Pesquisas e palpites III

        A PESQUISA do instituto Datafolha divulgada hoje revela que o candidato Jair Bolsonaro continua liderando as intenções de voto com 32%, seguido de Fernando Haddad com 21%. Revela também duas novidades: o líder cresceu 4 pontos percentuais nos últimos dias; e a rejeição a Fernando Haddad também cresceu, saltou de 32% para 41% – os demais candidatos, pela pesquisa, continuam fora do páreo.

             Por esses números do Datafolha, e também pela última pesquisa do Ibope que traz resultados semelhantes, já são possíveis algumas conclusões, ou palpites. Salvo um tsunami eleitoral – aquelas “ondas” irracionais na “boca da urna” -, teremos mesmo o segundo turno; e será entre os dois primeiros colocados nas pesquisas – nenhum deles tem condições de vencer na primeira rodada.

           A pesquisa Datafolha revela dois dados interessantes: mesmo depois de enfrentar um dos maiores protestos públicos contra sua candidatura – o movimento #Elenão das mulheres, no último sábado – Jair Bolsonaro não sofre nenhuma perda e, paradoxalmente, cresce 4 pontos, inclusive no segmento feminino – uma batalha travada na internet (com muita fake news) conseguiu neutralizar, e até reverter os efeitos do gigantesco movimento das mulheres contra Bolsonaro.

       O outro dado é o crescimento expressivo (9 pontos percentuais) da rejeição a Fernando Haddad. É óbvio que isso animou a turma da extrema direita e deixou a esquerda meio depressiva, ou alarmada. Pode ser que esteja em curso o mesmo fenômeno que elegeu João Dória contra o mesmo Fernando Haddad na última eleição para prefeito de São Paulo – mais isso é apenas uma hipótese.

            O aumento das intenções de voto em Jair Bolsonaro tem, sim, uma explicação; revela algo que já era previsível: a elite brasileira e a classe média conservadora está mesmo disposta a votar em qualquer coisa para derrotar o PT; e votará até no fascismo – até no capiroto, se for necessário -, para impedir a volta do PT ao poder, pois isso significaria a derrota do golpe de 2016.

           Para tanto, a elite golpista, o agronegócio, a classe média e as igrejas evangélicas neopentecostais se lançaram de corpo e alma na campanha de Bolsonaro – neste momento, ele é a única “tábua de salvação” contra a estrela do PT.

            O aumento da rejeição ao candidato Fernando Haddad também se explica por aí, e por um outro fenômeno inusitado: tanto a elite quanto a classe média arregaçaram as mangas e se atiraram à militância: estão fazendo o “boca a boca”, o “corpo a corpo”,  que só os petistas faziam – preste atenção: alguém desses estratos sociais mais elevados, na rua ou nas redes, tentará captar o seu voto; ou demonizar o partido de Haddad.

             Já as igrejas evangélicas fundamentalistas (neopentecostais) têm feito diariamente o trabalho de cabalar o voto dos pobres – que seriam do Lula -, demonizando a candidatura Haddad com o “discurso do medo”: medo da corrupção, medo da “quadrilha petista”, medo da “venezuelização”, medo de rebeliões e levantes como o das mulheres, medo do “bolivarianismo” etc. – percebe-se nitidamente que as pessoas andam com medo; e o medo é a grande arma do fascismo.

           Nesse ponto, o discurso da extrema direita – apesar de seu candidato boquirroto viver dizendo que “bandido bom é bandido morto”, que a ditadura deveria matar mais do que matou, que a tortura é aceitável e que a população deve andar armada -, por mais paradoxal que seja, esse discurso aparece como o “discurso da paz, ou da ordem” – Bolsonaro e seus correligionários vivem falando em Deus, Família e Moralidade.

       Enquanto isso, Haddad fala em mudança social, transformações estruturais da sociedade, combate a privilégios, justiça social, incorporação dos pobres na economia etc. Discurso da mudança. Essas coisas “perturbam” a ordem; qualquer mudança é sempre uma “perturbação” da ordem – mesmo que seja uma mudança para melhor, para uma ordem mais justa; são coisas que assustam a elite e a classe média conservadora.

          Nesta altura, muitas hipóteses, especulações e palpites são possíveis. Mas não há nada de tão novo nisso tudo. Muito embora não haja mais o fla-flu PT versus PSDB – e haja agora o crescimento de um candidato que até outro dia era uma caricatura (nem a direita o levava a sério!) -, fato é que as coisas se traduzem mais uma vez na velha dicotomia: petismo versus antipetismo.

            O petismo venceu as quatro últimas eleições, e venceria esta também se o candidato fosse Lula. Resta saber se a transferência dos votos de Lula para Haddad será suficiente para assegurar mais uma vitória da esquerda.

       Senão, o jeito é “já ir” se preparando para viver sem direitos trabalhistas, sem seguridade social, sem nossas empresas públicas e estratégicas, sem nossas riquezas naturais, sem democracia e sem soberania nacional – tudo isso está no programa e nas promessas do candidato da extrema direita; é só conferir.

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