Condenadíssimo

            ANDAM agora a discutir se o ex-presidente Lula da Silva será ou não condenado, em segunda instância, pelo tribunal federal de Porto Alegre. Acho até engraçada essa discussão: é lógico que será condenado! Com ou sem prova. A única questão é saber se a pena imposta ficará mantida; se ela será modificada; e se o Lula sairá preso ou não… É só isso que falta saber. Que a sentença de primeiro grau – que o condenou lá na ruidosa Curitiba -, será confirmada pelo TRF, e que o condenado ficará inelegível, é algo tão certo como dois e dois são quatro. Aposto e ganho. Os petistas podem tirar logo o cavalinho da chuva e ir pensando num outro nome para concorrer à eleição presidencial de 2018 porque o Lula…

            Ninguém com meia dúzia de neurônios na cabeça (suponho que neurônios só podem ser na cabeça!) vai acreditar que depois desse bafafá todo que fizeram com a lei (e com as provas) para condenar o Lula, algum tribunal iria inocentá-lo, ainda mais agora que o réu ocupa o topo de todas as pesquisas eleitorais para a eleição presidencial deste ano. A “caçada” começou em 2005, com o mensalão. O Lula só não caiu ali naquele momento – e só não sofreu o impeachment que Dilma viria a sofrer depois -, por duas razões: primeiro porque tinha o apoio do alto-clero no Congresso; segundo porque tinha um vice decente – José Alencar; coisas que a Dilma não teve.

          Eu disse “caçada” ao Lula e vou justificar. Na verdade, o que está havendo desde 2005 é uma verdadeira “caçada” não só ao Lula como ao PT também. E esse “caçada” pode ser escrito com dois esses que dá no mesmo: “cassada”, porque o que querem no fundo é cassar o registro do Partido dos Trabalhadores e cassar o Lula, antes que ele seja eleito de novo para a presidência da república. A justiça condenou e pôs na cadeia toda a cúpula do PT (presidente do partido, ex-presidente, tesoureiro, lideranças etc., etc., etc); meteu o dirigente partidário José Genoíno no xilindró sem choro nem vela – e sem prova; e agora está em vias de prender o maior líder petista com base em provas que são que nem cabeça de bacalhau – ninguém nunca viu.

             Vamos em frente… Depois desse festival de delações premiadas a que assistimos no país ultimamente, ninguém tem mais dúvida de que o nosso sistema eleitoral, e todo o sistema partidário, está corrompido pelo dinheiro dos ricos, de alto a baixo (não se apoquente, é assim em todo o mundo capitalista!). Se o juiz Sérgio Moro tivesse colocado na cadeia, como fez com o PT, todos os presidentes dos outros partidos, todos os outros tesoureiros, não tenha dúvida: eles teriam aberto o bico há muito tempo, e nós saberíamos que a corrupção política no Brasil é sistêmica; não é uma invenção nem um “legado” deste ou daquele partido, como alguns gostavam de dizer até há pouco e acabaram queimando a língua – o juiz teria poupado o povo brasileiro de cair no conto do vigário de que a corrupção foi inventada pelo PT.

            Eu pergunto: por que é que o juiz da moralidade, tão implacável com os petistas, não prendeu nem um tesoureiro dos outros partidos, para obrigá-los a contar, sob tortura psicológica, de onde saiu o dinheiro das campanhas, por exemplo, de um FHC, de um José Serra, de um Geraldo Alckmin, de um Aécio Neves e de outros menos visíveis? Por que é que esse juiz de Curitiba prendeu (e condenou) só o tesoureiro do PT? – ah, já ia me esquecendo: prendeu também a cunhada do tesoureiro. Depois, soltou a mulher, porque a prisão dela não tinha nada a ver; era um absurdo; um abuso de autoridade sem tamanho, um escândalo. Enquanto isso, enquanto o juiz fazia dessas, os tesoureiros dos outros partidos andavam por aí – como diz a moçada: de-boa.

