Uma delação implosiva

         O SITE  do Ministério Público Federal informa que já foram firmados 158 acordos de delações premiadas no âmbito da Lava Jato até agora. Mas, de todas elas, três são realmente impactantes. Ou, se quiserem, realmente explosivas. Trata-se da delação da Odebrecht, que foi chamada até de “delação do fim do mundo”; da delação da JBS, que provocou um verdadeiro terremoto político e está em vias de derrubar o presidente da república; e, por fim, uma delação que ainda não houve, mas que virá – a do ex-ministro Antônio Palocci, que parece ter resolvido firmar um acordo de colaboração com a Lava Jato.

       Dizia-se que a delação da empresa Odebrecht iria implodir a república e não ficaria “pedra sobre pedra”. Realmente, essa delação, implicando todos os grandes partidos e as maiores lideranças políticas do país, chegou a ser chamada de “delação do fim do mundo” – e não foi à toa. Já a delação da JBS pegou todo mundo de surpresa, porque não foi celebrada no âmbito da Lava Jato, mas revelou que o sistema político brasileiro está mesmo inteiramente subjugado pelo dinheiro – segundo os delatores, 1.829 políticos e 28 dos 32 partidos brasileiros foram financiados por essa empresa do ramo de carne processada.

        Agora, dizem as folhas e as mídias que o ex-ministro Antonio Palocci vai fazer um acordo de delação premiada no âmbito da Lava Jato. Como se sabe, o ex-ministro era, ao lado de José Dirceu, um dos homens-fortes do PT. Forte porque era ele quem fazia a ponte entre o partido e os financiadores de campanha. Ou seja, Palocci era o homem responsável pela dinheirama que irrigou as campanhas de seu partido – tanto nas eleições de Lula quanto nas de Dilma Rousseff. Trata-se, portanto, de alguém que deve saber tudo a respeito das relações incestuosas entre políticos e empresários – um verdadeiro “arquivo-vivo”, como diz o outro.

        Especula-se que o Palocci – aliás, como ele próprio deixou entrever em seu depoimento ao juiz Sérgio Moro – vai delatar um ou mais figurão do ramo das finanças (banqueiros), e também um ou outro graúdo do ramo da comunicação social (barões da mídia). Aliás, nesse imbróglio todo de financiamento irregular de campanha, caixa dois, propinas e quejandos, que envolveu gente grossa do mundo político e do mundo empresarial, os grandes ausentes são mesmo os banqueiros e os empresários da mídia. Como nenhum deles é santo, é possível que agora o Palocci, que conhece tão bem os meandros financeiros da política, traga alguma informação sobre a eventual implicação desses dois segmentos nessa confusão toda.

          Pelo menos foi isso o que o ex-ministro insinuou – com certa insistência até -, nas barbas do juiz Sérgio Moro. O ex-ministro da Fazenda disse ao juiz que fora procurado por um grande banqueiro e por um barão da mídia que pretendiam colaborar, de alguma forma, para com o financiamento do PT. À medida que falava ao juiz, o ex-ministro brandia um maço de papéis, sugerindo que tinha ali não apenas as informações verbais, mas, também, os documentos que comprovariam suas afirmações. E finalizou dizendo ao magistrado que sua delação daria, no mínimo, mais um ano de trabalho para a operação Lava Jato.

           Vem chumbo grosso por aí! E a grande expectativa é saber se o Palocci vai ou não vai delatar o Lula. Não se sabe. O que se sabe é, apenas, que o ex-ministro resolveu fazer delação premiada; dispensou os advogados que também defendem o ex-presidente Lula; e já está negociando os termos de sua delação. Como Palocci era, por assim dizer, “o homem do caixa”, aquele que fazia a ponte entre o Partido dos Trabalhadores e os empresários, pode-se imaginar que ele sabe realmente muita coisa sobre o Lula e a Dilma – resta saber se dispõe de provas contra os dois. Mas aguardemos!

          Seja como for, a delação do Palocci tenderá a ser um verdadeiro divisor de águas no caminho da Lava Jato. Dizer que todos os partidos, inclusive o PT, utilizam caixa dois nas campanhas; dizer que empresários financiam essas campanhas irregularmente; dizer que esses financiadores de campanha são os mesmos que fazem contratos vultosos com o Estado; dizer que este ou aquele político embolsou dinheiro doado por empresas; dizer que alguém assumiu este ou aquele cargo estratégico para facilitar a vida dos empresários; dizer isso tudo já não interessa mais, todo mundo sabe disso, sabe que é assim e pronto, sabe que a política brasileira está dominada pelos endinheirados.

            Logo, o que a delação do Palocci poderia trazer de novidade – e de estrondoso -, são informações sobre o envolvimento do mundo financeiro, da mídia e do ex-presidente Lula nessas negociatas todas. Nesse sentido, se as delações da Odebrecht e da JBS foram EXPLOSIVAS, a do Palocci tenderá a ser IMPLOSIVA. E por quê? Por duas razões: primeiro porque essa delação poderá implodir o ex-presidente Lula, seu legado político, e o PT; segundo porque, se envolver o capital financeiro e o baronato da mídia, a delação do Palocci poderá implodir a própria Lava Jato.

        Ou seja, se o Palocci delatar o envolvimento do Lula em corrupção, com provas e documentos conclusivos que até agora não apareceram, pode crer que o Lula, o lulismo e o petismo já eram – e a Lava Jato será a redenção moral do país; mas, se o Palocci trouxer prova do envolvimento de banqueiros e donos da grande mídia nessa corrupção toda, creia que a Lava Jato desaparecerá do mapa, sumirá do noticiário e das grandes manchetes, sairá da pauta diária dos brasileiros, acabará como simples notícia de rodapé – a força da Lava Jato, como ela mesma admite, vem da grande mídia, logo, vem também do rentismo que apóia e financia os meios de comunicação social – se a Lava Jato se voltar contra seus padrinhos, será o seu fim.

           Porém, há ainda um terceiro cenário possível para a delação do Palocci: pode ser que ele entregue todo mundo: Lula, Dilma, o PT, os banqueiros e os barões da mídia. Essa hipótese é como “pôr fogo no circo”. Nesse caso, o Palocci salva sua pele, mas o desfecho da Lava Jato ficará totalmente imprevisível: é bem por isso que a delação do ex-ministro da Fazenda deverá ser um verdadeiro divisor de águas no acidentado caminho dessa operação policial/judiciária – meio polêmica, meio megalomaníaca -, que eu já nem sei se fez mais bem ou mais mal ao Brasil.

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Uma resposta para Uma delação implosiva

  1. Arthur disse:

    Olha, Doutor, mal não fez. Claro, e você disse isso muitas vezes, e eu também comentei, houve excessos e medidas de duvidosa legalidade. Mas é preciso depurar o meio político (sempre observando as garantias individuais), ainda que isso tenha custos econômicos e sociais nada desprezíveis. E que os pensadores não alinhados ao monetarismo, doravante, não se envergonhem de ser puristas do ponto de vista ético. Como disse Rui, às vezes é melhor perder. A vitória não pode ser alcançada a qualquer custo. Gostei do texto, bastante lúcido.

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