Consumismo necessário

         NÃO adianta praguejar e condenar o consumismo – ele é necessário. É inútil ficar  bradando quixotescamente contra o consumo exagerado, dizendo que ele é malsão. Que é um vício. Que esse vício leva as pessoas a comprarem compulsivamente. Leva os consumidores a adquirirem bens, coisas, mercadorias e bugigangas que não têm utilidade nenhuma, enfim, leva-nos todos a comprar sem saber exatamente por quê nem para quê estamos comprando.

          Nessa hora, entram em cena os psicólogos e psicanalistas para dizer que o consumo compulsivo é mesmo um vício, ou, dizem eles, uma maneira descompensada de compensar carências profundas e frustrações inconscientes. Da mesma forma, vêm os economistas, de calculadora nas mãos, dizendo o óbvio: o consumo deve ser responsável e o consumidor precisa respeitar rigorosamente seu orçamento, bem como sua própria capacidade financeira. Esses especialistas estão mais ou menos de acordo em dizer que o consumismo é um dos grandes males do nosso tempo.

          E uma prova desse mal é que há muito consumidor compulsivo e endividado, com sua paz e seus orçamentos comprometidos; alguns deles enterrados até o fio de cabelo nos bancos, nos cartões de créditos ou nos intermináveis carnês dos crediários. Os sociólogos também não deixam de comparecer com suas análises. Não raro, há sempre algum dizendo que o consumo, na sociedade consumista contemporânea, é símbolo de status, de inserção social e até de cidadania. Mas, o consumismo, dizem eles, pode ser também um estímulo à criminalidade, pois aqueles que podem, compram, os que não podem, roubam.

    Tudo isso deve ser mesmo verdade. Mas, há uma outra verdade que os especialistas quase nunca levam em conta, ou preferem ignorar. Isto é, o consumismo desenfreado, embora seja mesmo um mal, é um “mal necessário”, pois ele é o “motor” que impulsiona as sociedades capitalistas de mercado. Nessas sociedades é preciso produzir sempre, lucrar sempre, e, portanto, consumir sempre – até o limite ou até mesmo além dos limites da capacidade de consumo e dos recursos naturais.

       Essa é mais uma daquelas famosas contradições do capitalismo que o velho e “maldito” Karl Marx previu exaustivamente já no século 19. Quer dizer, é preciso consumir sempre; mas, consumir sempre, além de ser impossível, é algo que pode levar ao vício e ao endividamento torturante de consumidores e consumidoras, sem contar a degradação da natureza. E nesse caso, a contradição é tão óbvia que, enquanto uma turma de especialistas, por um lado, alerta sobre os males psíquicos e financeiros do consumismo, outra turma, pelo lado contrário, continua incentivando e induzindo ao consumo por meio do marketing, do merchandising e de outros truques que fazem as pessoas caírem na perigosa armadilha do “consumo pelo consumo”.

             Notemos como andam sempre lotados os shoppings centers – que José Saramago um dia chamou de verdadeiras cavernas -, se transformaram em suntuosos “templos do consumismo”. Notemos como os hipermercados se multiplicam e multiplicam o hiperconsumo, oferecendo todo tipo de mercadoria – as necessárias e as desnecessárias. Alguns desses supermercados já andam até a viciar as nossas crianças, disponibilizando-lhes pequenos (e inocentes) “carrinhos de compra”, com os quais os pirralhos “ajudam” os pais a comprar de tudo um pouco, aprendendo desde cedo que “consumir é preciso”, tanto quanto navegar e viver.

         Não adianta ficar praguejando contra esse consumismo; dizer que ele é um “mal inevitável do nosso tempo”; que ele leva ao vício e à destruição financeira do consumidor; dizer que todo consumo deve ser moderado; que o consumidor tem de ser responsável; que o consumo compulsivo não supre carências emocionais; que essas carências acabam sempre levando às “carências bancárias”. Nem adianta os marxistas ficarem dizendo que o consumismo puro e vulgar é sinônimo de alienação ou infantilização do homem.

            Essas análises e advertências são um verdadeiro trabalho de Sísifo ou de Penélope. E muitas delas são também cínicas ou interesseiras, pois não esclarecem a verdadeira raiz do consumismo, nem tampouco admitem que o consumo responsável depende de uma produção também responsável. Quer dizer, uma produção que produza bens necessários e não supérfluos; que atenda às reais necessidades do homem e não a suas necessidades artificialmente criadas; que atenda a desejos vitais e não a devaneios narcísicos; que respeite a capacidade dos recursos ambientais e não apenas a capacidade dos recursos financeiros de consumidores, enfim, uma produção honesta e consciente que não explore a fragilidade e o inconsciente das pessoas.

            Mas, como programar uma produção assim nas sociedades capitalistas de mercado, que precisam produzir e consumir infinitamente? Como controlar mercados em sociedades liberais de mercados? Como dirigir mercados se eles devem ser absolutamente livres, segundo a ideologia liberal hegemônica? Como planejar a produção em sociedades onde a “livre iniciativa individual” é um mantra sagrado?

            Qualquer coisa que se diga contra essas “verdades” mercadológicas, qualquer crítica que se faça para além das análises ingênuas (e óbvias) de psicólogos e economistas, que insistem apenas em dizer que o consumismo pode levar ao vício e ao endividamento, qualquer implicância com a tal “liberdade de mercado”, sempre será tida como pura utopia, disquisição irracional, devaneio ou análise marxista “fora da realidade”.

            Pois bem, se é assim, se é pra pensar apenas “dentro da realidade”, se é somente pra reproduzir a realidade como ela é, sem contestá-la, se é pra refletir com absoluto realismo e sem utopias, então o negócio é aguentar os males do consumismo, e todos os outros males das sociedades de produção e de consumo infinitos. Ou não é exatamente isso o que queriam, e ainda querem, os neoliberais de Harvard, os “garotos de Chicago”, o “Consenso de Washington” e os inconsoláveis órfãos de Hayek, com suas cartilhas e o mantra do livre-mercado?

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