Um olhar de fora

            CIRCULA na internet um texto do sociólogo português, Boaventura de Souza Santos, professor catedrático da Universidade de Coimbra, intitulado Mensagem aos democratas brasileiros. Já no início do texto ele lembra que sua mensagem é dirigida aos democratas, porque só eles, garante o professor, estariam interessados numa mensagem dessa. Logo, se os democratas do Brasil (apenas os democratas, hein?!) estiverem interessados na mensagem do mestre de Coimbra é só “dar um google” que encontrarão lá a breve (mas aguda) análise do momento atual brasileiro, envolvendo a condenação criminal de um ex-presidente da república  – como nunca antes na (triste) história deste país.

       Não sei se sou exatamente um democrata (sempre poderá haver alguma controvérsia!), mas mesmo assim fui ler o texto do sociólogo lusitano. Porque, além de sua reconhecida lucidez em questão de geopolítica, é um dos homens que mais pesquisaram – e que portanto mais conhecem -, o funcionamento do sistema de justiça da América Latina, e em particular do Brasil. Duas coisas, em especial, me chamaram a atenção no texto do professor Boaventura, que além de sociólogo, é doutorado em Direito pela Universidade de Yale, e professor catedrático na faculdade de Economia na tradicionalíssima Universidade de Coimbra.

        Pois bem… A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, segundo ele, “as chocantes irregularidades processuais” e a “grosseira seletividade” da operação Lava Jato, por si só, já deveriam ser suficientes para demonstrar que o objetivo dela nunca foi combater a corrupção no Brasil, mas, sim,  “liquidar, pela via judicial, não só as conquistas sociais da última década como também as forças políticas que as tornaram possíveis” – entenda-se: liquidar Lula e o PT. Creio que as “chocantes irregularidades processuais” e a “grosseira seletividade” da Lava Jato deveriam merecer mesmo o repúdio da parte dos democratas… e de qualquer pessoa bem-intencionada. Muitos a repudiaram, é verdade; mas outros ainda morrem de paixão por ela.

           A outra mensagem do professor de Coimbra é também impressionante: ele diz que a direita brasileira não tem condições de enfrentar o ex-presidente Lula dentro das regras do jogo, nas urnas, e que a via encontrada foi mesmo derrotá-lo no Judiciário, ou seja, no “tapetão”, impedindo-o de concorrer na próxima eleição, quando sua vitória seria certa, possivelmente no primeiro turno. O que me impressionou na análise do professor é que, segundo suas palavras, a direita brasileira (e não só brasileira) precisava tirar o Lula do jogo eleitoral de qualquer jeito – nem que fosse por meio de um “acidente de aviação” ou qualquer outra coisa que lhe tirasse a vida.

           O pior é que o professor conimbricense parece ter razão: muita gente quer ver o Lula não só fora das eleições como também morto. Mataram-lhe a mulher de estresse e desgosto (e houve quem se regalou com essa morte – houve até o caso rumoroso – e patético – de um médico que nas redes sociais sugeriu como fazer para deixá-la morrer na  UTI); e agora querem matar também o Lula (conheço casos até de cristãos – desses que vivem lendo a Bíblia e não perdem uma missa – que vão para o esgoto das redes sociais fazer piada ou mesmo pedir a morte física do ex-presidente) numa chocante e quase inacreditável demonstração de preconceito e ódio – ódio social; ódio de morte.

            Mas antes do professor Boaventura um outro estrangeiro também andou analisando a situação atual do Brasil. E suas conclusões não foram nada, nada, animadoras. Ao analisar especificamente o julgamento de Lula, Mark Weisbrot, diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política de Washington, escreveu um artigo no prestigiado New York Times onde afirma que os juízes que condenaram o ex-presidente brasileiro não foram nem um pouco imparciais. Como exemplo, ele menciona: o presidente da Corte já havia declarado, muito antes do julgamento do recurso, que a sentença condenatória do juiz Sérgio Moro era “tecnicamente irreparável”. E eu acrescento que a secretária desse presidente do tribunal, antes do julgamento do recurso pelo TRF4, saiu no esgoto das redes sociais fazendo campanha para a prisão do Lula.

