Mais polarização

           REALIZADAS as convenções partidárias, que indicaram seus respectivos candidatos à presidência da república, bem como os acordos que resultarão em futuras coligações dos partidos, já dá pra ver, nitidamente, que a próxima eleição continuará polarizada entre PT e PSDB; Lula ou Fernando Haddad de um lado e Geraldo Alckmin, do outro – as demais candidaturas, sem bases partidárias e sem tempo suficiente na TV, têm pouquíssimas chances.

        Essa polarização, PT versus PSDB, é até natural e é também didática. É natural porque os posicionamentos e tendências políticas, em qualquer lugar do mundo, no final das contas sempre acabam agrupando-se entre conservadores de um lado, e progressistas, do outro. Quer dizer: entre direita e esquerda; não tem muito segredo – é uma coisa quase que automática, intuitiva.

            Mas é ainda uma polarização didática, porque permite enxergar com mais nitidez (claro, quando se quer mesmo enxergar!) as forças políticas e econômicas que estão permanentemente em jogo nas eleições e no comando do país. Permite ver que essas forças existem realmente e que há um embate entre elas, com reflexo tanto nas eleições quanto nos governos.

       No nosso caso, ou, no caso das próximas eleições presidenciais, é óbvio que a candidatura de Geraldo Alckmin está ancorada em forças conservadoras (e, segundo alguns, retrógradas) da política brasileira – os partidos de direita e o chamado “centrão”. Que carregam consigo as oligarquias de Norte a Sul, a bancada da bala, os evangélicos, a grande mídia e representantes de alguns setores empresariais atrasados, pré-modernos.

       A candidatura contrária – seja Lula, seja Haddad – estará apoiada por forças claramente opostas: partidos de esquerda (PCdoB, PSOL, PDT, PROS, parte do PSB), sindicatos, movimentos sociais, classe trabalhadora, setores da classe média, setores da intelectualidade comprometida com mudanças, e, massivamente, pelos pobres. Não há dúvida de que esse bloco à esquerda será constituído, e sustentado, por essas forças.

            O primeiro (Alckmin) é um representante puro-sangue do neoliberalismo: adepto do Estado mínimo, das privatizações, com forte alinhamento à política imperialista (e unipolar) dos Estados Unidos; os outros (Lula e Haddad) já têm um compromisso claro com o Estado de bem-estar e com a geopolítica multipolar – fortalecimento das relações regionais na América Latina e diálogo com países pobres da África, sem alinhamento automático ao imperialismo ianque-europeu.

         Essa dicotomia é boa ou ruim? Não é uma coisa nem outra – é a política como ela é. O problema é que o país está vivendo um momento muito tumultuado; de profunda insegurança institucional. Nessas horas, o Poder Judiciário costuma funcionar como uma espécie de Poder Moderador, para acalmar os ânimos e pôr as coisas no lugar. Mas o Judiciário brasileiro não soube, não conseguiu (ou não quis) atuar assim, e acabou pondo mais lenha na fogueira.

           Depois desse fuzuê todo voltamos ao mesmo ponto de partida: PT versus PSDB – e ambos com chances (eu diria: as mesmas chances) de voltar ao Palácio do Planalto. Geraldo Alckmin, apesar de seu desempenho nanico nas pesquisas eleitorais, terá 40% do tempo de propaganda na tevê, terá a propaganda extraoficial da mídia que o apoia e, portanto, passou a ser, sim, um candidato forte.

        Lula sempre foi forte: nas pesquisas e nas urnas; solto ou preso. Já o Fernando Haddad, se não é tão forte assim, se beneficiará da força de Lula (caso este seja impedido de concorrer, como parece que o será!), bem como da militância petista e dos movimentos sociais que se dizem dispostos a derrotar o golpe de 2016 nas urnas, democraticamente, e não a fórceps, como fizeram com Dilma Rousseff.

             O grande problema é depois. Depois das eleições. A vitória de Alckmin resultará no aprofundamento das políticas neoliberais (reforma da previdência, precarização do trabalho, privatizações da Petrobras, da Eletrobras, da CEF etc.) que poderão gerar grandes reações populares. A vitória do candidato do PT significa a derrota do golpe de 2016, o que certamente provocará a reação das elites, das forças conservadoras e suas estratégias de provocar a ingovernabilidade do país e partir para soluções autoritárias.

        Por isso, a eleição de 2018 é uma incógnita, não tanto no que diz respeito aos resultados das urnas – tudo indica que, de novo, como há 25 anos, teremos uma vitória petista ou peessedebista. O grande enigma é saber se a nossa cambaleante democracia (se é que ainda temos uma!) reúne forças suficientes para aguentar tantos solavancos; tantas agressões e arremetidas.

       É exatamente por isso, por causa dessa verdadeira montanha-russa em que se transformou a política brasileira, que os grandes especialistas – tantos os nossos quanto os estrangeiros – têm afirmado que a elite nativa, imprudente e arrogante, com o apoio de setores de uma classe média alienada e narcisista, colocou o país à beira de um abismo; e seu povo à beira de um ataque de nervos.

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