência do eleitorado, e só por milagre, por um triz, não ganhou a eleição no primeiro turno.

          Eu sei. Muitos vão dizer que esse paradoxo Bolsonaro é explicado pelo antipetismo. Isso não é bem verdade. Tem, sim, antipetismo, mas as pesquisas indicavam que se Lula fosse candidato ganharia a eleição com folga – e no primeiro turno. A soma das intenções de voto de todos os outros candidatos, inclusive do próprio Bolsonaro, jamais alcançaria os percentuais de Lula, que estava isolado na ponta.

        Já estão explicando esse “fenômeno Bolsonaro” até com teorias que têm um quê de conspiratórias: a eleição brasileira estaria sendo manipulada pela Cambridge Analytica (ou sua parceira) através do WhatsApp e Facebook, com mais de 400 robôs coordenados pelo mesmo homem (Steve Bannon) que manipulou o eleitorado norte-americano na eleição de Trump usando o algoritmo das pessoas e espalhando fake news, memes e meias verdades que enganaram até os que se achavam mais esclarecidos.

          Na verdade, será muito difícil – talvez até impossível -, explicar esse súbito “sucesso” eleitoral de um candidato que faz campanha contra si próprio; que se autodestrói eticamente. Na vida, tem coisa que não tem explicação!

        Não vá querer imaginar que a racionalidade humana prevalece o tempo todo. O eclipse da razão, como dizia Max Horkheimer, é algo que jamais poderá ser descartado. Pois a “razão subjetiva” (inexplicável por critérios racionais) uma hora ou outra sempre poderá prevalecer e instrumentalizar a “razão objetiva” – o problema é que o preço disso costuma ser alto, muito alto.

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