Por que Lula deve ser destruído

         CHEGA  a ser inacreditável – surreal mesmo! – que a operação Lava Jato tenha condenado o ex-presidente Lula da Silva por meio de um processo absolutamente nulo – tamanhas as irregularidades processuais, e as violações constitucionais, com que tramitou. Chega ser assustadora a seletividade com que essa operação atuou para atingir um único alvo – o Lula. Chega a ser estarrecedor que hajam condenado o ex-presidente sem prova nenhuma; com base apenas em delirantes indícios, em “convicções íntimas”, e até provas ilícitas – como foi o caso, para citar só um exemplo, das “provas” colhidas em colaboração com os Estados Unidos sem passar pelo Ministério da Justiça brasileiro, como manda a lei.

       Um processo nulo; um processo sem garantias constitucionais; uma atuação escandalosamente seletiva por parte dos órgãos repressivos; e uma condenação sem provas, em pleno século XXI, são a maior evidência de que pretendiam mesmo processar, condenar e finalmente prender o réu Luiz Inácio Lula da Silva a qualquer custo – mesmo que fosse (como foi!) ao custo de rasgar a lei e a Constituição. Não se tratava de um processo, e sim de um verdadeiro auto de fé – inquisitivo e medieval. Nem o pelourinho eletrônico da mídia faltou, para expor o ex-presidente aos olhos da nação como um criminoso execrável.

          Mas, além de condenado, Lula precisa ser preso. Além de preso, precisa ser destruído. Além de destruído, precisa ser desmoralizado. Depois de desmoralizado, precisa ser esquecido. E por quê?

             Uns dizem que todo esse ódio contra o ex-presidente é puro preconceito social. Porque ele é um retirante nordestino. Porque não tem curso superior. Porque é semianalfabeto e, assim, não deveria jamais ocupar o cargo de presidente da república. Até acho que esse preconceito realmente existe – e é explícito. A elite e a classe média nunca se conformaram, nunca admitiram que um trabalhador pobre, nordestino e sem curso superior pudesse ocupar o cargo de máximo magistrado da nação enquanto os filhos das classes médias e abastadas, que ralam tanto nas escolas, nos vestibulares e nas faculdades, que se matam de estudar em escolas boas e caras – que são o “investimento” da família -, o máximo que conseguem é apenas uma carreira de doutor – às vezes nem isso.

          Outros dizem que o ódio ao Lula se deve ao fato de ele ter implantado políticas de inclusão voltadas para os pobres, promovendo a ascensão social de 40 milhões de brasileiros que saíram da pobreza para a chamada “nova classe média”. Dizem ainda que os bem-nascidos não toleravam ver tantos pobres nos aeroportos, viajando de avião. Não admitiam que suas empregadas domésticas – ou seus filhos -, frequentassem cursos superiores, até então acessíveis apenas à elite e à classe média. E se irritavam quando viam pobre de carro novo disputando vaga em estacionamento de supermercado e shoppings centers do país.

            Há quem diga que o Lula é odiado porque, sendo um simples torneiro-mecânico, ousou governar o país e o fez com muito mais competência do que o fizeram os representantes da elite que sempre esteve no poder – desde que Pedro Álvares Cabral aportou na Bahia. Segundo alguns, a popularidade com que Lula deixou o governo (mais de 80%), bem como seu reconhecimento mundial, despertou o ciúme e o ódio daqueles que sempre se julgaram os únicos capazes de dirigir os destinos da nação – o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, nunca se conformou que, sendo o “príncipe dos sociólogos”, tenha deixado o cargo com 8% de aprovação, enquanto que um simples torneiro-mecânico deixara o mesmo cargo com 80% – dez vezes mais.

              Creio que, em certa medida, essas coisas todas ajudam a explicar um pouco desse ódio ao Lula. Mas não acredito que elas seriam bastantes para deflagrar tanto ódio – até de morte. Nem que elas fossem suficientes para unir todas as forças reacionárias contra o ex-presidente numa campanha furiosa que visa não apenas derrotá-lo, mas destruí-lo política e moralmente. Afinal, nos governos de Lula, a economia andou bem; as elites nunca deixaram de ganhar dinheiro; e a classe média teve suas demandas plenamente atendidas pelo governo – não haveria, portanto, razão para esse ódio todo; para essa campanha implacável que pretende fazer com que o ex-presidente apodreça na cadeia.

