Tempos difíceis

          NESTES tempos politicamente conturbados, pelos quais passa o Brasil, ninguém tem muita certeza de nada – nem na política nem na economia. Noto que os especialistas fazem análises de tudo quanto é jeito, e pra tudo quanto é lado, tentando entender o que está acontecendo e o que poderá acontecer daqui pra frente, neste país atribulado. Debalde. Mas, apesar das incertezas, algumas coisas parecem mais ou menos óbvias. De tal maneira que seria possível até arriscar alguma análise com certa margem de segurança, com algum grau de probabilidade, e até com alguma clareza – artigo raríssimo em tempos tão nebulosos.

       Uma primeira evidência é que a direita no Brasil já está articulando a retirada de Michel Temer da presidência da república. Não porque ele seja incompetente (embora o seja); não porque ele ameace direitos e privilégios da burguesia (ele jamais representaria uma ameaça aos poderosos); não porque esteja enrolado e até processado criminalmente pela Lava Jato. Nada disso. A burguesia quer tirar o Temer porque, com a impopularidade beirando os 100% ele jamais conseguirá conduzir as reformas que a burguesia tanto quer: reforma antitrabalhista (li esse termo em algum lugar), reforma previdenciária, e as reformas privatizantes.

       A segunda evidência na atual conjuntura política brasileira é de que essa mesma burguesia (que derrubou Dilma e agora quer tirar o Temer) já está articulando o nome do presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia, para assumir a presidência até 2018. Para que ele faça (ou deixe que façam) as reformas neoliberais. O único problema é que há, ainda, um setor do empresariado (e do PMDB) que defende a permanência de Michel Temer no Planalto. Mas, quem vai decidir se a presidência fica com Temer ou com Maia é o mercado, a grande burguesia, o grande empresariado (aí incluídos, naturalmente, os empresários da mídia).

         Uma coisa que também me parece certa (outra evidência?) é que para a burguesia do país tanto faz: Temer ou Maia. Tanto faz como tanto fez: ambos são golpistas; ambos são representantes das elites e do grande capital; ambos atuam a soldo do neoliberalismo. Seja um, seja outro, só muda o nome, e o RG, porque os dois têm os mesmos compromissos políticos: e certamente não é com a classe trabalhadora nem com os pobres – os seus compromissos, como se diz, são bem mais em cima.

       Muito bem. Disso tudo resulta uma outra evidência: o povão (eu, você, nós), a classe trabalhadora e as classes populares estamos completamente excluídos desse processo de definição e escolha do novo presidente da república. Disso resulta uma outra evidência: A nossa democracia é antidemocrática. É uma democracia sem povo. É uma democracia mequetrefe, ou de fachada: típica das tais republiquetas de bananas. Na verdade, ela é uma plutocracia; é um mero joguete nas mãos da elite brasileira. É por isso que a esquerda e alguns democratas autênticos estão protestando por eleições DIRETAS JÁ! – mas não serão ouvidos.

        O processo de escolha do presidente da república, para o mandato-tampão até 2018, será conduzido “pelo alto”, sem participação popular. E por uma razão muito simples: o poder político voltou às mãos de quem sempre o deteve: a elite. Os partidos populares de esquerda, e os movimentos sociais, que representam as camadas inferiores da população, estão sendo abertamente alijados da cena política; estão sendo impedidos (até mesmo pela Justiça) de intervir no jogo político – notem que o candidato com maior índice de preferência no seio das classes populares, que lidera disparadamente as pesquisas para as eleições presidenciais de 2018, não poderá, sequer, concorrer ao cargo de presidente da república – será impedido pela Justiça.

      De tudo quanto foi dito, podemos extrair ainda uma outra evidência: era mesmo insuportável para a direita brasileira que um partido popular, com origem nos movimentos sociais e no sindicalismo, continuasse governando o país. Era preciso mesmo “remover” um governo popular de esquerda para que a reformas neoliberais fossem introduzidas goela abaixo dos trabalhadores e dos pobres deste país; e para que as nossas riquezas naturais (gás, água e petróleo), bem como riquezas econômicas (empresas públicas) fossem entregues ao capital privado e estrangeiro de mão beijada, ameaçando ainda mais a tão ameaçada soberania nacional.

        Além dessas poucas evidências (?), muito pouco podemos enxergar. Mas ainda é possível enxergar uma coisinha mais: a conta dessas estrepolias todas será paga pelos pobres e pelos trabalhadores. Não foi por acaso que denominei este post com o título da obra-prima de Charles Dickens: “Tempos difíceis”. Um clássico da literatura mundial que o escritor inglês publicou no século XIX justamente para denunciar a exploração do povo pobre, a deterioração das condições de trabalho, a condição servil e o aviltamento da classe trabalhadora nos primórdios do capitalismo – pelo visto, parece que nada mudou. E como parecem atuais as palavras do pobre personagem de Dickens (Stephen): “Não é possível que os senhores, patrões, estejam sempre certos; e nós, trabalhadores, estejamos sempre errados”.

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5 respostas para Tempos difíceis

  1. Arthur Jacon disse:

    Não seria mais conveniente para esses delinquentes que um presidente impopular e no ocaso de sua carreira conduzisse essas reformas criminosas?

    • Prezado Arthur,

      Penso que sim. Se a reação popular impulsionada pelo “Fora Temer” perder a força, o melhor para os “reformistas” será mesmo manter o Temer, que depois do mandato, e no ocaso de sua carreira política, será facilmente descartado, e até autodescartado, esquecido.

      Agradeço a intervenção no blog, abraço.

  2. Arthur Jacon disse:

    Caro Professor:

    Acho que o Lula será absolvido (sério!). Não conheço o processo, mas as alegações finais do MP já indicam que não há provas para condená-lo.

    Abs.

    • Arthur Jacon disse:

      Putz, acabou de ser condenado. Sou um ingênuo mesmo!

      • Caro Arthur,

        Não creio que você tenha sido ingênuo na avaliação do processo, sua avaliação me parece a única razoável; o juiz Sérgio Moro é que foi “esperto” demais.

        Obrigado pelos comentários, abraço, Antônio Alberto Machado

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