As crianças de Trump

         TODO e qualquer país soberano tem o direito de decidir quem é que pode entrar e quem é que pode sair de seu território. Ninguém discute isso. Ninguém discute, portanto, que os países possam adotar políticas de controle das fronteiras, das alfândegas, do tráfego e da migração de pessoas. E talvez até possam adotar políticas migratórias mais restritivas, como essa que o Donald Trump adotou em face dos mexicanos, que saem de seu país pra tentar a vida no eldorado do Norte.

         A Europa enfrenta hoje um dos maiores processos migratórios de sua história; fenômeno que se intensificou progressivamente desde a última Grande Guerra Mundial. E o mundo também: as estatísticas dizem que já são perto de setenta milhões de pessoas perambulando pelo mundo, e que atualmente buscam refúgio nos países estrangeiros mais prósperos; fugindo desesperadamente das guerras internas, da fome, das perseguições e de muitos outros infortúnios que atingem seus direitos e dignidade.

            Os EUA, com esse celerado do Trump, adotaram a política de tolerância-zero contra refugiados e imigrantes, e está aplicando essa política com especial rigor em face dos mexicanos e outros povos da América Central – no ano passado os norte-americanos deportaram mais de 75 mil imigrantes ilegais; quase todos vindos do México e do chamado Triângulo no Norte: El Salvador, Honduras, Guatemala – tudo gente pobre fugindo da pobreza… e da morte.

             Mas o curioso é que os Estados Unidos fazem isso como se não tivessem nada com isso. Como se esses países – explorados economicamente pelas grandes multinacionais americanas e dominados politicamente pelo grande país do Norte, que apoia ditaduras e derruba governos na América Latina a torto e direito -, não fossem o que um chefe do Departamento de Estado norte-americano chamou certa vez de “nosso quintal”; como se os cucarachas desesperados não morassem nesse “quintal” do imperialismo. (Não se esqueçam que 15% do território norte-americano foram tomados do México!)

            Ignorando tudo isso, o presidente Trump adota seu programa de tolerância-zero e chega ao exagero de não tolerar, sequer, os direitos fundamentais das crianças refugiadas. Pois desde abril a política do Trump vem mantendo dois milhares de crianças separadas de seus pais mexicanos, presos nos EUA; e, pior, as mantêm detidas em jaulas, como se fossem animais. Isso viola tudo: desde a moral até os tratados internacionais de direitos humanos.

              Por exemplo: a Convenção Sobre os Direitos da Criança (1989), em vários de seus artigos, determina que os Estados-partes são obrigados a assegurar os direitos, o bem-estar, o desenvolvimento e, expressamente no art. 8º, as “relações familiares”das crianças. Logo, separar pais e filhos, como fez o Trump, para reprimir migrantes ou refugiados, contraria os valores humanitários que inspiram todos os tratados e convenções internacionais sobre os direitos do homem – sem contar que é uma estarrecedora falta de bom senso.

          Depois que se espalharam nas redes sociais as imagens revoltantes de crianças enjauladas, chorando desesperadamente, o presidente dos americanos voltou atrás – vai reunir pais e filhos. Mas na prisão. Ou seja, as crianças ficarão “presas” com os pais. Ora, crianças presas? Isso é uma evidência de que a situação de migrantes e refugiados pelo mundo afora não deve ser solucionada com cadeia nem com quaisquer outras medidas repressivas.

             A questão é do campo da política; não da polícia. Até o papa Francisco interveio na polêmica, criticando publicamente as medidas de Trump na fronteira do México. O pontífice afirmou que processar criminalmente os imigrantes ilegais não é a solução – é populismo.

             Embora complexa, a solução passa pelo acolhimento inicial dos refugiados – jamais pela punição criminal. Mas os interesses imperialistas, que exploram os países na periferia do mundo, espalhando pobreza, miséria e até a guerra, não permitem acolher os “excedentes” do capitalismo. Aí, prevalecem as fronteiras dos Estados ricos; mas quando se trata de “invadir” os Estados pobres com a rapinagem praticada por suas empresas multinacionais, não há fronteira nenhuma: a liberdade é do dinheiro e dos negócios, não das pessoas.

            Como se viu agora com mais essa estrepolia do Trump, nem mesmo às crianças é assegurada a liberdade que os liberais e neoliberais apregoam aos quatro ventos.  Viver nos países pobres já é um risco; ser criança nesses países é viver em permanente vulnerabilidade; e ser criança pobre então… nem se diga. Desde cedo, desde a infância, os pobres do mundo já vão aprendendo que a liberdade é um privilégio, e a cadeia, um destino.

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