Ainda a desigualdade

          ESTÃO dizendo que uma das coisas que mais cresce no mundo é a desigualdade – isso mesmo: a desigualdade social, econômica, cultural e política. As pessoas e os países ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. A desigualdade (ou as desigualdades) é uma erva daninha, porque viceja em qualquer lugar, sorrateiramente, dividindo pessoas e povos. Além do que, é sempre sinônimo de injustiça. Por isso, os povos, as constituições e os governos prometem combatê-la. Ou, ao menos, reduzi-la – mas parece que ela só cresce, é persistente demais, obstinada mesmo.

            Em 2014, o livro do economista francês Thomas Piketty, O capital no século XXI, fez um enorme sucesso editorial e provocou os mais acirrados debates ao denunciar a desigualdade crescente no mundo, ocasionada pelo desenvolvimento capitalista que – como sempre fez -, faz os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Esse autor, e outros economistas também, concluiu algo que me parece estarrecedor: algumas riquezas particulares crescem mais que a economia dos países. Ou seja: enquanto uns poucos enriquecem cada vez mais, as populações empobrecem junto com os Estados que deviam ampará-las.

           Esse rumoroso livro do Piketty nem bem chegou na praça e o papa Francisco já mandou uma mensagem pelo twitter que era assim: “A iniquidade é a raiz de todos os males”. Em seguida, na sua exortação apostólica, chamada Evangelii gaudium, o papa cravou: “Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade social, na sociedade e entre vários povos, será impossível erradicar a violência”. Veja que até o papa – os papas, pelo menos no discurso, sempre condenaram a miséria e a pobreza – está também preocupado com essa tal da desigualdade; não é só com pobreza e miséria, não.

       Na sequência, a Academia Real Sueca de Ciências revelou o nome do escocês naturalizado norte-americano, Angus Deaton, como ganhador do prêmio nobel de economia de 2015. E numa de suas primeiras declarações, já vem o premiado economista engasgado com o mesmo problema: “O desenvolvimento capitalista gerou desigualdade entre pessoas e países”. Assim, diz o novo Nobel, o que estamos vendo agora é simplesmente “o resultado de centenas de anos de desenvolvimento desigual nos países ricos, deixando boa parte do mundo para trás”. Na opinião dele, os refugiados da Europa são exatamente uma reação a esse desenvolvimento desigual, pois, pessoas que ficaram para trás estão pressionando as fronteiras entre os países ricos e os países pobres.

      Enquanto isso, no Brasil, as políticas de distribuição de renda e de combate à desigualdade social são consideradas criminosas, responsáveis pelo nosso “desequilíbrio fiscal” e pela debacle da economia brasileira; e capazes até de provocar o impedimento ou destituição de um presidente da república. A igualdade no Brasil sempre foi “pra inglês ver” – da boca pra fora. A nossa síndrome de “casa-grande-e-senzala” ainda é muito forte, muito profunda, e a desigualdade, essa sim, é o que nos constitui – e ao nosso capitalismo escravagista que não se incomoda com ela.

           Fico alarmado quando os especialistas dizem que o Brasil tem a maior desigualdade do mundo. Dizem eles, apoiados em suas pesquisas e estatísticas, que 30% da renda nacional está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país. O que faz com que esses ricaços do Brasil sejam mais ricos do que os sultões do Oriente Médio. Uma ONG britânica (Oxfam) constatou que apenas seis brasileiros (isso mesmo: seis; meia dúzia) têm a mesma riqueza de 100 milhões de compatriotas – é meio exagerado, meio escandaloso, né não?

             Mas, tirando os pobres, evidentemente, parece que a desigualdade não incomoda a mais ninguém – nem no Brasil nem no mundo. Pois o capitalismo no mundo segue sua trajetória de exploração, guerra e injustiça sem nenhum desconforto. Errados devem estar os que lutam contra a desigualdade. Esses, sim, são lunáticos e sonhadores que só atrapalham os negócios, as negociatas e a acumulação capitalista que mantém dois terços da população mundial na pobreza e na miséria – mais de um bilhão de pessoas passando fome e vivendo com menos de um dólar e meio dólar por dia – como se alguém pudesse viver com esse quase nada.

           Vai ver o best-seller do Picketty, o novo ganhador do prêmio nobel de economia, e até o papa estão completamente errados! Certa mesmo deve estar essa papagaiada neoliberal de ultimamente, que teima em condenar as políticas de redução da pobreza e das desigualdades num dos países mais desiguais do mundo – como o nosso. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 proclama logo no seu artigo primeiro que todos os homens nascem “livres e iguais em direitos”. Mas quem acredita nisso? Quem acha que todos nascem com o mesmo grau de liberdade, com as mesmas chances na vida e com as mesmas possibilidades de escolhas?

             Proponho, assim, uma pequena retificação nessa Carta de Direitos para corrigir-lhe o engano – ou a hipocrisia: proponho que, doravante, a redação do seu artigo primeiro seja a seguinte: “Como os homens não nascem livres e iguais, deverão ser libertados e igualados por meio do direito”. Dessa forma, ficaria mais honesto; ou menos hipócrita. Desconfio que a maioria – e muitos brasileiros -, aprovaria imediatamente essa proposta de mudança da Declaração de 1789 – mas só no papel.

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