O maior mérito da Lava Jato

         NEM é preciso dizer que a operação Lava Jato é uma operação das mais controvertidas, das mais polêmicas. Ela ficou muito ideologizada – mais por seus efeitos políticos que jurídicos. Por essa razão, toda opinião sobre a Lava Jato, quase que necessariamente, passa por um viés ideológico, por um critério ou opção política… e até mesmo por uma posição partidária – todos sabem disso, inclusive as autoridades que a conduzem.

         Pois bem, se fosse preciso apontar o efeito mais importante dessa operação policial/judiciária, eu não diria que é o combate à corrupção – tal como se diz por aí. Creio que seu efeito mais relevante, seu mérito maior, é desvelar aos olhos de todos que o nosso sistema político está subjugado e corrompido pelo poder econômico – e faz muito tempo. Seu maior mérito foi comprovar, às claras, o que muita gente já sabia às escondidas: a democracia brasileira, na verdade, é uma plutocracia (governo dos ricos).

          E se atentarmos bem para o nosso redor, veremos que esse não é um mal só da democracia brasileira – ele é um mal da democracia liberal burguesa no mundo todo, ou melhor, no mundo capitalista. Tomemos a maior democracia capitalista do planeta como exemplo – os Estados Unidos. Naquele país não foi possível acabar com o financiamento das campanhas pelos ricos, nem com o tal caixa dois, nem com a figura do lobista – aquele indivíduo, ou empresa, que atua perante os poderes públicos (governo, parlamento, agências etc.) para viabilizar contratações entre o setor público e o privado.

            E o que é que os Estados Unidos fizeram para combater a corrupção nesse cenário. Simplesmente legalizaram o financiamento privado de campanha, liberaram as contribuições de ricos e pobres, e criaram a figura do “lobista profissional”. É isso mesmo. Tudo isso que se combate aqui no Brasil com tanto alarde, com tanta cadeia – e com tanta hipocrisia -, os norte-americanos já legalizaram. E o fizeram porque não era mesmo possível erradicar a corrupção política sistêmica, viram que não é possível separar corrupção e democracia burguesa; tal como ainda imaginam os mais ingênuos no Brasil.

          A meu ver, portanto, o grande mérito da operação Lava Jato (se é que ela tem algum) foi revelar que a democracia representativa no Brasil, a exemplo do que ocorre no mundo capitalista, é irrigada pelo dinheiro e dominada pelo poder econômico – exatamente como estão demostrando agora as delações da empresa Odebrecht, que financiou as campanhas de deus e o mundo, ajudou a corromper o nosso frágil sistema político, e até já pediu desculpas ao povo brasileiro.

           Mas, o curioso é que a operação Lava Jato não quer admitir esse seu próprio mérito. Não quer admitir que a corrupção política no Brasil é sistêmica e não um fenômeno individual; não está restrita a determinadas pessoas ou determinados partidos políticos. E a operação Lava Jato não o faz, não reconhece seu grande mérito, porque sua maior aliada, a mídia empresarial, pretende incriminar apenas alguns políticos e poupar outros, quer incriminar os adversários e salvar os correligionários.

         Ou seja, se a Lava Jato admitir que todos os partidos, e a imensa maioria dos políticos, são financiados ilegalmente, não haverá como dizer que apenas alguns recebem propinas e outros não, pois todo dinheiro ilegal destinado a campanhas políticas é um “favorzinho” especial, um “jeitinho” à margem da lei, uma maneira de corromper os políticos e o sistema político-partidário, ou seja, trata-se de uma “propina geral”, apartidária, sem conotações ideológicas.

         O grande mérito da Lava Jato, a meu ver, foi demonstrar aos olhos dos brasileiros que a democracia liberal representativa é uma falácia, ou melhor, uma plutocracia que nada tem de democrática. E que, portanto, é preciso pensar alternativas para o exercício do poder, imaginar mecanismos de participação direta do povo nas decisões políticas, de maneira conjugada com os mecanismos tradicionais de representação popular (mandatos), estes aperfeiçoados por uma ampla reforma política que dê fim à promiscuidade partidária, ao financiamento privado de campanha, e às distorções representativas dos colégios eleitorais.

        Do contrário, se não superarmos os limites tacanhos da democracia representativa, que representa só os ricos; nem fizermos um reforma política ampla e honesta, vamos continuar nos rendendo ao poder econômico e ficar eternamente amaldiçoando a corrupção sem acabar com ela; ou, como se diz lá na minha terra, vamos ficar eternamente enxugando gelo.

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