Ex-esquerdistas

           NO DISCURSO, os ex-esquerdistas têm um traço em comum: todos eles dizem conhecer bem tanto a perspectiva política da esquerda quanto a da direita. Como, no passado, já teriam estudado (e até militado) no campo da esquerda, consideram-se experts no pensamento e na obra dos teóricos e militantes socialistas como, por exemplo, Marx, Engels, Lênin, Trotsky e cia. Como agora estão no campo da direita, dizem-se conhecedores também do pensamento liberal e seus ideólogos, como, por exemplo, Adam Smith, David Ricardo, von Mises, Hayek, Milton Friedman e quejandos.

         Ou seja, além de conhecerem os fundamentos e as práticas do pensamento de esquerda, os ex-esquerdistas passaram a conhecer também o outro lado – conhecem agora o ideário, as práticas e os programas da direita. Os ex-esquerdistas “conhecem” os dois lados: as teorias, os programas e as estratégias da esquerda bem como o pensamento, as teorias e as práticas da direita. Dessa forma, imaginam conhecer tanto os equívocos e as fragilidades do socialismo que abandonaram, quanto as vantagens e as virtudes do capitalismo que passaram a defender.

           E como esses ex-esquerdistas “conhecem” os dois lados (a esquerda e a direita), como já estiveram em ambas as trincheiras, sentem-se verdadeiros especialistas em matéria de ciência política, filosofia política, sociologia, economia, macroeconomia, geopolítica, história e não sei mais o quê. Sentem-se, portanto, com autoridade suficiente para discorrer sobre tudo, e, sobretudo, criticar as “utopias equivocadas” da esquerda que passaram a desprezar, exaltando as “soluções realistas” da direita, que, finalmente, abraçaram com inteligência e fervor.

              É exatamente por isso, porque conheceriam bem a esquerda e a direita, que os ex-esquerdistas costumam valer-se de argumentos “ab autoritatem” para criticar – com suposto conhecimento de causa -, quaisquer medidas ou políticas de esquerda em matéria de combate à pobreza, de erradicação das desigualdades, de reformas sociais, de assistência aos pobres etc., dizendo que conhecem muito bem esses problemas todos porque, no passado, já foram marxistas, socialistas, comunistas, maoistas ou leninistas. Os “neoconvertidos” à direita costumam arrematar esses seus discursos (agora reacionários) alegando que conhecem de perto as propostas equivocadas da esquerda porque, na juventude, foram socialistas e também “amaram a justiça social e a revolução”.

         No Brasil, a mídia conservadora está cheinha de “intelectuais”, “filósofos” e “entendidos” desse naipe; desses que foram de esquerda no passado e que se tornaram ideólogos entusiasmados da direita no presente, difundindo todos os dias nos jornais, nas revistas, nas rádios e na televisão os valores, objetivos, estratégias e, enfim, os avanços e as supostas maravilhas da sociedade burguesa. Pode ser preconceito meu (acho que é!), mas não acredito nada-nada nessa turminha, nesse discurso neoconvertido de quem “achou o caminho certo”.

                Por razões óbvias, e até para evitar omissões indevidas, não é conveniente mencionar aqui os nomes dos “transdireitistas” que eram de esquerda e que hoje fazem enorme sucesso na mídia burguesa do país. Mas, é fácil identificar por aí vários espécimes dessa turma que “virou à direita”. É só ligar a telinha da tevê, dar uma espiadinha nas páginas dos grandes jornais e das grandes revistas, ou sintonizar as emissoras de rádio e pronto, você encontrará vários desses ex-comunistas que “enxergaram” a realidade e passaram para o campo da direita.

                     E tem mais. Pode-se encontrar muitos desses ex-esquerdistas “neoconvertidos” enfiados nos partidos de direita. Ou até mesmo de extrema direita, defendendo privatizações do patrimônio público, Estado mínimo, economia de livre mercado, austeridade fiscal, corte de programas sociais, financiamento privado de campanha, redução da maioridade penal e algumas outras cositas mas desse tipo – por incrível que pareça.

                O mais curioso é que tais “neodireitistas”, depois de renegarem sem mais nem menos o campo da esquerda, entram a sustentar seus novos argumentos reacionários com um ódio de classe surpreendente, incompreensível para quem diz ter conhecido as agruras, as carências, as demandas e as lutas da esquerda e dos pobres. É claro que devemos respeitar sempre a opinião de cada um, seja ela qual for, respeitando inclusive as opiniões daqueles que mudam ou que mudaram de opinião – Blaise Pascal dizia que não tinha vergonha de mudar de opinião porque não se envergonhava de pensar.

         Todavia, essas historinhas sobre mudanças ideológicas de esquerdistas para neodireitistas, de militantes do socialismo para defensores do capital, de progressistas para neoconservadores, de adeptos do marxismo para pregadores deslumbrados das cartilhas neoliberais, sob o argumento de que agora encontraram o verdadeiro caminho na política, nunca me convenceram não; nunca entrei nessa conversinha mole dos caras que “conhecem” os dois lados.

            Ex-esquerdista é fogo – um poço de “sabedoria” e “inteligência”. Eles gostam de repetir uma frase – cuja autoria não conheço -, que diz mais ou menos assim: “Quem não era comunista na juventude, não tinha coração; e quem continuou comunista depois de maduro não tem inteligência”. É uma frase espirituosa, não nego, mas ela tem qualquer coisa de arrogante; é uma frase presunçosa demais para o meu gosto – meio sacana, até. Parafraseando o poeta-mor lá do jardim-à-beira-mar-plantado: “Arre, estou farto de ex-esquerdistas!”.

           Sei não, mas ainda acho que essa turma que muda ideologicamente de lado; que “endireita” de repente e se diz “recuperada” do esquerdismo; que se desencanta com o socialismo e abraça fervorosamente o capitalismo da noite pro dia; que se diz de esquerda na juventude e de direita na maturidade; e, sobretudo, aqueles que eram de esquerda e passaram a fazer fama e dinheiro a serviço da burguesia, no fundo, ou nunca foram realmente de esquerda; ou nunca tiveram clareza sobre o que é ser de esquerda; ou não aguentaram o tranco e desistiram da luta; ou se deixaram seduzir pelo “discreto charme” da burguesia – ou então (cala-te boca!), de um jeito ou de outro, andaram é “passando no caixa”.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s