Por quê?

         NUMA entrevista a um grande jornal de São Paulo, o professor Janson Stanley da Universidade de Yale (EUA), cientista político, disse não entender por que os brasileiros não acreditam no candidato Jair Bolsonaro quando ele se diz favorável à tortura, quando faz apologia da ditadura militar, quando ataca minorias, desdenha os direitos humanos e ameaça dar um golpe na democracia – o professor norte-americano não entende por que os brasileiros não levam nada disso a sério.

            O candidato da extrema direita já disse que não aceita outro resultado que não seja sua própria vitória; e seu vice, general Mourão, já admitiu pública e expressamente a possibilidade de dar um “autogolpe” em caso de baderna. Por aí se vê o “apreço” de ambos pela democracia e pela soberania do voto popular.

           A votação obtida por Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial (46% dos votos válidos; 48,9 milhões de votos) parece revelar que boa parte dos eleitores brasileiros ou concorda com o discurso neofascista do candidato ou não acredita que ele, uma vez eleito, vá pôr em prática todas essas sandices que anda defendendo abertamente, sem escrúpulos – e desde muito tempo.

           Mas o porquê da votação expressiva no candidato da extrema direita não é assim tão facilmente explicável – creio que sua votação não se deve apenas ao fato de que uma parte dos eleitores pensa como ele e a outra parte não se importa ou não acredita nas coisas que ele pensa, e fala; o vice também gosta de reforçar o discurso autoritário e catastrófico do presidenciável.

          Está muito claro que a gigantesca votação de Bolsonaro, que por pouco não obteve a vitória já no primeiro turno, tem outras explicações – as catástrofes quase sempre são o resultado da convergência de muitos fatores.

          O primeiro deles: mesmo sendo um obscuro deputado do chamado baixo-clero (está na Câmara há trinta anos e até hoje não apresentou um projeto que preste); mesmo tendo enfiado três filhos na política, Bolsonaro, por algum motivo inexplicável, conseguiu aparecer aos olhos da massa como alguém que vem de fora, um outsider, capaz de moralizar e pôr ordem na política atual que ele mesmo pratica.

          Ao se apresentar como outsider antissistema, como alguém que está “fora e contra o sistema político que está aí”, o candidato da extrema direita seduziu e captou os votos daqueles que hoje estão desencantados e rejeitam a política; exatamente a mesma política que ele (Bolsonaro) e sua família reproduzem há três décadas – esse é um fenômeno difícil de explicar.

             Outro fator: os aliados de Bolsonaro (ou até mesmo a cúpula de sua campanha; não se sabe ao certo) fizeram uma “competente” guerra de fake news no WhatsApp e Facebook, inclusive desmoralizando o movimento #elenão, que foi um dos maiores da história, ao veicular fotos falsas de mulheres com peitos de fora, com mensagens escritas nas nádegas etc., tachando-as de vadias – o que levantou uma “onda” moralista contra o movimento, favorecendo o candidato.

      Fator muito relevante foi que o ultradireitista, por razões até mais ou menos compreensíveis, captou praticamente todos os votos conservadores da direita e da centro-direita, ou seja, “sugou” quase toda a votação dos candidatos Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Marina Silva – apenas os eleitores de Ciro Gomes se mantiveram fiéis ao político cearense.

          Um quinto fator: o ex-capitão Jair Bolsonaro conseguiu personificar o antipetismo; atraiu para si a expressiva votação daqueles que historicamente não votam no Partido dos Trabalhadores de jeito nenhum, nem têm qualquer simpatia por Lula da Silva – Bolsonaro surgiu aos olhos dessa massa como o único homem capaz de evitar a volta do PT, do lulismo e da corrupção que a mídia pespegou, como uma tatuagem, só nos petistas.

         Sexto: a estrondosa votação de Bolsonaro se deve em grande parte a uma “onda conservadora” que se levantou às vésperas da eleição, impulsionada, sobretudo, pelo trabalho de convencimento feito pelas igrejas evangélicas neopentecostais – com a “máquina de propaganda” de Edir Macedo à frente -, captando o voto dos estratos mais pobres; votos que certamente seriam de Lula e do PT.

          Por último: a elevada soma dos votos inválidos (brancos e nulos) e as abstenções, totalizando quase 30 milhões de não votantes, contribuiu matematicamente para o rebaixamento do percentual de votos válidos – o que explica a quase vitória do candidato Bolsonaro já na primeira rodada de votações.

           Deve haver algum ou alguns outros fatores que também expliquem o que fez com que, e por quê, os brasileiros votassem maciçamente no candidato da extrema direita. Todavia, esses fatores não respondem àquela indagação inicial do professor norte-americano: por que motivo os eleitores de Bolsonaro não acreditam que o discurso autoritário do candidato é uma séria ameaça à democracia brasileira?

         Falam muito – sobretudo a direita -, que o Brasil estaria caminhando para uma “venezuelização”, mas na verdade o país está mais próximo é da “fujimorização” peruana, ou seja, mais perto de um golpe (ou “autogolpe”) civil com apoio militar, como o que Alberto Fujimori aplicou no país vizinho.

        Para tanto, bastaria que Jair Bolsonaro, cumprindo suas ameaças contra o que considera “baderna”, fechasse o Congresso Nacional (até com a aquiescência deste último, majoritariamente conservador e alinhado com o mandatário ultradireitista), cooptasse ou calasse a magistratura conservadora, arrematando com a suspensão das garantias fundamentais previstas na Constituição Cidadã de 1988. Pronto!

           O que espanta – e muito -, é o óbvio paralelo que alguns traçam com a Europa dos anos 1930 e 1940: exatamente como os eleitores de Bolsonaro, os de Hitler e Mussolini (basicamente a classe média conservadora e “ordeira”) também não levavam a sério esses dois ditadores, e não acreditavam que eles poderiam fazer o que fizeram – até hoje os alemães e italianos se perguntam por quê.

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2 respostas para Por quê?

  1. Magaly de Almeida Oliveira disse:

    Amo a maneira como usa o vocabulário nos seus textos. Nada de palavras rebuscadas, pois, assim, todos conseguem entender a mensagem que se quer transmitir. E sem ataques grotescos aos seus leitores. Não amo apenas suas palavras, amo o ser humano que você é.

    • Querida Magaly, nossa Magaly!
      Amo também a sensibilidade (e condescendência) com que você trata meus textos e a mim.
      Amo você e a todos que você ama.
      beijo graaaaaaande!
      Beto

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