Marielle

              POR QUE,  e por quem, a vereadora Marielle Franco foi morta todo mundo já sabe – falta saber agora apenas quem é que, lá na ponta, puxou o gatilho da arma que a matou em plena luz do dia; em plena área central do Rio de Janeiro. Marielle foi morta porque era negra, mulher, militante de esquerda e feminista – porque defendia negros, pobres, favelados, gays e mulheres contra todo tipo de violência, inclusive, e principalmente, a violência policial e das milícias – um pesadelo que se abate sobre o subúrbio carioca há muitos e muitos anos; décadas e décadas; talvez século: desde que os negros e pobres foram libertados da escravidão e empurrados para a periferia dos morros.

              Escalada como relatora da comissão de vereadores que acompanha a intervenção militar no Rio de Janeiro, denunciou o famoso e temido 41º Batalhão da Polícia Estadual de Acari – exatamente o grupamento da polícia que mais mata naquele Estado – como responsável pela morte gratuita de um jovem negro, que saía de uma igreja, cujo corpo fora jogado numa vala. No dia seguinte Marielle estava morta espetacularmente – a quatro quarteirões da Prefeitura do Rio de Janeiro. Essa morte não é, portanto, uma morte qualquer; tem significados que vão além, muito além, de uma tragédia pessoal – ou seja, tem significados claramente políticos; teve repercussão mundial.

             Marielle defendia os jovens negros (entre 15 e 29 anos) que representam 70% das vítimas de morte violenta no Brasil. Que compõem 67% dos encarcerados. Que são maioria nas cadeias e minoria nas universidades. Que têm salários 40% inferior ao salário dos brancos. Que formam a cifra dos 60% de desempregados no país. Que ainda ocupam os postos de trabalho com remuneração mais baixa no mercado, sobretudo em se tratando de mulheres negras. Marielle defendia essa população e foi morta por isso. Até familiares de policiais mortos ela ajudou. Não foi vítima de simples homicídio – foi assassinada, foi brutalmente executada; foi eliminada por razões políticas.

               E quem a matou tem certeza da impunidade. É uma impunidade garantida pelo sistema que discrimina, segrega, e elimina as populações pobres e negras das periferias. É muito sintomático que uma desembargadora do Rio de Janeiro, que está, portanto, na cúpula do Judiciário daquele Estado, logo após a morte da vereadora tenha saído nas redes sociais difamando a vítima; dizendo expressamente que Marielle tinha envolvimento com bandidos e que, portanto, teve o fim que mereceu; o fim que procurou. É um escárnio que uma juíza, aliás, uma madame branca e bem-nascida, que jamais soube a quantas anda o racismo no Brasil, tenha o descaramento de mentir na internet para caluniar alguém que já não pode mais se defender.

                Essa tática de criminalizar covardemente a vítima, de pôr a culpa no morto, é uma manjada tática fascista – e, como se vê, tem adeptos até mesmo nas altas rodas do Judiciário. Num sinal de que ainda estamos longe, muito longe de uma sociedade realmente pacífica e democrática; governada por leis e pelos encarregados de aplicá-la. A tragédia de Marielle põe a nossa democracia numa encruzilhada e, por isso mesmo, é de uma pedagogia impressionante: mostra até onde pode chegar o preconceito, o ódio político e a violência institucionalizada contra as populações vulneráveis e contra aqueles que as defendem.

                A direita mais atrasada, logo após a execução da vereadora, saiu também às redes sociais para desmoralizá-la; espalhando fake news e dizendo que Marielle havia sido eleita pelo Comando Vermelho; que era namorada do traficante Marcinho VP; que defendia traficantes; que se envolvia com bandidos e outras baxarias desse teor. Essa mesma direita obtusa tentou diminuir a importância da morte de Marielle, dizendo que não havia razão para tanto choro, pois a vida dela não valeria mais que a vida das centenas de policiais que morreram combatendo o crime.

           Esse argumento é hediondo. Sua função é simplesmente jogar uma cortina de fumaça sobre a gravidade desse crime político e enganar os mais ingênuos e mais mal informados. Não se faz comparações entre vidas humanas; entre número de mortos – isso é uma tolice. Mas se for pra fazer essa contabilidade macabra da direita, que fala na morte de um milhar de policiais nas ruas combatendo a criminalidade nos últimos anos, – é fácil contrapor o argumento: basta lembrar que a CPI do Senado sobre a morte violenta de jovens no Brasil constatou que a cada 23 minutos (vinte e três minutos, note bem!) um jovem negro é assassinado no Brasil – precisa dizer mais?

           A morte de Marielle está na sequência de um processo de destruição do nosso estado de direito. Coisa que começou com o golpe inconstitucional que derrubou Dilma Rousseff; continuou com as sucessivas violações da Constituição – até mesmo por setores do Judiciário; perdurou com a destruição do nosso sistema de liberdades fundamentais; culminou com a morte da nossa democracia, e se materializa agora também na morte física da vereadora que representava, com vigor impressionante, a luta pela democracia social, sexual, econômica e étnica no Brasil.

             Há uma ligação muito clara entre a execução da vereadora carioca e o golpe de estado que a direita acabou de aplicar no país. E há também – tanto no golpe quanto na morte da vereadora -, um recado óbvio para os esquerdistas: neste país das sesmarias, da casa-grande e da senzala, quem se mete a defender e a lutar pelos pobres, negros, mulheres em situação de risco e minorias discriminadas, ou vai pra cadeia ou vai pro cemitério. Muitos brasileiros, “cidadãos” sazonais, ainda não perceberam que a nossa democracia – que pensávamos consolidada depois que um sindicalista e uma ex-guerrilheira chegaram ao poder – está sendo empurrada, pouco a pouco, dia a dia, para um abismo sem volta.

           A direita brasileira, para atingir seus objetivos de poder e ganância, foi capaz de derrubar, na marra, um governo popular-democrático legitimamente eleito; foi capaz de desestabilizar a economia e as instituições democráticas do país; foi capaz de rasgar a nossa Constituição-cidadã; foi capaz de destruir nosso sistema de liberdades fundamentais; foi capaz de pôr na cadeia todas as lideranças de esquerda que este país formou ao longo de anos e anos de luta; e agora, com a morte de Marielle, está sinalizando que é também capaz de matar – impunemente.

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