Direita pândega

        A DIREITA brasileira se diz liberal, mas não é: ela é autoritária, pré ou antiliberal. Herdeira da casa-grande, é herdeira também dos valores, métodos e preconceitos das oligarquias escravistas e coloniais deste país. Por isso, pensando e agindo fora da realidade, fora de seu tempo, a direita no Brasil é atrapalhada – ou melhor, é pândega. Vejam um pouco do que ela produziu, só nos dois últimos anos.

         Acabou de dar um golpe de estado (2016) para tomar o poder e assumir o comando do país, mas os dois partidos da direita que capitanearam o golpe (PSDB e MDB) estão literalmente fora da corrida eleitoral para o Palácio do Planalto – foram varridos pela vontade popular; enquanto isso, o partido da esquerda, que havia sido golpeado e varrido pela direita, continua firme na disputa.

           A direita apostou todas suas fichas num candidato que o povo brasileiro não conhece e quando conhece, recusa: Geraldo Alckmin. O ex-governador de São Paulo se “apossou” do PSDB, assumiu sua presidência, atraiu o “centrão” para o seu lado, iludiu a direita, mas foi só começar a campanha e o candidato “derreteu” – o “centrão” fisiológico pulou fora do barco e a direita ficou sem candidato – a ver navios.

         Mas a incompetência da direita é tão inacreditável que, mesmo depois do golpe, mesmo depois de derrubar o Partido dos Trabalhadores, e “criminalizar” diariamente esse partido através dos meios de comunicação de massa (que a direita controla), mesmo depois de proclamar a “morte” do PT ainda é capaz de ver lá no Palácio do Planalto um presidente de qual partido? – isso mesmo, do PT.

        E pior. Depois de prender – sem crime e sem provas – o maior líder do PT, Lula da Silva, depois de fazer as peripécias jurídicas que fez para impedir a candidatura desse líder, depois de tentar destruir a imagem política do petista preso, a direita ainda é capaz de perder as eleições para quem? – para o Lula, que comanda todas as estratégias eleitorais de seu partido lá de dentro da cadeia.

             Não bastasse esse vexame, o candidato da direita que concorreu e perdeu pra Dilma Rousseff em 2014 – o moleque mimado Aécio Neves – perdeu agora também em Minas Gerais sua vaga para o Senado. E perdeu pra quem? – pra Dilma Rousseff. Segundo as pesquisas, Dilma é a favorita disparada pra tomar o lugarzinho do playboy no Senado, que foi um dos grandes responsáveis por toda essa trapalhada em que se meteu o Brasil.

          É tamanha a estupidez da direita trapalhona que, mesmo tendo nas mãos todos os meios de comunicação social de massas, liderados pela poderosa (e mentirosa) Rede Globo, mesmo assim, não conseguiu promover (ou sequer “fabricar”) um candidato melhor do que o insosso Geraldo Alckmin, que não arrebanha os votos nem de seus correligionários.

         Com seu golpe de estado, o máximo que a direita conseguiu foi produzir um “nada” como Michel Temer, para cumprir o mandato usurpado, cujo (des)governo dispensa comentários; e produzir também um candidato ogro – que pra louco falta pouco: Jair Bolsonaro, com todo seu fascismo, sua falta de programa e desorientação política – já passou por 8 partidos e não se encontrou… e não tem quem o assessore.

          Como se isso não bastasse, a direita atrapalhada conseguiu ainda assanhar a caserna: alguns analistas consideram que estamos próximos de um golpe militar, como em 1964. O próprio vice de Bolsonaro já fala em “autogolpe” e o comandante do Exército se arrogou o direito de dizer que o futuro presidente eleito pelo povo poderá não ser legítimo. A direita brasileira merece uma taça!…

         Agora, depois de ver a viola em cacos, depois de ver se consolidarem no segundo turno Haddad e Bolsonaro, a direita vem com mais uma sandice: esse papinho ridículo de que o centro deve se unir para derrotar os extremos, ou seja, Amoêdo, Ciro, Marina, Henrique Meirelles deveriam abrir mão de suas respectivas candidaturas, “altruisticamente”, em prol do Geraldo Alckmin, para barrar a esquerda e a extrema direita.

         São tão incompetentes que não percebem duas coisas óbvias. Primeira: é tarde, estamos praticamente na boca da urna. Segunda: Geraldo Alckmin é um candidato eleitoralmente inviável; está em campanha desde 2006, quando perdeu as eleições para Lula, é o governador que mais tempo comandou o Estado de São Paulo e continua patinando e caindo nas pesquisas – não empolga ninguém!

           Por obra e graça dessa direita brasileira (que ninguém merece!) estamos diante da possibilidade (toc, toc, toc na madeira) de ver na presidência da república um ex-militar; que tem como vice outro militar; que faz a apologia do militarismo; que tem como livro de cabeceira um manual de tortura; que adora o maior torturador do país e odeia negros, mulheres, índios, pobres e gays.

          Era mais ou menos previsível, desde quando os paneleiros tomaram conta das ruas (estumados pelos meios de comunicação empresariais) que a direita brasileira, pândega como é, apoiada cegamente por uma classe média conservadora, preconceituosa e sem consciência política (nem histórica), iria mesmo produzir muita lambança – não deu outra, velho.

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