Ponha-se no seu lugar

         CIRCULA na internet, WhatsApp, Facebook etc., uma carta aberta que o ex-deputado estadual Cláudio Vereza, do Espírito Santo, escreveu ao juiz Sérgio Moro, da Lava Jato. É uma carta engraçada em que o subscritor pede (ou melhor: exige) que o magistrado devolva ao ex-presidente Lula um tambor de Congo que fora apreendido pelo juiz sob o argumento de que ele (o tambor) pertence à União, e não ao ex-ocupante do Planalto.

          O autor da carta, porém, afirma que deu aquele tambor ao Lula, que foi um presente pessoal de amigo pra amigo, e que, portanto, ele pertence ao Lula – e não à União ou a quem quer que seja. A certa altura da carta, o missivista, como se pusesse o dedo no nariz do magistrado, diz peremptoriamente: “Ponha-se no seu lugar e devolva o tambor de Congo a quem doei livremente”.

          O país tá vivendo um momento político tão esquisito que às vezes dá a impressão de que as coisas estão mesmo fora de lugar – inclusive alguns juízes. Esse juiz da Lava Jato é um desses que aparece em cada lugar que deixa a gente até meio cabreiro. Há um tempo atrás estava ele lá na Rede Globo recebendo um prêmio de Personalidade do Ano, coisa que não é usual para um magistrado. É esquisito. E logo na Rede Globo que é tida e havida como uma emissora politicamente envolvida – dizem que ela já derrubou três presidentes da república: o Jango, o Collor e a Dilma – no caso do Collor dizem até que foi a Rede Globo quem o pôs e quem o tirou de lá.

        Vê-se também aí nas mídias que o doutor Sérgio Moro esteve num seminário organizado pelo Departamento de Estado norte-americano para treinamento de autoridades judiciais brasileiras. Quem revelou isso parece que foi o WikiLeaks e, que eu saiba, o juiz nunca negou esse fato. E o que é que isso tem de errado? Não sei, mas não é usual que um departamento de Estado – e ainda mais de um Estado imperialista -, saia por aí treinando autoridades estrangeiras. E mais esquisito ainda quando essas autoridades assumem funções de grande impacto político, e cuja atuação possa beneficiar direta e indiretamente o Estado estrangeiro que as treinou.

        Vejo também que o juiz Sérgio Moro, vira e mexe, anda lá pelos Estados Unidos, dando palestra em importantes universidades, a falar da Lava Jato, da corrupção brasileira, e das suas técnicas e habilidades judiciais. Tudo bem que de vez em quando um juiz dê palestra numa universidade – é até normal. Mas, mesmo aí, houve quem achasse que o juiz Sérgio Moro estava fora de lugar. Pois não é que outro dia, numa dessas universidades americanas, um grupo de brasileiros achou tão esquisita a presença do juiz ali que nem deixou o homem falar: já foram logo vaiando, criticando e boicotando sua palestra – parece até que ele não conseguiu nem começá-la.

       Tem sido constante a presença desse juiz no Congresso Nacional, defendendo a aprovação – e até a não aprovação -, de leis pelos congressistas. Tudo bem que um juiz de direito compareça ao parlamento para falar de questões jurídicas e do seu métier, sobretudo quando convidado. Mas fazer lóbi e campanha para que deputados votem neste ou naquele sentido, para que decidam assim ou assado, para que aprovem ou rejeitem este ou aquele projeto de lei, bem, isso já não me parece uma tarefa muito comum para um juiz de direito, que, como se sabe, é concursado e nomeado para aplicar leis, e não para fazer ou desfazer leis.

          Outro dia mesmo, o juiz da Lava Jato estava numa solenidade pública promovida pela grande mídia brasileira e foi flagrado todo sorridente, cheio de ti-ti-ti, com o adversário de Dilma, Aécio Neves. Quando a imprensa publicou a foto dos dois juntos, o juiz se justificou: “Foi uma foto infeliz”. Tudo bem que juízes compareçam a eventos de mídia, e que se deixem fotografar com quem quiserem – até com políticos delatados por corrupção, como foi o caso do Aécio Neves. Tudo bem, mas que não é usual, não é. Aliás, quer saber, é bem estranho: compromete a discrição, a isenção e a imparcialidade que são os atributos maiores dos juízes.

          Mas o lugar mais estranho mesmo, onde o juiz da Lava Jato se meteu, foi na política: no dia em que entregou à Rede Globo uma gravação de conversa telefônica entre o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma, captada ilegalmente, contribuindo de modo decisivo, e truculento, para o processo de desgaste da Dilma Rousseff, desautorizando publicamente a máxima magistrada da nação. Isso foi demais. Aí, nessa manobra político-midiática contra a presidenta da república, que viria a desencadear o impeachment, o juiz não tinha que se meter. Vai desculpar, mas isso não é papel de juiz; nesse caso, é óbvio que o “sapateiro foi além das sandálias”; foi se meter num conturbado cenário político dando impressão de que é um juiz parcial e até partidário.

        Agora o juiz se mete a confiscar os presentes que o Lula ganhou quando estava na presidência da república. Confiscou até o tambor de Congo, uma peça de artesanato que o ex-deputado Cláudio Vereza do Espírito Santo mandou confeccionar para presentear o amigo presidente. De novo, vai desculpar, mas esse confisco não é uma coisa normal. Não é normal de jeito nenhum. Meter-se com os presentes do Lula, e até com um prosaico tambor de Congo, não é coisa de juiz, não. Eu pelo menos nunca tinha visto isso. Ninguém nunca soube onde é que andam os presentes recebidos por este ou aquele presidente da república! É por isso que o deputado capixaba perdeu a paciência, mandou o juiz devolver o tambor, e sentenciou: “Ponha-se no seu lugar”. Faltou o deputado dizer que lugar de juiz é a discrição, o equilíbrio e a imparcialidade.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s