           Preciso dizer mais alguma coisa pra justificar a “caçada” e a “cassada” que mencionei acima? Mas vou fazer só mais uma perguntinha, bem básica: Por acaso tem algum peixe graúdo – ministro, ex-ministro, presidente, líder etc. -, de outros partidos que não o PT, condenado e preso? Tem nada: nem mesmo o senador Aécio Neves, que foi pego com a mão (ou a boca?) na botija; nem mesmo o ex-senador Eduardo Azeredo, presidente do PSDB, que inventou o mensalão lá em Minas Gerais, junto com o então senador Clésio Andrade, que era assim, ó, com o Aécio e o Marcos Valério – Clésio foi vice-governador do primeiro e sócio do segundo. Nenhum desses notórios foram presos, e sabe-se lá quando serão processados – se o forem.

             E aí vão me dizer que nesse processo do Lula o que está em jogo é um apezinho fajuto no Guarujá e um sitiozinho mequetrefe em Atibaia? Deixemos essa conversa-mole pra mídia golpista, pra “titia” Globo, que faz e desfaz a cabeça dos brasileiros (distraídos) do jeito que ela quer.

             Mas, voltando ao julgamento do Lula. Cravo o palpite de que é condenação na certa. Esse tribunal que vai julgá-lo agora é o mesmo que ratificou e deu respaldo às estrepolias jurídicas do juiz Sérgio Moro: um juiz que desrespeitou a lei, rasgou a Constituição e cometeu abusos de autoridade várias vezes só pra pegar a petezada. Enquanto isso, participava alegremente de eventos da Rede Globo, da revista Veja, do PSDB… e até tirava foto (todo sorridente) ao lado do Aécio Neves que agora está enrolado na Lava Jato.

       Esse é o juiz; esse é o tribunal que está julgando o Lula com, digamos, “imparcialidade”. Não há espaço pra ilusões: o Lula está condenado há muito tempo. Está condenado desde que a direita brasileira, golpista e antipopular, decidiu que chegou a hora de a casa-grande retomar o governo do país e escorraçar a senzala para impor seu projeto de nação desenhado há mais de quinhentos anos – desde os tempos das capitanias hereditárias. Foi um atrevimento imperdoável esse do Lula, um torneiro-mecânico, sem curso superior, de chegar à presidência da república e fazer o governo que fez – reconhecido no mundo inteiro como aquele que realizou a maior inclusão social de que se tem notícia na América-Latina.

               Amanhã, em Porto Alegre, será o último capítulo de mais uma novela global. É um dia histórico. Não porque vão condenar o Lula e tirá-lo da eleição presidencial – em outro golpe contra a democracia e a soberania do voto popular. É um dia histórico porque estarão lá os movimentos sociais; os despoderados; os pobres e os trabalhadores protestando, defendendo não apenas o Lula, mas um projeto democrático de nação; definindo uma pauta de luta e de resistência contra mais esse sórdido avanço das forças reacionárias que sempre comandaram o país – o nome disso, o nome desse confronto popular com a justiça burguesa em Porto Alegre, sem rodeios nem meias palavras, é “luta de classes”.

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2 respostas para Condenadíssimo

  1. Arthur Jacon disse:

    Oi, Professor,
    Que bom que voltou a escrever! Fez falta.
    Ainda nem terminei de ler, mas já tenho uma observação. Como o Moro poderia condenar os demais tesoureiros de partido sem ter quem os acuse?
    Abs,

    Arthur

    • Olá, Arthur,

      Obrigado pelo comentário.
      De fato, o Moro necessitaria de uma acusação formal para condenar alguém. Mas, para quem, como ele, atua feito juiz-inquisidor, em perfeita sintonia com o órgão da acusação e decretando prisões preventivas de ofício, a peça acusatória sempre foi mera formalidade.
      De qualquer forma, você tem razão, a omissão do Ministério Público é imperdoável – e o farrapo de desculpa apresentado pelo Dellagnol para justificar o processo apenas contra os petistas é, no mínimo, um escárnio, uma piada.
      Abraço, A.A.Machado

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