“Greve” e greve

          COMEÇA que a greve dos caminhoneiros não foi bem uma “greve” – no sentido jurídico, político e semântico do termo. Greve mesmo é a paralisação feita pelos trabalhadores empregados, visando obter alguma melhoria de suas condições de trabalho em face dos patrões. A dos caminhoneiros foi uma greve feita por patrões, empresas de transporte, caminhoneiros autônomos e empregados. Logo, pode-se dizer que foi, no máximo, uma greve-locaute; não foi genuinamente uma greve – senão apenas uma paralisação do setor de transporte.

               Curiosamente, apesar de ter sido uma paralisação que provocou desabastecimento no país todo, alguns transtornos e considerável prejuízo, ela teve a aprovação de 87% dos brasileiros (segundo o Instituto Datafolha). Greve, embora seja um direito constitucional da classe trabalhadora, é sempre malvista; sinônimo de prejuízo. Mas, dessa vez, não. O povo aprovou a greve, apoiou os caminhoneiros, não reclamou: ninguém saiu dizendo que eram um bando de baderneiros e vagabundos.

     Foi uma paralisação que, pela primeira vez, teve uma adesão espontânea impressionante. Não sofreu nenhum tipo de repressão policial; tampouco foi “desmoralizada” pela mídia burguesa, que costuma difamar todo e qualquer movimento da classe trabalhadora. Isso levou até à suspeita de que era um movimento político para derrubar o Temer, ou preparar um golpe militar – nada disso se confirmou: o Temer continua aí, e os militares, por enquanto, estão quietinhos na caserna.

            Todo esse sucesso da greve, ou melhor, desse movimento dos caminhoneiros que parou o Brasil, é facilmente explicável: o aumento no preço do diesel, da gasolina e do gás de cozinha é uma coisa que afeta o bolso de todo o mundo – não só dos caminhoneiros. Havia, por assim dizer, uma causa comum que unia a todos. Daí a força do movimento, que teve uma adesão fora do normal e um apoio popular “como nunca antes se viu na história deste país” – certo?

             Conclui-se daí que o grande detonador, o que desencadeou mesmo a paralisação dos caminhoneiros foi realmente o aumento progressivo no preço dos combustíveis. A principal reivindicação dos grevistas era exatamente essa: diminuição do preço do diesel. Reivindicavam também desonerações tributárias (PIS-COFINS); diminuição das tarifas de pedágio; tarifa mínima de frete etc. Mas o grande vilão da história, o que deflagrou o movimento foi mesmo o aumento no preço dos combustíveis derivados de petróleo; especialmente o diesel.

             E o que é que, no final das contas, desencadeou o aumento dos combustíveis que desencadeou a greve? Essa é a pergunta que deve ser feita. Mas essa é justamente a pergunta que não se faz; portanto, é a pergunta a que ninguém responde. Mas a resposta é fácil. Não tem segredo: os preços dos combustíveis aumentaram por causa da nova política de preços adotada pela Petrobras. Pronto. É só isso. Não precisa ficar com muita explicação, muito rodeio – não tem mistério.

            E por que a Petrobras mudou a política de preços? Essa é a outra pergunta que se deve fazer. Mas é outra pergunta que não se faz; portanto é mais uma a que ninguém responde. Todavia, a resposta a ela também é fácil. É claríssima: a Petrobras teve de aumentar seus preços simplesmente porque dobrou a importação de petróleo refinado (diesel e gasolina) dos Estados Unidos. Simples, não?: se você dobra as importações atreladas ao dólar, dobra também as dívidas com os credores internacionais.

             O Brasil, até agora há pouco, importava 40% do diesel e da gasolina consumidos no país, e, de uma hora pra outra, ou melhor, depois do golpe, passou a importar 80% desses combustíveis.

            Logo, para pagar essa dívida contraída com o aumento das importações é preciso aumentar os preços cobrados aos consumidores, e aumentar também os impostos… e mandar todo esse dinheiro para as refinarias norte-americanas. Assim, além de entregar o pré-sal na bacias das almas (um centavo por litro de petróleo), o Brasil vai ter que pagar mais para importar de volta esse mesmo petróleo refinado nos Estados Unidos – isso porque a Petrobras já desativou cinco refinarias nossas; prosseguindo no desmonte da terceira maior petroleira do mundo – é um crime de lesa-pátria.

        Quer ver, então, a diferença entre greve e “greve” (com aspas)? O sindicato dos petroleiros anunciou paralisação geral da categoria a partir de hoje, reivindicando: (1) diminuição dos preços de combustíveis; (2) fim das importações que provocam o aumento desses preços; (3) fim do desmonte da Petrobras; (4) garantia de emprego; (5) reativação de nossas refinarias; (6) demissão do presidente da petroleira – o homem que provocou toda essa confusão agora e que no passado já tentou privatizar a Petrobras.

              E o que é que aconteceu com essa greve dos petroleiros, que na verdade ainda nem começou?: já foi declarada ilegal pelo TST; a mídia já está dizendo que é uma greve política; a polícia já já baixa a repressão no lombo dos grevistas; e o povo, manipulado pela mídia, não vai apoiar a greve dos petroleiros nem a pau – mesmo com essa pauta que, além de defender a diminuição dos preços de combustíveis, defende as refinarias nacionais e a nossa soberania energética. Eta povo que sofre!

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