             O articulista do New York Times continua. Diz ele que o juiz Sérgio Moro foi de uma “parcialidade evidente”. (O Houaiss me diz que “evidente” significa “indiscutível”) O analista norte-americano exemplifica essa parcialidade do juiz com dois fatos: a condução coercitiva do ex-presidente apenas para produzir efeito midiático e desmoralizar o conduzido; e a publicação da conversa telefônica entre Dilma e Lula que era, como se sabe, uma conversa protegida pelo sigilo constitucional. Alguma dúvida sobre a parcialidade do juiz? Alguém gostaria de ser julgado por um juiz que cometeu um crime contra si, divulgando ilegalmente uma conversa telefônica? Certeza que não; ninguém é bobo… Pimenta é boa, mas só nos olhos dos outros.

             O artigo publicado pelo pesquisador no NYT tem o sugestivo título A democracia brasileira é empurrada para o abismo. Ele diz que o primeiro empurrão foi o impeachment de Dilma, sem crime e sem fundamento na lei; o segundo foi a condenação sem provas de Lula, com claro objetivo de barrar sua volta ao poder. De fato, primeiro tiram na marra uma presidenta eleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros; depois barraram (também na marra) um candidato que é o preferido (disparado) da imensa maioria desse povo. Alguém ainda vai chamar isso de democracia? É por isso que o homem, lá de fora, lá de Washington, tá enxergando o abismo que muitos brasileiros, aqui dentro, não conseguem enxergar.

         Seria bom, portanto, que não desprezássemos esse “olhar lá de fora”; seria importante virmos o que andam dizendo o próprio New York Times, o Le Monde, o Financial Times, o El País… sobre a condenação de Lula e sobre a democracia brasileira. Porque se a gente continuar no sofá, vendo só a tevê Globo; se continuarmos com o nariz enfiado nos jornais e revistas Estadão, Folha de São Paulo, O Globo, Veja, Istoé, Época; se permanecermos com o ouvido colado só na Rádio Bandeirantes, na Rádio Globo, na Jovem Pan e outras que tais, nunca iremos entender a gravidade deste momento. Continuaremos com a nossa vesguice de segundo povo mais mal-informado do mundo; e tem gente achando que agora a coisa tá tão boa que anda até soltando rojão.

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2 respostas para Um olhar de fora

  1. Daniel Augusto disse:

    Os argumentos são utilizados de acordo com a conveniência.

    O Lula e o PT não cometeram nenhum crime, mas se em uma remota hipótese, acharem provas, essas provas são nulas, pois eu sou petista como torço para um time de futebol. Ou seja, jogando bem ou mal, gol de mão ou impedido, vou continuar torcendo para meu time ou para o PT!

    Esse assunto de esquerda no Brasil já se tornou página virada, deu errado, se lambuzaram de tanto roubar e o pobre continuou pobre, o país entrou em um recessão nunca vista até então!

    Temos que lutar por um país melhor, independentemente da bandeira ideológica! Tirar a emoção e pensar com a razão! Por isso, agora é a hora do Novo, João Amoedo para Presidente!

    Segue trecho de um artigo publicado hoje na Folha:

    “Enquanto Lula é vago em suas ameaças, João Pedro Stedile, do MST, é mais direto : “Aqui vai o recado para a dona Polícia Federal e para a Justiça: não pensem que vocês mandam no país. Nós, dos movimentos populares, não aceitaremos de forma nenhuma que o nosso companheiro Lula seja preso”. A ver.”

    Isso atrasa a vida dos Brasileiros de bem!

    É apenas uma opinião de um ex-aluno que por algum momento acreditou nessas bravatas.

    Com todo respeito.

    • Caro Daniel,
      Como você disse: “Argumentos são utilizados de acordo com a conveniência”. Mas o de que se trata no caso de Lula não é de “argumentos”, é de “provas”.
      Obrigado pelo comentário.
      Espero novas intervenções no blog.
      Abraço, Antônio Alberto Machado

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