Moralismo simplório

          AGORA ficou mais tranquilo, ficou menos arriscado dizer que a corrupção política no país não é uma invenção nem uma exclusividade do PT e dos petistas. Porque se alguém dissesse isso há mais ou menos um ano, e antes dessas últimas megadelações que vimos agora, corria o risco de ser excomungado. Enfiaram na cabeça dos brasileiros que o Partido dos Trabalhadores jogou o país na lama da corrupção; que todo petista era corrupto; que o Lula era o chefe de uma quadrilha; e que só mesmo a cadeia pra dar jeito nessa petralhada sem-vergonha que “sujou” o Brasil.

          Mas, depois dessas duas delações catastróficas da Odebrecht e da JBS a coisa mudou. Não tem mais jeito de negar que é o sistema político brasileiro que está corrompido. E que essa corrupção vem de longe e atinge todos os partidos, indistintamente. Veja, por exemplo, a delação dos executivos da JBS: eles dizem que financiaram 1.829 políticos de 28 partidos; dizem que distribuíram dinheiro a rodo, pra quem quisesse. Depois dessa, não há mais como negar que a corrupção é do sistema, e não deste ou daquele partido; não há como negar que nosso sistema político funciona mesmo na base do dinheiro, e que a nossa democracia, bem feitas as contas (literalmente), é uma autêntica plutocracia.

           O Brasil, parece-me, tem 32 partidos políticos. Se só a JBS financiou 28 deles, então não sobrou nada. Mas entre esses 28 partidos, “comprados” pelos donos da Friboi, está também um partido muito poderoso: o Partido da Rede Globo. A empresa dos Batista é a terceira maior anunciante da emissora dos Marinho. Se os partidos políticos dependem do dinheiro da JBS, a Rede Globo depende também. O mesmo caixa que financia a corrupção política, financia a maior rede de televisão do país – justamente aquela que manipula o jogo político e nutre um ódio mortal ao PT e ao grande líder do PT – o Lula.

          E essa emissora soube disseminar muito bem esse ódio, compartilhando-o com boa parte dos brasileiros que, iludidos pelo discurso hipócrita do combate à corrupção, se deixaram enganar ingenuamente. A máquina de propaganda da Rede Globo – que não deve nada à máquina de propaganda nazista – fez com que o eleitorado ingênuo (especialmente a classe média historicamente conservadora e alienada) acreditasse que a corrupção no país era coisa só do PT; que ela é um defeito de caráter dos políticos, e não um “modus operandi” do sistema eleitoral subjugado pelo dinheiro das elites.

         Fez também com que esses mesmos ingênuos saíssem às ruas, com suas animadas panelas, com suas reivindicações despropositadas, com suas reluzentes camisetas verde-amarelas, numa patriotada verdadeiramente ridícula; e fez ainda com que acreditassem, até ontem, que políticos como Aécio Neves e José Serra, que hoje caíram em desgraça nas teias da corrupção, fossem tidos como os baluartes da moralidade – o antídoto certo para a corrupção dos petistas.

           E mesmo agora que caiu a máscara desses políticos, que a verdade sobre a corrupção veio à tona, o eleitorado ingênuo, decepcionado com seus antigos candidatos, continua com a mesma ingenuidade, afirmando que todos os políticos são igualmente corruptos, que são todos “farinha do mesmo saco”, e que é preciso processar todo mundo: sem perceber que a corrupção está no sistema político; sem conseguir enxergar que ela é um problema estrutural da democracia burguesa; sem entender que a democracia liberal capitalista fracassou e foi capturada pelo dinheiro no mundo todo; e sem perceber que os políticos da direita não serão punidos como os da esquerda.

         A decepção e a rejeição aos partidos – e aos políticos -, não é uma especificidade do Brasil. A crise de representatividade e de confiança da democracia burguesa é geral, ao redor do mundo capitalista. Veja o Podemos!, na Espanha: foi uma recusa popular aos partidos tradicionais. Veja o Siriza, na Grécia: foi a mesma coisa. Veja o Movimento Occupy Wall Street: idem. Veja na Argentina, o movimento “Que se vayan todos”: despachando todos os políticos. E veja agora a eleição de Emmanuel Macron na França: um homem sem partido…

      O moralismo ingênuo não percebe isso, não se volta contra o sistema e continua depositando suas melhores esperanças no cárcere, na repressão autoritária, na destruição do direito e da política. Não enxerga os defeitos da democracia burguesa e já anda à cata de um “messias”; um “salvador da pátria”. Enquanto o moralismo tosco fica bradando contra a corrupção, não se dá conta de que o sistema corrupto continuará corrupto, manipulado pela elite corruptora. Exatamente como já está ocorrendo agora, neste momento, em que a Rede Globo, os representantes do rentismo e os grandes empresários estão definindo, nos gabinetes e a portas fechadas, à revelia do povo e dos trabalhadores, quem será o sucessor de Michel Temer – que até poderá ser o próprio Michel Temer, uma espécie de Michel Temer II.

            Já estão escolhendo, sim,  aquele que deverá prosseguir com a política de destruição da seguridade social, de aniquilamento dos direitos trabalhistas e de entrega das nossas riquezas ao mercado e aos mercadores. Enquanto isso, os moralistas inocentes ficam por aí com seu moralismo bronco, manipulados e mergulhados na alienação. Iludidos pela máquina de propaganda da alta burguesia. Esses moralistas não têm nenhuma chance de intervir no jogo político, nem nos espaços reais de poder, nem nos destinos do país… Nem nos próprios destinos.

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