Somos todos infelizes

       DEPOIS que a foto do juiz Sérgio Moro, de cochichos e risinhos com o senador Aécio Neves, se espalhou pela internet, depois que ambos, o juiz e o senador, viraram piada e “memes” na rede, o magistrado da sacrossanta operação Lava Jato veio a público dizer, numa entrevista, que aquela foi “uma foto infeliz”. Ela não foi, portanto, uma foto “suspeita”; ela não foi uma “foto-flagrante”; ela não foi uma foto “reveladora”; ela não foi uma foto “inconveniente”; nem uma foto “comprometedora” – ela foi apenas uma “foto infeliz”.

      Se aparecer em situação como essa: ao lado de um político citado várias vezes em delações premiadas, confraternizando com políticos golpistas de um determinado partido, nas dependências de uma revista que acabou de referendar um golpe de estado no Brasil é uma “foto infeliz”, então estamos autorizados a concluir que o juiz Sérgio Moro é também um “juiz muito infeliz”. Isso mesmo, infeliz porque a própria internet está cheia de fotos dele ao lado de políticos do partido de Aécio Neves, e muitos deles citados em investigações criminais.

        Além da famosa foto com o Aécio, o “juiz infeliz” tem foto ao lado de tudo quanto é tucano: ao lado de Geraldo Alckmin, que agora está delatado oficialmente pela Odebrecht; ao lado de José Serra, que foi delatado há muito tempo; ao lado do prefeito eleito João Dória, em evento político-partidário e eleitoreiro; ao lado de Pedro Taques, governador do Mato Grosso, num outro evento político do tucanato; ao lado do deputado paulista Fernando Capez, investigado no escândalo da merenda escolar; enfim, tem foto do juiz da Lava Jato com tucano pra todo lado.

          Com tantas fotos “infelizes”, a gente pode concluir que o juiz da Lava Jato (coitado!) é um homem muito infeliz. E se a essas “fotos infelizes” (sobretudo para um juiz que quer parecer imparcial e apartidário de qualquer jeito) você somar outras situações infelizes, como, por exemplo, quando o juiz violou direitos fundamentais de presidentes da república e pediu “escusas” ao STF (jurista gosta de falar difícil, por que não pediu logo “desculpa” ao STF?); quando monitorou (espionou) advogados de defesa do ex-presidente Lula e teve de pedir desculpa outra vez; quando prendeu desnecessariamente o ex-ministro Guido Mantega e teve de soltá-lo imediatamente, enfiando a viola no saco; quando determinou a condução coercitiva do ex-presidente Lula sem necessidade e teve de mentir dizendo que essa medida havia sido solicitada pelo MP, enfim, se a essas “fotos infelizes” com tucanos somarmos tantas outras “infelicidades” do juiz da Lava Jato, haveremos de concluir que ele é mesmo um “homem infeliz”.

         Nem vou referir-me aqui – não pretendo cansar ninguém -, aos prêmios que a grande mídia, que é adversária ferrenha dos políticos julgados pelo juiz da Lava Jato, concedeu ao magistrado Sérgio Moro – ele já recebeu prêmio de personalidade do ano concedido pela Globo que comandou o golpe de estado agora há pouco; já foi homenageado pela revista Time (uma das primeiras financiadoras da Rede Globo em 1962) como um dos homens mais influentes do mundo; acabou de receber prêmio da revista Istoé, que vem sustentando publicamente a acusação contra os réus da Lava Jato, e tantas outras outras honrarias como essas – deve ter muitos mais “prêmios infelizes” por aí que eu não sei.

         Mas, se o juiz da Lava Jato é um homem infeliz, quem paga o pato é o povo brasileiro. A operação comandada por Sérgio Moro tem quase dois anos, e faz exatamente dois anos que o Brasil começou a afundar. Foi a partir dessa operação que a indústria naval brasileira naufragou por completo; mais de duas centenas de empreiteiras (253 para ser exato), que geram um milhão de empregos, pediram “concordata”; o desemprego saltou de 4,8% em 2014 para 12% atuais; o mercado interno se abriu para construtoras estrangeiras (China e EUA); o PIB, que crescia pouco – mas crescia -, agora é deficitário; a Constituição brasileira de 1988, tida como a “constituição cidadã”, passou a ser desrespeitada sistematicamente; as nossas instituições entraram em verdadeiro colapso; enfim, a autoestima dos brasileiros que estava em alta – sediávamos uma Copa do Mundo e as Olimpíadas -, agora está em baixa.

         O custo político, jurídico, social e econômico da Lava Jato ainda não foi, e talvez nem venha a ser devidamente dimensionado um dia. Muitos a justificam dizendo que essa operação vai recuperar boa parte dos 6 bilhões de prejuízo da Petrobras – mas ninguém sabe de onde saiu esse número, ele é um “chute” midiático. E pensar que todo esse desastre está sendo produzido em nome de um moralismo seletivo e truculento! Em nome do combate a uma corrupção que não será efetivamente combatida, nem muito menos erradicada, aliás, como já tem admitido publicamente o próprio juiz da Lava Jato – ele não é bobo, não; ele bem sabe o fracasso que foi e como terminou a operação Mani Pulite da Itália que tanto o inspirava.

      Por essas e outras, meu comandante, por seus atos e omissões, seus equívocos e desculpas, suas companhias e aliados, suas idas e vindas, vejo que o juiz da Lava Jato deve ser mesmo um homem infeliz, aliás, muito infeliz; o problema é que quem paga o pato pela infelicidade dele somos todos nós – deve ser por isso que andam dizendo nas ruas e nas redes que “somos todos Moro”… e todos infelizes!

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Uma resposta para Somos todos infelizes

  1. Arthur disse:

    Desculpe, Doutor, mas, se compreendi corretamente o seu texto, a Lava-jato é a responsável pela recessão? Devia o MP e o Judiciário, nesse ponto, fazer vista grossa à corrupção, como defendeu seu ex-colega Eugênio Aragão, e levar a lógica utilitarista ao paroxismo?
    Gosto muito de seus textos, e os leio já faz algum tempo, mas está cada vez mais difícil concordar com eles.
    Abs,

    Arthur Jacon

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