Um retrato do Brasil

       CIRCULA na internet uma foto do juiz Sérgio Moro com o tucano Aécio Neves, risonhos e cochichando entre si, como se fossem velhos amigos, rodeados por outros tucanos e peemedebistas (inclusive Michel Temer) que acabaram de dar um golpe de estado no país. Estavam todos participando de um evento da revista Istoé, em cuja oportunidade foram premiados pela revista: é uma foto emblemática, que diz tudo, que fala por mil palavras – vale a pena “dar um google”.

       Essa foto fala da “imparcialidade” do juiz de Curitiba, fala da “imparcialidade” da mídia, fala do cinismo dos golpistas, e fala, sobretudo, dos rumos que a operação Lava Jato tomará daqui para a frente. Quem tinha dúvidas de que essa operação é ideologicamente sectária, que tem viés partidário, e que ela jamais chegará aos tucanos de alta plumagem, basta “dar um google” e a dúvida se dissipará de uma vez por todas – se, contudo, persistir alguma dúvida ainda, vai desculpando a franqueza, só pode ser desinformação, sectarismo ou má-fé.

          A foto que circula na Folha Uol desta quarta-feira, 7.12.16, é um escárnio. Um acinte. Ou seria provocação? Jamais poderia imaginar o juiz da Lava Jato de ti-ti-ti com um tucano citado várias vezes em delações. O país mergulhou numa tal desagregação institucional que as pessoas já não têm mais sequer a preocupação de disfarçar – nem publicamente.

      A certeza de que o golpe está consolidado, e de que a parcela conservadora da população dará o apoio necessário à corrupção do nosso sistema jurídico-constitucional, explica a tranquilidade com que um juiz, apontado como paladino da moralidade, se faça acompanhar de políticos ficha-suja (Temer), de políticos delatados por corrupção, refestelando-se num evento da mídia que acabou de bancar um golpe de estado nesta república de bananas.

       Enquanto o juiz de Curitiba se confraterniza com seus pares, o país mergulha na ruptura institucional; a economia brasileira afunda na recessão; vários investidores estrangeiros já sinalizam a debandada; o governo aniquila a aposentadoria dos trabalhadores; o Congresso congela investimentos públicos na área da saúde, educação e saneamento básico; o (des)governo federal impõe uma reforma educacional esdrúxula; o Ministério Público e muitos juízes defendem medidas demagógicas, autoritárias e inconstitucionais para supostamente combater a corrupção; e o Supremo Tribunal Federal segue decidindo a torto e direito contra a Constituição da República.

          Enquanto tudo isso acontece, a parcela reacionária e alienada da população vai para a rua e para as redes dizer que “Somos todos Moro”; a outra parcela está apanhando nas ruas e nas redes porque recusa as reformas do governo, sobretudo, a destruição dos direitos sociais que vai impor aos pobres e à classe trabalhadora um estúpido sacrifício pelas próximas duas décadas, no mínimo – esse é o retrato do Brasil atual; aquela foto do juiz Sérgio Moro com Aécio Neves também é.

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