O golpe e o mordomo perfeito

             AFIRMEI diversas vezes que o sistema de justiça brasileiro (Judiciário, Ministério Público, tribunais de contas, polícias etc.) sairá arranhado desse golpe que teve início em 2014, desaguou no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, pôs no seu lugar um presidente ilegítimo e inelegível, e não parou mais – até hoje. Agora foi a vez do TSE. Numa decisão flagrantemente contrária à prova dos autos, ao direito e ao bom senso, os juízes dessa corte resolveram manter no cargo o presidente-golpista, que está afundado até a raiz do cabelo (e condenado pelo próprio TSE) em graves denúncias de corrupção política.

          Essa decisão apertada do Tribunal Eleitoral, por 4 votos a 3, pelo menos foi didática: deixou claro de uma vez por todas que a corrupção foi mesmo um mero pretexto para dar o golpe de estado no país; para tirar o Partido dos Trabalhadores da presidência; varrer a esquerda do cenário político; e instalar a direita, com lei ou sem lei, confortavelmente no poder. Mesmo com todas as denúncias de corrupção contra Temer, Temer continua. E não se vê nenhuma gritaria na imprensa; nenhum paneleiro revoltado. Agora, a moralidade administrativa e a ética na política não importam mais, não são mais convenientes, são coisas do passado.

         E o Michel Temer passou a falar grosso: “Não renunciarei” e “Se quiserem me tirar do poder terão que me matar”. Passou a enfrentar todo o mundo, as instituições judiciais, inclusive o Supremo Tribunal Federal, numa “sangrenta” batalha jurídico-política que ninguém sabe aonde vai dar. Mas não pensem vocês que o presidente-usurpador é esse poço de coragem, não. Não pensem que as bravatas dele vêm de sua própria força. Pode escrever: o Michel Temer não cairá, será mantido no cargo até o fim do mandato porque a oligarquia paulista, a mesma que deu o golpe no país derrubando a presidenta eleita, resolveu abraçar a causa do presidente não eleito, resolver “guentar” os problemas do presidente-mordomo.

          Com efeito, notem o comportamento da grande imprensa paulista: a revista Veja, o jornal Folha de S. Paulo e o Estadão já começaram a bater nas delações e na Lava-Jato, questionando seus métodos ilegais e atrabiliários (o que não deixa de ser verdade). Até os ministros do TSE malharam essa operação. Estão batendo inclusive no antes intocável Sérgio Moro. Exatamente o juiz que pintou e bordou em cima da Constituição sob os aplausos e sob o incentivo dessa mesma mídia que agora critica o magistrado por não respeitar as leis e a Constituição do país. Agora, é conveniente que o juiz se mantenha nos estritos limites da legalidade, que ele não cometa nenhum abuso como aqueles que cometeu contra a presidenta derrubada e o ex-presidente Lula – para os amigos, a lei, para os inimigos, os rigores da lei.

         Só falta agora a emissora carioca aderir aos planos da burguesia paulista para segurar de vez a barra do presidente-usurpador. Que é o homem talhado para dar continuidade ao golpe – agora contra nossas riquezas, contra os programas sociais e os direitos da classe trabalhadora. Michel Temer é o mordomo perfeito para servir as tais “receitas amargas” de que falava Aécio Neves quando ainda era o nome preferido pela direita para tocar a pauta neoliberal, para impor ao país uma austeridade fiscal hipócrita, que penaliza exclusivamente os mais pobres e os trabalhadores.

           Não se iludam: o golpe ainda está em andamento: derrubaram a presidenta legítima; estão agora consolidando no poder o presidente ilegítimo; já abriram nosso setor de petróleo ao capital privado internacional; e em seguida será a vez de implantar o “austericídio” neoliberal que foi, na verdade, a razão de ser do golpe – esse miserável golpe de estado conduzido pela grande burguesia, sobretudo a paulista, com a propaganda e o apoio decisivo da mídia empresarial, utilizando a via parlamentar, sob o silêncio incompreensível do Poder Judiciário.

           No epílogo do golpe, vêm novas privatizações e a destruição dos programas sociais, dos direitos trabalhistas e da previdência social. Para levar a efeito esses objetivos impopulares, nada melhor que um presidente que tem quase 100% de impopularidade. O desgaste político advindos dessas reformas será inócuo para Michel Temer, porque ele já não tem mais onde desgastar – não tem o que perder. Sua última pretensão política é permanecer na presidência até o fim do mandato e livrar-se da polícia; depois, será descartado pela própria burguesia.

          Em troca disso, ele (e o grande PMDB) deverá apenas atender seus senhores: conceder nossas riquezas ao mercado; fazer as reformas neoliberais; entregar de bandeja nosso petróleo e nossa petroleira aos gringos, bem como a água e o que resta do sistema financeiro, servindo manjar açucarado aos ricos e “receitas amargas” aos pobres – um mordomo perfeito.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s