Sobre o óbvio e o ululante

        SABE aquela expressão, “óbvio ululante”, do cronista e dramaturgo Nélson Rodrigues? Aliás, na verdade ela é o título de um dos livros dele, publicado em 1968: O óbvio ululante – primeiras confissões. “Óbvio”, como sabemos, é aquilo que é evidente, que é claro, que se pode ver a olho nu; “ululante” é algo que grita, que berra, que uiva – enfim, algo que se faz ouvir. Desse modo, podemos concluir que o “óbvio ululante” do Nélson Rodrigues, em outras palavras, quer dizer “evidência gritante”. Pois é… no Brasil tem esse troço mesmo; esse tal de “óbvio ululante” – só que ninguém vê, ninguém ouve; ou faz que não vê e não ouve.

          Por exemplo, não era “óbvio ululante” que a Câmara dos Deputados iria sepultar, como de fato sepultou, as duas denúncias criminais oferecidas contra Michel Temer pela prática de corrupção? Mas parece que ninguém viu esse “sepultamento”. Porque eu não percebi nenhuma revolta na mídia – nem nas redes sociais -, nem naquele povo que andava aí pelas ruas batendo panela contra a corrupção. Dizem que o invasor do Planalto gastou 12 bilhões de reais para comprar sua inocência; “engraxou” os deputados com grana saída sabe Deus de onde e segue aí todo pimpão, desgovernando o país do jeito que o diabo gosta.

            Outro exemplo: depois que o STF lavou as mãos não era “óbvio ululante” que o Senado da República iria absolver o Aécio Neves, mesmo ele tendo sido flagrado escancaradamente praticando atos de corrupção e obstrução da justiça? E de novo: parece que ninguém viu essa absolvição. Eu, pelo menos, não vi nem ouvi qualquer gritaria na imprensa, nem nas ruas nem nas redes. Silêncio total. Pelos vistos, a corrupção não é mais o grande problema do Brasil – o Congresso Nacional absolve dois corruptos na mesma semana e ninguém se arde; ninguém contesta, tampouco sai por aí batendo panela – a gente não acha um cazzo de um paneleiro nem pra remédio.

            É por essas e outras que fica “óbvio ululante” que toda aquela gritaria que fizeram contra o PT e contra a presidenta Dilma Rousseff, todo aquele ódio, não tinha nada a ver com corrupção. O objetivo era mesmo ganhar o “terceiro turno” das eleições de 2014, ou seja, arrancar a presidenta eleita do Palácio do Planalto de qualquer jeito – por bem ou por mal. E o fizeram na caradura; atropelando a lei, a Constituição, a vontade do povo, a soberania do voto popular e tudo o mais que viesse pela frente, pois ninguém segura a direita sebosa e a elite irresponsável deste país quando querem assumir o controle e mandar o povo às favas.

           Não era “óbvio ululante” que ao derrubar um governo democrático-popular, para pôr no Palácio do Planalto um representante da alta burguesia, o caminho ficava aberto para o neoliberalismo e o bicho iria pegar para a classe trabalhadora? Pois então, vejam aí o que andam fazendo com nossas empresas nacionais, com os direitos trabalhistas e com a previdência do trabalhador. É “incrível ululante”, mas até flexibilizar o conceito de “trabalho escravo”, e afrouxar a fiscalização nessa área, esse governo da elite tentou, por meio de uma portaria que o STF suspendeu de tão escandalosamente ilegal, imoral e criminosa.

            Outro negócio “óbvio ululante” era que esse governo que anda aí acabaria vendendo o pré-sal para as multinacionais; e o faria por qualquer bagatela. Dito e feito: desde a última sexta-feira que os brasileiros saíram do “pré” e ingressaram na “era do pós-sal”. Ficamos com as mãos abanando. E junto com nossa reserva de petróleo – uma das maiores do mundo -, lá se foram para os bolsos das petroleiras ianque-europeias os 800 bilhões de reais que seriam investidos na educação (75%) e na saúde (25%). Daqui a pouco vai embora também a Petrobras; e com ela toda a nossa chance de termos alguma soberania energética.

         Aliás, por falar em  soberania energética, depois de entregar o petróleo, veja que já estão vendendo a Eletrobras. E até um pedaço da Amazônia, com suas riquezas e biodiversidade, estão querendo vender (ou doar) ao império do Norte. Acabaram com o projeto de construção de um submarino brasileiro, para proteger a parte da Amazônia que nos toca, e arranjaram até um juiz (isso mesmo: aquele lá de Curitiba, especializado por Harvard e treinado pelo Departamento de Estado norte-americano) para prender o almirante Othon Pinheiro, um dos maiores cientistas do país, considerado o “pai” do nosso programa de energia nuclear, que sabe enriquecer urânio e comandava o projeto de construção do tal submarino – com investimento e indústria cem por cento nacional.

         E parece que ninguém vê essas coisas – tão “óbvias” e tão “ululantes”. Ninguém percebe o entreguismo da elite brasileira. Me disseram outro dia que a nova moda entre as mulheres dessa elite (já, já, imitadas pelas mulheres da classe média) é dar à luz em Miami, para que os filhos lá nascidos tenham cidadania norte-americana. Tem graça? Fala a verdade: pode haver um “viralatismo” mais cretino que esse? Se a elite brasileira abre mão até da própria nacionalidade, da própria identidade, por que não haveria de entregar nossa soberania, nossas riquezas naturais, nossas empresas e tudo o mais que os gringos queiram levar?

             A burguesia não tem pátria – a pátria dela é o dinheiro; são os privilégios. E a elite brasileira não só não tem pátria, como é antinacional, se formou de costas para o Brasil; voltada (de joelhos) para a Europa – primeiro, para a Inglaterra, depois, para a França. Isso é histórico, é estrutural. Agora, claro, a elite ajoelha-se também para os Estados Unidos. Que ninguém veja isso. Que a mídia brasileira faça uma cortina de fumaça e esconda essas manobras do imperialismo ianque-europeu. Que a direita no Brasil seja uma representante local (e serviçal) dos interesses e impérios internacionais é também uma coisa “óbvia ululante” – mas ninguém vê.

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