Os comparsas do presidente

        NÃO se esperava outra coisa – a Câmara dos Deputados suspendeu mesmo a denúncia contra Michel Temer que é acusado do crime de corrupção passiva (art. 317 do Código Penal). Esse resultado era previsível, tendo em vista que a atual composição do Congresso Nacional é uma das piores de nossa história republicana: além de ultraconservador, esse Congresso é um dos mais corruptos que já tivemos. A votação que suspendeu o processo-crime de Michel Temer ontem é mais um exemplo escancarado dessa corrupção: os observadores e a imprensa estimam que foram gastos mais de 15 bilhões de reais para comprar a “inocência” do presidente – agora pode “comprar” o parlamento e trocar votos por dinheiro, emendas e cargos.

        A denúncia do Ministério Público estava instruída com delação do dono da JBS confessando pagamento mensal de propina, diretamente, ao acusado Michel Temer. Mas o delator não ficou só no blá-blá-blá da delação: fez com que a Polícia Federal filmasse o preposto de Michel Temer, ex-deputado Rocha Loures, recebendo uma mala de dinheiro em São Paulo, com 500 mil reais, destinados à pessoa de Michel Temer. E foi mais longe o delator: gravou uma conversa sua com o próprio Temer em que ambos tratavam do suborno de um juiz e de um procurador da república para comprar o silêncio de Eduardo Cunha e barrar a Lava Jato – e mesmo assim, com todas essas provas, o presidente-golpista teve sua denúncia rejeitada pela Câmara dos Deputados.

       Enquanto Michel Temer é “absolvido” com esse monte de provas, Lula é condenado sem prova nenhuma! Muito didático – não? -, esse golpe de estado que as repúblicas bananeiras, comandadas por suas elites, costumam aplicar aqui no “quintal dos Estados Unidos”, de tempos em tempos.

     Com essa decisão da Câmara, é óbvio que os deputados que “inocentaram” Michel Temer assumiram, escancaradamente, a condição de cúmplices do presidente criminoso. Uma cumplicidade comprada a peso de ouro; o mesmo ouro que já havia comprado o afastamento de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados em 2016. Chega a ser burlesco: derrubaram uma presidenta honesta, que não cometeu crime nenhum; puseram no seu lugar um “presidente” criminoso, condenado pelo TSE como ficha-suja; e agora, para arrematar, acobertam escandalosamente os crimes desse presidente – e tudo em nome da moralidade política e do “combate à corrupção”. É burlesco ou não é?

       Mas não é só a Câmara dos Deputados (ou parte dela) que está conivente com os crimes do presidente-golpista; não são apenas os parlamentares que se tornaram cúmplices do presidente-usurpador. Aqueles “paneleiros”, que foram às ruas apoiar o impeachment sem crime de Dilma Rousseff, e que agora silenciam diante dos crimes de Michel Temer, são também comparsas do presidente criminoso. Desapareceram das ruas e das redes. Agora, mais do que nunca, fica óbvio que essa chusma, que andava aí pedindo cadeia para os corruptos, nunca teve qualquer preocupação sincera (e honesta) com a corrupção – o que eles queriam mesmo (fica muito claro agora!) era simplesmente derrubar Dilma Rousseff e varrer o Partido dos Trabalhadores do cenário político nacional.

        Toda aquela indignação dos “paneleiros” que se via nas ruas – e que a mim  nunca me enganou -, era mesmo uma indignação de araque, altamente suspeita. Agora caiu a máscara. Aquilo tudo nunca passou de farsa ou infame reação da “Casa-grande” contra a “Senzala”. Porque a elite branca e bem-nascida deste país, que andava nas ruas com suas camisetas verde-amarelas destilando uma patriotice ridícula e um falso-moralismo grotesco, nunca tolerou que um partido de esquerda, com raízes populares, liderado por um torneiro-mecânico, pudesse governar este país com políticas sociais voltadas para as camadas mais baixas da população.

      Mas, entre os “paneleiros falso-moralistas” não estavam apenas os integrantes da estúpida elite brasileira. Lá estavam também muitos representantes da nossa classe média ultraconservadora, elitista e profundamente alienada – do ponto de vista político e cultural. Essa classe média reacionária e elitista, que agora esconde suas panelas e se recolhe num silêncio eloquente diante dos crimes de corrupção praticados pelo presidente-golpista, é a mesma que o pôs no Planalto, e que até há pouco andava clamando por  decência na política – por aí se vê o grau de alienação dessa classe. O apoio alienado e falso-moralista da classe média às soluções politicamente autoritárias é um fenômeno recorrente (e persistente) na história deste país – foi assim com Getúlio Vargas em 54, foi assim com João Goulart dez anos depois, e foi assim com Dilma Rousseff em 2016.

     A decisão da Câmara dos Deputados no dia de ontem, e o silêncio infame dos paneleiros, revela que Michel Temer tem muitos comparsas, e poderá prosseguir, desembaraçadamente, na sua tarefa de arrasar os direitos trabalhistas, a aposentadoria dos trabalhadores, as empresas brasileiras e os nossos recursos naturais. Acobertado por uma mídia hipócrita, que manipula a opinião pública do jeito que bem entende, o atual ocupante do Planalto vai aniquilar de vez as políticas sociais que vinham reduzindo a desigualdade no país, ao mesmo tempo em que arrasará também a combalida soberania nacional, entregando ao capital estrangeiro o filé do nosso mercado e as nossas riquezas naturais – como água, minérios e petróleo.

         E tudo isso (que fique bem claro!) com o aplauso ou com o silêncio, com a conivência ou a cumplicidade daqueles que até ontem andavam aí pelas ruas, rumorosamente, festivamente, querendo “limpar”, moralizar e salvar o Brasil – esses paneleiros desorientados, cidadãos tardios, que sempre serviram de massa de manobra a uma elite antipopular, antidemocrática e antinacional. Uma elite que não tem – nem nunca teve -, qualquer compromisso com este país… tampouco com o nosso povo historicamente alijado de seus direitos mais elementares.

        Se ao menos tudo isso servisse de lição; se ao menos a banda alienada da população brasileira conseguisse enxergar o golpe que apoiou; se ao menos essa caterva fosse capaz de entender que foi vítima de um golpe contra si própria e contra a democracia; se ao menos percebessem que o combate à corrupção foi um simples pretexto para derrubar um governo legítimo, ainda se poderia ter alguma esperança. Mas não. Infelizmente a história registra (e confirma) que nossas elites, e também a classe média elitista, estarão sempre prontas a apoiar os golpes dos poderosos; estarão sempre a favor do “andar de cima” e contra os governos populares, contra as políticas sociais, contra aqueles que lutam pela erradicação das desigualdades – portanto, não há outra conclusão: o atual presidente corrupto conta com uma vasta comparsaria: os comparsas do autoritarismo, da corrupção e da injustiça.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

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Uma resposta para Os comparsas do presidente

  1. Arthur Jacon disse:

    É revoltante mesmo! Estupidez, mediocridade e hipocrisia é pouco para designar essa gente. Massa ignara e bovina. Terão o que merecem.

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