               O que explica o ódio e a perseguição impiedosa contra o ex-presidente Lula são três razões bem distintas disso tudo. Primeira delas: as políticas do lulismo são um obstáculo, e uma “pedra no sapato”, do neoliberalismo que pretende completar a privatização do Estado brasileiro e de nossas riquezas naturais (especialmente o petróleo); segunda: o ex-presidente Lula foi o único presidente de nossa história que ousou estabelecer uma política externa multilateral, de aberto confronto com a hegemonia e o imperialismo ianque-europeu; terceira: Lula provou que é possível crescer economicamente (quintuplicou o PIB brasileiro) incluindo os pobres, e virou referência mundial em políticas sociais de inclusão, de combate à miséria e de governança popular.

              Por essas três razões fundamentais – e não por aquelas bobagens de preconceito contra pobre nos aeroportos e filho de empregada doméstica na universidade -, é que o ex-presidente Lula virou alvo do ódio e da truculência das classes dirigentes que, proprietárias dos meios de comunicação de massa, cuidaram de disseminar o rancor na sociedade brasileira, difamando e até condenando criminalmente o representante das classes populares que provou aquilo que as elites jamais admitiram: o povo no poder; o povo formulando políticas e dirigindo os destinos da nação. Pode crer que o jogo é mais pesado do que se imagina!

           Mas, o massacre de Lula não é um desejo (e uma obra) apenas da burguesia e das elites nacionais. É, sobretudo, uma exigência do imperialismo americano e europeu – e não por simples preconceito ou ciumeira, nem tampouco por corrupção. Não é só preconceito e moralismo bobo, não: a questão é grana… poder! O lulismo e suas políticas sociais atrapalham os negócios da burguesia nacional e estrangeira – é uma pedra no sapato do neoliberalismo.

         São bem outras, portanto, as razões pelas quais Lula e o lulismo deverão ser massacrados, desmoralizados e esquecidos. É preciso que o ex-presidente seja considerado um bandido; que receba uma punição exemplar; que apodreça no ostracismo; que suas políticas e realizações sejam esquecidas para sempre; e que a classe trabalhadora jamais tenha a ousadia, ou o atrevimento, de governar um país que só pode ser governado pelos que se acham seus verdadeiros “donos” – os filhos e os representantes da casa-grande.

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5 respostas para Por que Lula deve ser destruído

  1. Viviane Neme Campoa disse:

    Parece-me a criação do BRICS pesou, em especial para os EUA. Negociar com o Brasil é bem mais fácil que negociar com um bloco como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Seguramente, o Lula incomodou.

  2. Viviane Neme Campoa disse:

    Parece-me que a criação do BRICS pesou, em especial para os EUA. Negociar com o Brasil é bem mais fácil que negociar com um bloco como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Seguramente, o Lula incomodou.

    • Prezada Viviane,
      Claro, você tem razão, o Brics, a Unasul, o fortalecimento do Mercosul e o esvaziamento da Alca incomodaram, e muito, o imperialismo ianque-europeu que sempre apostou na “balcanização” da América Latina (vide a tríplice aliança que arrasou o Paraguai no século XIX). O Lula mexeu perigosamente num ponto delicadíssimo da geopolítica mundial – a hegemonia dos EUA.
      Obrigado pelo comentário. Espero novas intervenções no blog.
      Abraço, Antônio Alberto Machado

  3. Vinicius Barbosa de Araújo disse:

    Saudoso professor Machado, os textos do seu blog há anos têm sido um alento neste cenário em que o conservadorismo institucional e o fascismo social recrudescem. Incrível como tem sobrado aos juristas a defesa de obviedades e garantias civilizatórias mínimas, consolidadas desde o projeto de modernidade integrado pelo pensamento penal liberal mesmo em suas versões mais tímidas (como Beccaria), hoje atacadas de forma descarada. É óbvio que o caso Lula é só mais um em meio à atuação nefasta de um sistema penal seletivo e em crise de legitimidade, mas não deixa de ser emblemático. É também assombrosa a canhestrice da maioria dos membros dos órgãos responsáveis pela persecução penal. Chega a ser de um moralismo piegas, pueril e perigoso a postura de certos magistrados e membros do MPF que, imbuídos de um “senso de justiça” muito particular, agem como espécie de “heróis” de revista em quadrinhos, isto é, como guardiões da lei e da ordem que atuam para além das ou mesmo contra as fronteiras dessas mesmas lei e ordem, como num tácito estado de exceção que, para além de técnica de governo (para lembrarmos Agamben), é verdadeira técnica de controle social, como bem sabem disso há muito os penalistas e criminólogos. Precisamos todos de coragem para seguir pensando e fazendo o Direito de forma crítica e autônoma, mas não acho que seja pieguice registrar que a nós muito nos agrada ter o senhor ao nosso lado. Um grande abraço e forças para continuar o blog!

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