Como reconhecer um fascista

         O LIVRO da filósofa Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista, com apresentação do extraordinário magistrado fluminense, Dr. Rubens Casara, e prefácio do combativo deputado Jean Willys, parece que vai se tornando um sucesso editorial, pois, lançado em 2015 pela editora Record, esgotou-se imediatamente nas prateleiras. Isso é bom ou é ruim? Depende. Por um lado é bom porque indica que muitos brasileiros pretendem intervir no debate cotidiano para rebater a retórica autoritária dos fascistas; por outro lado, porém, pode ser um sinal de que os brasileiros estão se preparando porque há muito fascista solto por aí.

                 Seja como for, o fato é que o livro da professora gaúcha Márcia Tiburi nos coloca uma necessidade prévia: como reconhecer um fascista com quem eventualmente teremos de conversar? Não é fácil, porque há o fascista reacionário e truculento que se pode identificar logo de cara, já nas primeiras opiniões e nos argumentos tipicamente autoritários que ele emite; mas, há também o “fascista bonzinho”, suave e disposto ao diálogo, cuja truculência é encoberta pelo “bom-mocismo”, como se fosse uma truculência bem-distribuída e sutil, quase imperceptível.

               Se recorrermos à origem etimológica do termo, perceberemos que fascismo vem do latim fasces, e quer dizer “feixe”, ou seja, o feixe de varas preso a um machado que simbolizava o poder de punir conferido à unipotente autoridade judiciária, encarregada de manter a ordem antiga e também a medieval. Por esse critério etimológico já se pode distinguir pelo menos três traços que talvez auxiliem na tarefa complicada de identificar o discurso de um fascista: (1) apego excessivo à ordem vigente, (2) submissão fervorosa à ideia de autoridade, e (3) tendência acentuada para o punitivismo intolerante. Notem como esses traços podem aparecer tanto no discurso contundente do fascista, que já se revela logo de cara, quanto na retórica suave dos “bonzinhos”, com suas boníssimas intenções.

                  A história do século 20 também pode ajudar um pouco.

               O fascismo italiano tradicional, sob Benito Mussolini, foi um movimento político apoiado pela classe média e abusou do punitivismo contra os comunistas ateus que ameaçavam a ordem e a religião; esse fascismo viria a inspirar o nacional-populismo de Adolfo Hitler na Alemanha que, além da repressão totalitária em nome da “bendita” ordem, incorporou o elemento racista como forma de justificar o nazi-fascismo. Aqui já podemos identificar mais dois traços que se destacaram como fundamentos do totalitarismo fascista no século 20: o apoio incondicional e irrefletido da classe média, na Itália e na Alemanha, bem como o argumento racista em favor de uma etnia pura, superior e branca – a suposta “raça ariana”.

            Desses fatos históricos podemos tirar pelo menos duas conclusões. Primeira: o fascismo não é algo estranho ao sentimento médio do homem comum; segunda: o fascismo incorpora a ideia de desigualdade (racial e social) como uma decorrência da natureza, como um fato natural, despertando assim a intolerância em relação aos “naturalmente desiguais e inferiores”. Não por acaso, um dos ideólogos do racismo fascista, Arthur de Gobineau, foi escrever um livro exatamente com o título Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas; e o seu inspirador Herbert Spencer, que era um darwinista convicto, elaborou a ideia de “darwinismo seletivo”, cuja seleção social seria feita naturalmente pela “lei do mais forte” ou pelo “mérito do mais apto”.

              A julgar pela origem etimológica do termo, e pelas características dos movimentos totalitários na Europa do século 20, talvez pudéssemos reunir os traços indeléveis do fascismo em torno das seguintes ideias: celebração da noção de ordem; supremacia da autoridade guardiã dessa ordem; punição moralista dos divergentes; meritocracia seletiva; seletividade sociorracial, e repressão implacável (e também seletiva) a grupos vulneráveis como pobres, índios, encarcerados, infratores infantojuvenis  etc.

            Com esses critérios, tornemos ao nosso problema do início que era apenas descobrir como identificar traços do fascismo no discurso cotidiano das pessoas com as quais eventualmente temos de conversar – tal como sugere o já mencionado livro da autora gaúcha Márcia Tiburi. O que torna essa tarefa um pouco mais complicada é que há dois tipos de discurso possivelmente fascista, um explícito e outro dissimulado; um grosseiro e outro mais elegante.

            O fascismo explícito ou grosseiro costuma aparecer no discurso intolerante dos que argumentam cheios de certezas, defendendo logo pena de morte e linchamento para manutenção da ordem; repressão ao outro (não a si) por meio das autoridades competentes; punição implacável dos que ameaçam a “sociedade ordeira”, concluindo quase sempre com aqueles lemas folclóricos do “Bandido bom é bandido morto” ou “Lugar de vagabundo é na cadeia” – esse é o “fascismo bufão”.

              Já o fascismo dissimulado (elegante) chega de mansinho, sustentando que a ordem instituída deve ser assegurada sem violência, mas com firmeza; defendendo a liberdade individual, porém, com a punição sistemática e “exemplar” dos que erraram; admitindo até o “direito de errar”, mas apregoando a necessária “moralização da sociedade”; concordando em que as desigualdades devam ser mesmo combatidas, porém, ressalvados a natureza e o mérito de cada um – esse é o “fascismo cortês”.

          Em qualquer dos dois casos é bom ficar esperto na hora do diálogo. Não é recomendável “bater de frente” nem elevar o tom da conversa quando há certeza ou simples suspeita de que se está diante de um fascista. Lembre-se que há muitos deles por aí, sobretudo os “bonzinhos”. Assim, o melhor mesmo é fazer como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar… E adquirir correndo o livro da professora gaúcha.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s