Democracia adiada ou odiada?

            MUITO se engana quem pensa que a democracia é um objetivo universal – uma aspiração de todos. No seu impressionante ensaio, O ódio à democracia, o filósofo Jacques Rancière deixou claro que a elite ou intelligentsia dominante, que se julga superior e qualificada para “dirigir o rebanho cego”, tem ódio à igualdade, não admite a partilha de poder, e, por isso mesmo, odeia a democracia com todas as forças.

           O Brasil de hoje é um exemplo fulgurante dessa constatação feita pelo filósofo argelino-francês. Quando estávamos erguendo uma democracia com mais igualdade e mais liberdades públicas, depois de vinte anos de regime militar, a elite brasileira (apoiada por uma classe média alienada) aplica um golpe de estado no país, toma o poder à força, e interrompe a construção democrática.

               O governo golpista – se é que se pode chamá-lo de governo! – a primeira coisa que fez foi trazer novamente os militares para o centro da política. Eles estão ocupando postos importantes no governo atual, passaram a opinar sobre direitos, eleições e legitimidade dos governantes.

              Em parceria com a grande mídia golpista – que odeia a democracia pelas razões já apontadas por Jacques Rancière – os militares, pouco a pouco, vão se instalando no governo e na vida política do país.

            Às vésperas do julgamento de Lula – o maior líder popular da América Latina – um comandante das forças armadas, por meio do maior grupo de mídia brasileiro, se viu no direito de pressionar o STF para não conceder habeas corpus ao ex-presidente encarcerado.

              O homem que – na ausência de Lula – lidera as pesquisas de intenção de votos para a próxima eleição presidencial (e não por acaso tem mais votos no seio da elite brasileira) é um ex-militar com ideias neofascistas. Seu vice é outro militar, que já admitiu a possibilidade de aplicar um “autogolpe” e instalar um regime de exceção caso sejam eleitos pelo povo.

          O comandante do Exército concedeu ontem uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, um dos de maior circulação no país, para dizer que a legitimidade do governo eleito pelo povo no próximo escrutínio poderá ser algo discutível, e, portanto, algo que poderá ser corrigido por uma intervenção autoritária – para substituir o voto do povo e “tutelar” a democracia.

            Não por acaso, no dia anterior às declarações do dirigente do Exército, o jornal de maior circulação no país, Folha de S. Paulo, publicou uma pesquisa revelando que 72% dos moradores do Rio de Janeiro querem prorrogar a intervenção militar na segurança pública do estado.

            Há muitos grupos na rua, nas casas, nos lares e nos bares clamando pela volta do regime militar, ignorando, olimpicamente, o quanto houve de violência, de destruição de direitos e até de corrupção durante os governos de exceção instalados aqui em 1964. Há muita gente aplaudindo a volta dos militares à cena política, ignorando que nas democracias o poder armado não pode fazer política.

             A maioria dos brasileiros ainda não se deu conta: mas já estamos vivendo sob uma potencial tutela militar – isso é tudo o que a elite dirigente precisa para impor ao povo suas políticas e suas pautas econômicas – as pautas do “austericídio” que arrasaram muitos países da Europa e estão arrasando agora a Argentina.

            Por todas essas manobras, que envolvem os poderes coercitivos do Estado – e até o poder das armas -, não há dúvida de que, além de adiar, a elite brasileira, e os desavisados que a imitam, odeia a democracia, que vinha sendo construída no Brasil a duras penas, desde a Constituinte de 1988. O discurso das nossas elites é cinicamente democrático; sua prática autoritária, porém, é mais coerente com o que elas realmente são.

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