Erros e lições

           A GREVE dos caminhoneiros (que foi também um locaute) permite extrair algumas conclusões, mais ou menos óbvias, mas que convém destacar e repetir e repetir e repetir sempre… Para que possamos aprender alguma coisa, reconhecer alguns erros, e, se possível, não repeti-los no futuro A primeira conclusão é que o governo do vice Michel Temer, além de ser um dos mais impopulares de nossa história republicana, é um governo frágil, refém de interesses estrangeiros e sem a menor condição política de levar o país a lugar algum – é um governo desgovernado.

             A outra lição diz respeito a um erro mais antigo. Ficou claro com a greve que um país do tamanho do Brasil, de dimensões continentais e com 200 milhões de habitantes, pode ser literalmente paralisado, em menos de 48 horas, por uma única categoria ou segmento da sociedade: os caminhoneiros. Isso revela o quanto foi equivocada a opção feita há sessenta anos pelo modal rodoviário de transporte, com a desativação de nossas ferrovias – se bem que não sei se foi uma opção ou uma imposição da indústria automotiva estrangeira.

              Essa greve-locaute revelou também que a política do vice Michel Temer é mesmo uma política entreguista – definida de fora pra dentro, refém dos interesses imperialistas do Norte, completamente submissa às imposições do neoliberalismo. Chega a ser inacreditável que se tenha desativado nossas refinarias para importar derivados de petróleo das refinarias norte-americanas, a preço de dólar; quando os brasileiros ganham em cruzados.

            Constitui um erro eloquente (um erro, não, uma má-fé indisfarçável!) a entrega da presidência da Petrobras ao senhor Pedro Parente – o homem que comandou a destruição do Estado e das empresas públicas brasileiras no governo de FHC. Chega a ser burlesco que esse brasileiro, preposto das multinacionais estrangeiras, tenha colocado no Conselho de Administração da Petrobras um representante da Shell, empresa anglo-americana concorrente da própria Petrobras. É um escárnio!

            Por razões assim, é que essa greve-locaute dos caminhoneiros foi didática também no campo político. Ela deixa mais claro ainda que o golpe que depôs Dilma Rousseff e culminou com a prisão de Lula tinha por objetivo enfiar as políticas neoliberais goela abaixo dos brasileiros, e assaltar a joia de coroa: a Petrobras e o pré-sal. Nossa petroleira vem sendo esquartejada para ser entregue às multinacionais do petróleo; e o pré-sal já foi “doado” aos gringos.

               É bem por isso que o senador Roberto Requião, outro dia, no plenário do Senado, referindo-se ao processo de Lula e sua prisão sem provas, soltou o verbo para dizer: “É o petróleo que está em jogo, estúpido, não é o triplex”. Não foi à toa que o governo de Obama chegou a pedir desculpas quando se descobriu que a agência NSA andou espionando Dilma Rousseff e a Petrobras; não foi à toa que dois computadores de dois dos mais importantes engenheiros da Petrobras sumiram logo após a descoberta do pré-sal.

            Parafraseando o senador Roberto Requião, que, aliás, tem sido uma das vozes mais lúcidas neste momento de grande confusão política: Não é só o petróleo que está em jogo: é também nossa soberania energética e o futuro da nação; já o triplex… bem, o triplex o Lula não quer nem de graça; ele é muito pouco, é muito barato pra comprar a honra, a dignidade e capital político do maior líder popular da América Latina na atualidade.

           Por fim, uma outra lição da greve. Ela revelou que a institucionalidade brasileira está na corda-bamba. Alguns fascistas aproveitaram o movimento para pedir intervenção militar no país. Posso assegurar: isso é coisa de quem não sabe o que está falando. Começa que pela nossa Constituição é crime – e crime imprescritível – pedir a destruição do Estado democrático e substituí-lo pela ditadura.

             Depois, é preciso lembrar a essa gente desmiolada que a “intervenção militar” de 64 começou de leve: restringindo direitos; a seguir, passou para a tortura; enveredou para a eliminação física dos opositores como política estatal; e já estava partindo para o “terrorismo de Estado” – a bomba do Riocentro e o plano de explodir o Gasômetro no Rio de Janeiro visavam matar mais de 150 mil pessoas e pôr a culpa nas costas da esquerda – e tudo isso sem contar que a corrupção nadou de braçada no regime militar.

             A sociedade brasileira, de um modo geral, mal-informada e manipulada pela mídia burguesa, não costuma (ou não quer) enxergar essas coisas. Costumam dizer que tudo isso não passa de “teoria da conspiração” – ou simples paranoia. Enquanto isso, os gringos vão se apossando das nossas riquezas, das nossas empresas e até da nossa soberania – com direito a destruir direitos, como fizeram com a CLT e com a democracia que a duras penas vínhamos construindo até aqui.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s