Os vídeos do juiz

           HÁ dois vídeos circulando na internet, gravados pelo juiz da Lava Jato – os dois são bem estranhos, não são normais. Num deles, o juiz lê um trecho de Theodore Roosevelt, de 1903, onde o então  presidente norte-americano diz que “não existe crime mais sério do que a corrupção”; que “a corrupção ataca as fundações de todas as leis”; que “não existe coisa mais grave que a corrupção”; que “o corrupto é pior que o ladrão”; que “o corrupto é tão maligno como o assassino”; que “o assassino toma apenas uma vida, enquanto que o corrupto assassina a própria comunidade”; que “os corruptos possuem uma malévola preeminência da infâmia”; que “a punição da corrupção pública é uma honra para a nação”; que “se nós falharmos em dar tudo o que temos para expulsar a corrupção, não poderemos escapar de nossa parcela de responsabilidade”; e finaliza: “deixo essa mensagem na página que é mantida por minha querida esposa”.

       Me pareceu um moralismo bem exagerado; talvez obsessivo. As imagens do vídeo revelam um juiz circunspecto, concentrado, absolutamente convencido e determinado a seguir os conselhos do presidente norte-americano. O que chama a atenção mesmo é que o juiz assume um ar contrito, quase sofrido, semblante sério e pesado, de quem carrega um fardo sobre os ombros, dando a nítida impressão de que ele se sente especialmente ungido (sei lá por quem!) para acabar com a corrupção no país. Dentro de uma roupa preta – o traje preto é sempre um traje dramático! -, o juiz fala pausadamente, em tom de prédica, como quem lê a Bíblia, deixando transparecer uma clara determinação – típica dos fanáticos, dos fundamentalistas.

           (Uma vez que o juiz da Lava Jato se mostra assim tão indignado com a corrupção política, será que ele vai prender preventivamente também o presidente e o tesoureiro do PSDB, bem como os marqueteiros responsáveis pelas campanhas do Aécio, do Serra, do Alckmin, do FHC, agora delatados pela Odebrecht? Se ele prender essa gente, como fez com a gente do PT, eles contam tudo – contam até o que não devem. E será que o juiz da Lava Jato, assim tão disposto a acabar com a corrupção, vai determinar também a condução coercitiva do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, agora delatado pela Odebrecht, tal como ele fez com o Lula? Vai nada – sua indignação parece ter endereço certo.)

         Chama a atenção – não é normal -, que um juiz de direito saia nas redes sociais divulgando suas convicções, fazendo uma espécie de propaganda do seu trabalho, num momento em que tem sobre sua mesa importantes casos de corrupção para julgar. É também  esquisito que ele o faça por intermédio da página pessoal de sua “querida esposa”, no Facebook, estabelecendo uma relação muito próxima, muito íntima (e inadequada) entre suas relações domésticas e as questões públicas ou republicanas que vai julgar – uma grotesca confusão entre o público e o privado. Estranhei também que, no vídeo, o juiz tenha citado logo dois presidentes norte-americanos – Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln -, revelando uma quase devoção pelos ianques.

       No outro vídeo que também circula na internet, o juiz aparece pedindo que os “apoiadores” da operação Lava Jato não se dirijam a Curitiba no próximo dia 10 de maio, quando se dará o interrogatório do ex-presidente Lula. O juiz afirma que esse apoio é importante, mas que nesse momento ele não é necessário. É também fora do normal que magistrados se dirijam a seus “apoiadores”. Juiz não tem apoiadores – só se apóia na lei e na sua consciência. Juiz com “apoiadores”, que já se apoiou também na mídia privada para exercer seus misteres públicos, é algo que não se vê todo dia, não.

            Esses vídeos revelam que o juiz da Lava Jato anda misturando as coisas: mistura seu papel de juiz com o papel da mídia; mistura suas atividades judicantes com as atividades da Polícia Federal e do Ministério Público; mistura suas funções públicas com as relações domésticas, no Facebook da esposa; mistura seu papel de juiz, equidistante e independente, com a conduta (imprópria) do juiz que pede apoio popular para exercer seus misteres; mistura suas tarefas de aplicar a lei nas sentenças com as tarefas de divulgar suas opiniões em redes sociais – não sei não: no mínimo, trata-se de um juiz, como diriam os latinos, “sui generis”.

            Na verdade, o juiz da Lava Jato já deu mostras, há muito tempo, de que perdeu a imparcialidade para julgar o ex-presidente Lula – já humilhou o ex-presidente em público, arrastando-o de forma ilegal para depor na polícia a troco de nada; já revelou, também ilegalmente, telefonema sigiloso do ex-presidente; já determinou buscas e apreensões na casa do Lula e dos filhos do Lula sem necessidade nenhuma; já mandou apreender até o celular pessoal da mulher do Lula; já mandou “grampear” os advogados do Lula, enfim, já fez poucas e boas, deitou e rolou pra cima da lei e da Constituição tentando pegar o Lula – isso, definitivamente, não é coisa de juiz imparcial.

            Os juízes quando perdem a imparcialidade também corrompem as leis – é um tipo de corrupção. Mas, além de perder a imparcialidade, parece que o juiz da Lava Jato está perdendo a serenidade para julgar o Lula e demais petistas. Esses dois vídeos acima mencionados – que se podem encontrar na internet: é só “dar um google” – são indícios muito claros de que o magistrado está meio confuso, fazendo algumas confusões. Ou, no mínimo, está muito “apaixonado” pelas causas que tem de julgar. E a paixão, como se sabe, não é boa companheira quando a ocasião pede serenidade, equilíbrio e bom senso – ela pode levar à cegueira, a tal “cegueira da razão” que os críticos da modernidade iluminista tanto condenam.

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2 respostas para Os vídeos do juiz

  1. Sandra disse:

    Precisa saber se ele recebe bolsa moradia de 5 mil reais e tem casa própria. Se receber, apesar de “legalizado” pelo STF , isso não soaria como desvio da finalidade do dinheiro público?

  2. Alexandre Barthonelli disse:

    O Sr. disse tudo: ele “quer” transparecer que se sente ungido… considero tudo jogo de cena! Na minha opinião quando se tem provas ( aahh as provas), fica mais fácil adquirir o mais difícil: convicção… pelo jeito nem isso ele tem.

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