Um réu indigesto

          DEU nas folhas e nas mídias que o juiz da Lava Jato, naquele processo do sítio de Atibaia, pretendia fazer o próximo interrogatório do ex-presidente Lula da Silva por videoconferência (on-line), sob o argumento de que a presença física dele em Curitiba poderia gerar gastos excessivos com segurança. É estranha essa intenção do juiz de manter o ex-presidente longe de Curitiba no dia de seu próximo interrogatório. Porque inda há pouco, quando os advogados de Lula arrolaram dezenas de testemunhas de defesa, o mesmo juiz disse que exigiria a presença física do ex-presidente em todas as audiências para oitiva dessas testemunhas. Por que será que agora, justamente no interrogatório que é um ato pessoal do réu, o juiz não quer ver o Lula em Curitiba?

           Eu acho que sei por quê.

         É que no interrogatório anterior, ocorrido no dia 10 de maio último, naquele processo do tal triplex do Guarujá, o réu Lula da Silva deu um trabalho danado pro juiz. Começa que ele (réu) chegou ao fórum carregado por dezenas de milhares de pessoas; e depois do interrogatório, dirigiu-se a uma praça de Curitiba onde era esperado por outras dezenas de milhares de manifestantes que o apoiavam. Não é comum que um réu chegue a um fórum de justiça carregado pelo povo que, além disso, ainda gritava palavras de ordem e exibia cartazes pró réu e contra a atuação do juiz – eu, por exemplo, confesso que nunca tinha visto isso; só nas obras de ficção.

       Mas teve ainda um outro probleminha causado pelo réu no dia desse polêmico interrogatório: é que enquanto ele (réu) chegava ao fórum livre, carregado e aclamado pelo povo nas ruas, o juiz e os acusadores, membros do Ministério Público Federal, chegavam ao mesmo fórum discretamente (quase secretamente) e escoltados por policiais. Confesso que também nunca tinha visto isso: quem chega escoltado aos fóruns, seguidos pela polícia, são os réus, não os juízes e acusadores – tem qualquer coisa de esquisito, e de desconfortável, nessa inversão de papéis.

           E o desconforto do juiz não parou por aí, não. Durante o interrogatório, o réu Lula da Silva disse ao juiz da Lava Jato uma coisa que eu também nunca tinha visto um réu dizer a um magistrado. Ele disse, sem meias-palavras, que não estava sendo julgado pelo juiz Sérgio Moro, e sim pela grande mídia. E deixou bem claro: disse que o juiz apenas assinaria a sentença, burocraticamente, mas o julgamento não era dele. Não me lembro de ter visto um réu dizer na barba de um juiz que ele (juiz) não julgava nada, apenas referendava o julgamento de outrem – isso é quase um desacato.

           E tem mais: a certa altura do interrogatório o réu Lula da Silva disse que o juiz Sérgio Moro não poderia ter feito o que fez, mandando “grampear” o telefone dele e de sua família para depois “vazar” o conteúdo das conversas sigilosas para a grande imprensa. Nesse momento, o juiz tentou dizer que não havia “vazado” nada ilegalmente para a mídia. Mas o réu insistiu dizendo que os “vazamentos” ocorreram sim, e que eles tinham saído exatamente daqui, da vara federal de Curitiba, calando de vez o juiz que tentava negar a ilegalidade que o réu lhe atribuía – nunca vi um réu acusar um juiz desse jeito, com tamanha firmeza.

          E não ficou nisso, não: o réu Lula da Silva disse na barba do juiz da Lava Jato que era inocente, e que estava sendo julgado sem prova nenhuma. O juiz então exibiu-lhe um contrato dizendo que aquele documento provava que ele, Lula, era dono do apartamento triplex do Guarujá. Imediatamente o réu fez ver ao juiz que aquele contrato não estava assinado, e que, portanto, nem era um contrato – nem era prova de nada. Ao que o juiz teve que “engolir” de novo a argumentação do réu e recolher discretamente o tal “contrato” sem assinatura.

          (Numa estranha (e chocha) entrevista concedida pelo juiz Sérgio Moro à Folha de S. Paulo no último domingo (30.7.17), o magistrado admite expressamente que condenou Lula no caso do triplex do Guarujá “sem provas diretas”, com base apenas em “indícios” e “provas indiretas”. Considerei chocante essa afirmação do juiz. Indícios e provas indiretas servem para deflagar investigações, servem para embasar acusações, servem para complementar provas, mas não servem jamais, por si sós, para condenar uma pessoa criminalmente – o que disse o juiz é uma aberração jurídica, só admissível em tempos de inquisitorialismo penal.)

         Mas, voltemos à rebeldia do réu. Lá pelas tantas, durante seu interrogatório, Lula da Silva peguntou ao juiz onde é que estava o procurador Deltan Dallagnol, que coordena a operação Lava Jato mas, curiosamente, não estava ali, naquela audiência. E arrematou: “Meu acusador deveria estar aqui, para me ouvir, por que é que ele não veio?”. Credo! Confesso que nunca vi um réu desafiar assim, tão acintosamente, o seu acusador, chegando mesmo às raias do desacato, sugerindo que o procurador não veio porque ou estava constrangido (com medo?) ou porque deixou de cumprir adequadamente suas obrigações funcionais.

           Como se vê, o juiz da Lava Jato tem mesmo muitos motivos pra não querer ficar cara a cara outra vez com esse réu indignado. O interrogatório por videoconferência, feito à distância, poderia evitar os constrangimentos acima. Mas o réu insistiu: “Quero ser interrogado em Curitiba, pelo meu julgador e na presença dos meus acusadores”. Como é um direito do réu comparecer pessoalmente em juízo (o interrogatório é meio de prova, mas é também um ato de defesa, ou de autodefesa), o magistrado não teve como negar, e parece que já voltou atrás na sua estratégia de ficar longe do Lula e fazer o interrogatório on-line no processo do sítio de Atibaia – não teve jeito, ossos do ofício, o juiz vai ter mesmo que reencontrar (e “digerir”) esse réu indigesto.

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Uma resposta para Um réu indigesto

  1. BORBOREMA disse:

    Outra boa do réu ao Dr Sérgio Moro foi quando ele se referiu ao Youssef (o doleiro)
    :___ Aquele que o senhor soltou !
    Youssef além de doleiro da na polêmica Operação Uruguai .
    Tem outro caso interessante,é clicar no Google:Modelo sem calcinha,Itamar Franco.
    Pois bem,a modelo sem calcinha na Sapucaí que posou ao lado do ex presidente Itamar;onde o jornalista da globo alcançou um furo de reportem ,foi levada ao camarote por Youssef,que também aparece na foto.

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