Uma entrevista de mentira

             BOTARAM o juiz da Lava jato no centro do programa Roda Viva da TV Cultura e puseram para entrevistá-lo, exclusivamente, quatro ou cinco dos maiores representantes da mídia conservadora. E tudo sob a mediação do jornalista Augusto Nunes da Silva, conhecido como um dos homens mais reacionários do jornalismo brasileiro (andou pelo Estadão, Veja e Zero Hora – precisa dizer mais alguma coisa?). Tão reacionário que está sendo desligado da TV Cultura exatamente por seu sectarismo descontrolado, sua consequente falta de imparcialidade e, sobretudo, seu ódio político explícito demais.

           O que deveria ser um programa (como antigamente) plural, livre e democrático, nas mãos de Augusto Nunes – um garotão bem-nascido e criado aqui no interior de São Paulo, em Taquaritinga, onde seu pai, ruralista, foi prefeito não sei quantas vezes -, tornou-se uma máquina de propaganda da direita – e dos tucanos. A entrevista com Sérgio Moro foi a última mediada por Augusto Nunes no Roda Viva – é muito sintomático que o último programa do propagandista da direita tenha sido exatamente para entrevistar o homem que destruiu a esquerda; um honra ao outro.

          O Roda Viva já foi bom. Mas, colocar o juiz da Lava Jato para ser entrevistado por seus aliados midiáticos (o juiz disse várias vezes – e escreveu – que fazia aliança com a mídia para decretar suas prisões preventivas), sem nenhum contraditório, nenhuma voz divergente, nenhum contraponto, sem ninguém que pudesse fazer as perguntas de verdade, pra valer, só pode ser mesmo uma piada de mau gosto. E é por isso, por causa desse oligopólio conservador da mídia, que a população brasileira ter percepções unilaterais da realidade. Numa pesquisa recente, fomos considerados o segundo povo mais mal-informado do mundo (só perdemos para a África do Sul!).

           Evidente que os entrevistadores de Sérgio Moro não iriam pô-lo na parede; claro que lhe seriam dóceis. Não é à toa que o juiz sentiu-se à vontade… até pra mentir. Mentiu quando disse que não havia pedido desculpas ao STF por ter divulgado, ilegalmente, uma conversa telefônica entre Dilma e Lula, protegida pelo sigilo constitucional. O juiz pediu desculpas por escrito ao STF – que inexplicavelmente o desculpou. O ofício do juiz, pedindo “escusas”, foi publicado inclusive pela Folha de S. Paulo e pelo Estadão, cujos representantes estavam no programa Roda Viva para “entrevistar” Moro.

        Mas essa não é a primeira vez que o juiz mente. Mentiu quando determinou a condução coercitiva de Lula, midiaticamente, dizendo que havia um pedido do Ministério Público nesse sentido. O Ministério Público Federal, aliado de Moro, desconversou; mas não exibiu jamais o pedido de condução coercitiva do Lula. O juiz o fez por conta própria. Pra desmoralizar o ex-presidente. E depois, cônscio da arbitrariedade que cometeu, jogou a iniciativa sobre as costas do órgão acusador – o que era mentira.

         O juiz mentiu muitas vezes. Mentiu quando disse que os delatores faziam suas delações espontâneas e em liberdade (estavam todos presos ou ameaçados de o sê-lo); mentiu quando disse que era imparcial (não pode ser imparcial um juiz que faz “aliança” com a mídia de direita pra julgar políticos de esquerda); mentiu quando disse que era apartidário (nunca prendeu um tucano e até foi fotografado de ti-ti-ti com o Aécio Neves); mentiu quando disse que Lula havia recebido o apartamento do Guarujá para beneficiar a OAS nos contratos com a Petrobras, e depois desmentiu-se dizendo que nunca havia dito isso; mentiu quando escondeu do povo brasileiro as provas obtidas ilegalmente junto às autoridades norte-americanas…

            Por que o juiz não mentiria no Roda Viva?, se estava rodeado de jornalistas amigos, que jogam no seu “time”; se fora recebido por um dos jornalistas mais conservadores da imprensa brasileira; se encontrava-se numa emissora hoje integralmente dominada pelo “tucanato” paulista… O juiz estava, portanto, “em casa”. E tão à vontade estava que sentiu-se seguro, confortável, até mesmo para pressionar a ministra Rosa Weber, sua ex-chefe no STF, a votar pela possibilidade da prisão do Lula em segunda instância – ainda que isso seja contrário ao texto expresso da Constituição Federal.

             Mas não é só o juiz que mente. Mentem também os seus colaboradores. O delator Léo Pinheiro havia inocentado Lula no caso do apartamento do Guarujá. O juiz aumentou-lhe a pena e o delator voltou atrás, passou a incriminar o ex-presidente para livrar-se da cadeia – e livrou-se. Quem vai pra cadeia é o Lula; os mentirosos ficam soltos. É sempre bom lembrar que a palavra de Léo Pinheiro é a única “prova” de que Lula ganhou o apartamento do Guarujá (ou a reforma dele) como propina – não há mais nada que incrimine o presidente; e a lei de delação (art. 4º, § 16) diz que tão somente a palavra do delator não é prova suficiente para condenar ninguém.

             A entrevista do juiz Sérgio Moro ao programa Roda Viva não acrescentou nada de politicamente (nem juridicamente) relevante. Um fracasso! Foi apenas pretexto para promover o juiz que a direita idolatra. A entrevista – com as “perguntas de mentira” e a mentira do juiz – só confirma que a Lava Jato é realmente um marco na história da justiça brasileira: foi uma das operações mais midiáticas e mais partidarizadas dessa história. A seletividade dela, suas inúmeras violações constitucionais, e agora também o pouco-caso para com a verdade, revelam que o cinismo (e a cegueira de muitos) pode ultrapassar quaisquer limites – e de fato ultrapassou.

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4 respostas para Uma entrevista de mentira

  1. Leonardo Hueb Festa disse:

    Professor e capitão,

    muito embora não tenha visto a entrevista, queria registrar a fala absolutamente longe da técnica do entrevistado, quando afirmou a necessidade de uma emenda constitucional para restringir o princípio da não culpabilidade e, consequentemente, permitir-se a prisão dos condenados em segundo grau (ou por órgão jurisdicional colegiado).

    Isso pq, como é de conhecimento de qualquer rábula – ou mesmo dos primeiranistas! -, em se tratando de direito fundamental e cláusula pétrea, não pode o constituinte derivado restringir, mitigar, revogar ou negar vigência e amplitude a norma constitucional de tal natureza. Chamado princípio de vedação ao retrocesso.

    Corrija-me se estiver errado.

    Forte abraço!

    • Meu caro Leonardo,
      Não tenho o quê corrigir na sua argumentação. Simplesmente assino embaixo do seu comentário.
      Espero novas intervenções no blog.

      Forte abraço, comandante.
      Antônio Alberto Machado

  2. Nina disse:

    Dizer que a única prova é a fala do Léo Pinheiro é uma piada! Beira a irresponsabilidade com os leitores!

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