Até o papa

           A DIREITA deu um golpe de estado no Brasil na maior caradura – nem sequer disfarçou. Aliou-se a setores reacionários do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, sob as rédeas da mídia todo-poderosa (quarto poder), e fez o que fez: derrubou uma presidenta de esquerda, pôs a cúpula da esquerda na cadeia, e prendeu o grande líder da esquerda brasileira. E fez tudo isso, supostamente, “nos termos da lei” – mas o golpe foi tão escandaloso, foi tão às claras (e tão seguro de si) que os golpistas nem tiveram a preocupação de disfarçá-lo.

            Operaram a esquerda sem anestesia: Câmara afastando presidenta petista “em nome de Deus”; Senado condenando-a sem crime, “pelo conjunto da obra”; STF aplicando “teoria do domínio do fato” onde essa teoria não era aplicável; ministra do STF condenando petista com base na “literatura jurídica”, e não em provas; acusadores acusando sem prova, com base só em “convicções”; juiz condenando com base em “provas indiretas”; autoridades fazendo militância nas redes sociais contra petistas e depois usando seus cargos para prendê-los; a Constituição violada a toda hora sem garantir direitos fundamentais de petistas… foi uma lambança a céu aberto.

                O juiz que arrasou com a esquerda brasileira então – esse não consegue esconder nem seus vínculos nem seu deslumbramento. Continua sendo paparicado publicamente pela mídia de direita; continua sendo homenageado nos Estados Unidos por aqueles que, após o golpe, estão se apropriando do nosso petróleo e das nossas empresas públicas; continua irmanado com um grande partido da direita (PSDB) – como se ele não fosse juiz; como se nem precisasse, sequer, parecer imparcial, apartidário.

       A propósito, achei muito engraçada a mensagem que o deputado federal Paulo Teixeira, do Partido dos Trabalhadores, postou ontem no WhatsApp ou Facebook, dizendo o seguinte: “Depois de prender o Lula, o juiz Sérgio Moro recebeu prêmio de gratidão nos EUA. Momento seguinte, Sérgio Moro recebe homenagem da Lide, empresa de João Doria, e manda prender o José Dirceu. Precisa desenhar?”, pergunta ironicamente o deputado paulista. Não, não precisa desenhar não, deputado.

           (O parlamentar se referia à homenagem que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, mais uma vez, fez anteontem ao juiz Sérgio Moro, que posou (mais uma vez) para fotografias ao lado do político do PSDB João Doria, em Manhattan.) O juiz da Lava Jato já recebeu muitas homenagens desse tipo; e não se constrange nem um pouco ao confraternizar, abertamente, com os partidos, os políticos e os empresários da velha direita – brasileira e estrangeira.

            O juiz esteve em muitas cerimônias promovidas pela direita. Muitas. Por exemplo, frequentou vários eventos do PSDB (maior partido de direita do país, ao lado do MDB); já recebeu vários prêmios da golpista Rede Globo; já foi homenageado mais de uma vez pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos; já foi eleito pelo Grupo Life norte-americano como um dos dez homens mais influentes do mundo; já foi flagrado e fotografado de ti-ti-ti com o tucano Aécio Neves; e até já admitiu (publicamente) que condenou o ex-presidente Lula (da esquerda) sem provas.

           A grande mídia brasileira teve papel decisivo no golpe que sepultou, mais uma vez, nossos anseios de democracia. Ela (mídia) foi mentora, indutora e porta-voz do golpe. Os órgãos repressivos do Estado, por meio de alguns de seus representantes, fizeram o resto – baniram a esquerda, pouparam a direita e propiciaram a ascensão ao poder do partido mais corrupto do Brasil (MDB), sob o pretexto de combater a corrupção. E tudo isso referendado pela elite e pela classe média historicamente alienadas, antipopulares e fascistoides.

          Mas, no exterior a mídia é bem diferente. Os observadores e a imprensa livre têm deixado muito claro que houve mesmo um golpe de estado no Brasil. Essa é, por exemplo, a opinião manifestada expressamente em editoriais dos grandes órgãos de imprensa estrangeiros. Nada menos que: New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), Financial Times (Inglaterra), The Guardian (Inglaterra), El País (Espanha), Le Monde (França), Libération (França), Página/12 (Argentina), La Jornada (México), Al Jazeera (Mundo Árabe)… e por aí vai.

            Ninguém – que pensa -, tem qualquer dúvida sobre o golpe de estado em curso no Brasil. Um golpe para derrubar o partido de esquerda que vinha ganhando as eleições presidenciais desde 2002, e que ameaçava (ameaçava, não, era certeza!) ganhar também a eleição de 2018, com o ex-presidente Lula à frente – aliás, um candidato imbatível em todos os cenários; e em todas as pesquisas de intenção de voto. É tamanha a força de Lula, e é tão arguta a percepção do povo, que é perigoso que ele (Lula) faça o novo presidente da república mesmo estando preso.

             E eis que agora – do nada -, até o papa Francisco resolve dar sua opinião, e bota a boca no trombone pra denunciar o golpe no Brasil. (Tava demorando!) O papa, além de líder espiritual de mais de um bilhão de pessoas no mundo, é um chefe de Estado. Não é comum que um chefe assim fale o que o papa falou, numa clara referência a outro país. Achei até que pudesse ser mentira, mais uma fake news. Mas, me garantiram que não. Garantiram que ele falou realmente; e que ele é assim mesmo: meio “doidinho” – um papa sem papas na língua.

             Pois bem… De acordo com o jornal Vatican News, o papa Francisco, sem mais nem menos, resolveu tratar o assunto relacionado a golpes de estado, numa homilia em Roma. E disse: “A mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas. Depois, chega a justiça, as condena e, no final, se faz um golpe de Estado”. Pois é… Dá pra ver aí alguma semelhança com o que acabou de ocorrer no Brasil, ou quer que desenha?

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