O povo sabe votar?

               DISSERAM que o Pelé disse certa vez que o povo brasileiro não sabia votar. Teria sido na época da ditadura, quando não tínhamos eleições diretas no país e o povo (ou boa parte dele) se organizava em torno do movimento das Diretas-já. Não sei se o Pelé confirmou essa sua declaração; não sei se a mantém até hoje; não sei se ele a renegou; não sei nada sobre as opiniões políticas do Pelé. Só sei que ele foi um grande craque dentro dos gramados.

            Se aquela declaração do Pelé for verdadeira mesmo, por mais preconceituosa, alienada e antidemocrática que possa ser, fato é que ele não está sozinho. Aliás, tem o aval até de um festejado professor universitário, membro da Academia Brasileira de Letras – o ex-presidente FHC. Na última eleição presidencial o tucano andou dizendo que a vitória da Dilma Rousseff se deveu aos votos do Norte e Nordeste do país, onde, segundo ele, estão os eleitores “menos informados, que coincidem com os mais pobres”.

             Dias atrás, o Instituto Datafolha – na esperança de colher bons resultados para os candidatos da burguesia -, fez uma pesquisa (divulgada discretamente) para a presidência da república nas eleições deste ano, logo após a prisão de Lula. Resultado: o ex-presidente Lula, mesmo preso, continua liderando com folga as intenções de votos; em todos os cenários; contra todos os outros possíveis candidatos – inclusive no segundo turno, se houvesse.

           É impressionante: como é que o homem apresentado pela mídia todo santo dia como líder de uma grande organização criminosa; que já está condenado criminalmente duas vezes; que tá na cadeia; que ainda tem mais de meia dúzia de processo-crime nas costas; que não dispõe de espaço na grande imprensa para se defender nem para expor suas ideias, enfim, como é que um homem desses pode ser o preferido pelo povo para presidir o Brasil novamente? Agora é que vão dizer mesmo que o povo brasileiro não sabe votar!

             Até bem pouco tempo, os supostamente mais letrados, a elite, a classe média e alguns outros presunçosos gostavam de dizer que o “povão” nunca soube votar. Que não tem cultura. Que é mal-informado. Que é analfabeto, ou quase; e vota sempre errado. Mas nem isso eles podem dizer mais. Porque na última eleição presidencial essa turma que se diz mais consciente e mais bem-informada, andou votando em peso no Aécio Neves, que, descobriu-se depois, era um político envolvido em corrupção… e… incompetente.

         Descobriu-se então que o voto no Aécio era um “voto equivocado”, iludido, um verdadeiro fiasco para quem andava aí querendo acabar com a corrupção e botar na cadeia tudo quanto era corrupto. Os corruptos queriam ver na cadeia, mas o Aécio (também corrupto) queriam pôr na presidência. Bonito, não? Agora ficou difícil pra esses saberetes bater no peito e dizer que “sabem votar”; e que o “povão”, os analfabetos e ignorantes é que estragam tudo – que votam mal e elegem os piores candidatos.

            Falam tanta coisa sobre o povo: uma hora dizem que ele é ignorante; depois, que é sábio demais – e falam até numa “sabedoria popular”. Dizem que o povo não sabe o que fala; mas depois afirmam que “a voz do povo é a voz de Deus”. Uma hora falam que o povo é igual gado, submisso e conformado; outra hora falam que ele é soberano. Falam tanta coisa sobre o povo… Mas eu, particularmente, não aprecio nada, nada, essa discussão sobre se o povo é sábio ou não; se ele sabe ou não sabe votar.

             As pesquisas que mostram o Lula em primeiríssimo lugar, e pior, que revelam que o ex-presidente petista está subindo nas intenções de voto, que a rejeição a ele está caindo mesmo após sua prisão, faz a gente pensar. Por que será que um homem desses, que apanha da mídia que nem boi em horta de japonês; que apanha da Justiça que nem pandeiro na mão de sambista, que apanha noite e dia, tem a preferência disparada do povo para ser presidente da república?

           Não dá pra entender mesmo. É um mistério. Ou talvez seja alguma coisa que só o povo entende; só ele sabe. Pode ser também que o Lula, apesar da pancadaria, tenha lá seus méritos. Vê-se na imprensa internacional que, lá fora, seu prestígio é bastante grande; e não deve ser à toa – mas dessa vez não será o povo quem vai decidir se o Lula deve ou não ser presidente; dessa vez o povo tá correndo por fora que nem cavalo paraguaio; não apitará nada – como nos tempos da ditadura.

               É evidente que depois desse rebuliço todo, de todo esse alvoroço que fizeram com o direito, com a política e com a economia; depois desse golpe muito mal disfarçado do impeachment sem crime, a direita brasileira não iria mesmo correr o risco de enfrentar o Lula nas urnas – vai que o povo sabe votar e acaba atrapalhando essa esculhambação toda que estão fazendo com a Constituição, com os direitos trabalhistas; com os salários; com as políticas sociais; com a aposentadoria dos trabalhadores; com o pré-sal; com as hidrelétricas; com a água e com parte da Amazônia oferecida aos gringos… Vai que o povo resolve acabar com essa farra, né!

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