Agora pode, né?

           DEPOIS que a burguesia derrubou o governo de Dilma Rousseff e defenestrou o Partido dos Trabalhadores do poder, a direita sossegou o facho. Todo aquele anseio de moralização e decência na política, que a elite e a classe média brasileira exigia a qualquer custo, era mesmo pura hipocrisia – isso fica cada vez mais evidente, e só não vê quem não quer. Os moralistas que andavam nas ruas – e nas casas, e nos bares, e nos lares -, protestando contra o governo petista, exigindo a punição e até a morte dos corruptos, simplesmente sumiram do mapa.

             Assim, o presidente golpista que usurpou o poder, e apoderou-se indevidamente do cargo de uma presidenta eleita pelo voto direto do povo, mesmo sendo um político ficha-suja; mesmo tendo colocado em seu governo vários ministros investigados por corrupção na operação Lava Jato; mesmo tendo sido citado mais de quarenta vezes por delatores nessa operação; mesmo sendo filiado ao partido mais corrupto e mais fisiológico deste país, mesmo assim, dificilmente ele será incomodado por aqueles catões da república que até ontem saíam às ruas, com suas panelas e camisas verde-amarelas, exigindo ética e honestidade no governo.

            De fato, esse presidente usurpador está tão à vontade que acabou de criar um cargo de ministro e nele instalou seu correligionário Moreira Franco, que já foi citado em delações premiadas da Lava Jato por mais de trinta vezes. Com essa manobra, o novo ministro ganhou “foro privilegiado” e escapou das investigações comandadas pelo temido juiz Sérgio Moro, que, como se sabe (todo mundo sabe, sim!), é useiro e vezeiro na prática de violar a lei e a Constituição para punir políticos e empresários ligados ao PT.

            Diante dessa manobra do presidente usurpador, buscando garantir a impunidade de seu companheiro, esperava-se que os moralistas voltassem às ruas para exigir a destituição do ministro suspeito de corrupção; esperava-se que eles fossem bater panelas de novo, fazendo como fizeram quando Dilma nomeou Lula para um ministério. Que nada – tá todo mundo de biquinho calado, com suas camisas verde-amarelas bem guardadas, com suas panelas não sei onde, e a “indignação” moralista sossegadinha da silva.

        Esperava-se que o STF fizesse como fez quando Dilma nomeou Lula para seu ministério no ano passado, ocasião em que o ministro falastrão Gilmar Mendes expediu, em menos de 24 horas, uma liminar para impedir a posse do ex-presidente, sob o pretexto de que sua nomeação tinha o propósito de obstruir a Lava Jato. Que nada – o ministro ultraconservador Celso de Mello decidiu imediatamente que Moreira Franco deveria permanecer no ministério porque sua nomeação é ato exclusivo do presidente da república e pronto – nunca vi duas decisões com dois pesos e duas medidas como essas!

       Esperava-se então que a grande mídia fizesse como fez com Lula e Dilma e denunciasse à opinião pública que a nomeação de Moreira Franco era uma manobra para isentá-lo da Lava Jato. Que nada – os grandes jornais, revistas e televisão nem deram bola para essa nomeação. A Folha de S. Paulo, descaradamente, publicou ontem um editorial ridículo dizendo que a decisão do Celso de Mello de manter Moreira Franco no cargo estava certa, admitindo (só agora) que a decisão do Gilmar Mendes, que impediu a posse de Lula no ano passado, estava errada.

           Não bastasse tudo isso, o presidente usurpador indicou para a vaga de Teori Zavascki no STF o seu ministro da Justiça, homem de sua confiança, Alexandre de Moraes, filiado ao PSDB, para ser o relator dos processos da Lava-Jato. Esperava-se que os paneleiros e a mídia fossem ver nessa indicação uma manobra para controlar a operação. Que nada – nem mídia nem paneleiros estão preocupados com a nomeação do ministro Alexandre de Moraes que, obviamente, põe em risco a eficácia da operação Lava Jato, que foi tão eficaz só contra o Partido dos Trabalhadores e contra o governo de Dilma Rousseff.

             O presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que vai presidir a sabatina do ministro Alexandre de Moraes, senador Edison Lobão, é investigado na Lava-Jato. Esperava-se então que a mídia e os paneleiros se insurgissem contra essa promiscuidade institucional, que permite a um senador investigado aprovar o nome do juiz que poderá julgá-lo. Que nada – nem mídia, nem paneleiro, nem ninguém está  mais preocupado com isso. Agora pode tudo. O importante era tirar o PT do governo, impedir o Lula de se candidatar em 2018, e instalar a direita confortavelmente no comando do país.

              E por que é que a classe média, que ajudou a direita corrupta a retomar o poder, não se rebela agora contra as manobras antiéticas dessa direita? Por uma razão muito simples: a classe média é uma classe facilmente manipulável pela mídia conservadora e golpista – foi assim em 1964, foi assim em 2016.

             E por que a classe média é assim facilmente manipulada pela mídia reacionária? Por outra razão também muito simples: porque a classe média, além de politicamente alienada, é tão reacionária quanto a mídia – não suporta um governo de extração popular; não admite ser governada por um trabalhador; quer distância de pobre e odeia políticas sociais que combatem a desigualdade.

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