A delação do juiz da Lava Jato

            O JUIZ da Lava Jato, depois de tanto tempo de exposição e de parceria com a mídia, resolveu dar uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que mandou dois enviados especiais a Curitiba – os jornalistas Fausto Macedo e Ricardo Brandt -, para fazer uma longa entrevista com o magistrado – a entrevista foi longa, mas não trouxe nada de novo. Nada que já não se sabia à exaustão, ou que revelasse algum aspecto desconhecido da ruidosa operação Lava Jato e seu “condutor” – nesse “condutor” não há, bem entendido, nenhuma referência ao condottieri dos italianos, já que se faz tanta comparação entre a Lava Jato e a operação Mãos Limpas da Itália (Mani Pulite).

        Um parêntese. Por falar em “condutor” (e não em condottieri, repito), é muito estranho que uma investigação policial e uma ação do Ministério Público, que são órgãos de acusação, seja “encarnada”, “liderada” e mesmo “conduzida” por um juiz – os juízes estão aí pra julgar, e não pra investigar ou preparar acusações. Veja que na Operação Mãos Limpas da Itália quem assumiu o protagonismo equivalente ao do juiz Sérgio Moro foi um promotor de justiça, Antonio di Pietro, e não um juiz de direito, que precisa ficar longe de investigações para preservar sua imparcialidade na hora de julgar as investigações.

          Voltemos à tal entrevista do juiz da Lava Jato, publicada pelo jornal O Estadão no último domingo – quem não leu pode dar um google aí (esse Google é o máximo!) que ela deve estar na internet. Pois bem, nessa “entrevista” (com aspas, sim) o entrevistado nada disse, e os jornalistas nada lhe perguntaram. Foi um exercício medíocre de retórica, de matéria vazia, sem conteúdo nenhum – dessas matérias que não esclarecem absolutamente nada e só fazem perder o tempo do leitor.

        Imaginem só. Começaram perguntando ao juiz o que mais o havia chocado na Operação Lava Jato. Sabem o que ele respondeu?, isto: “A própria dimensão dos fatos”. Esclarecedor, não? Perguntaram-lhe se ele achava que o STF está indo bem no caso da Lava Jato e adivinhe o que ele respondeu, isto: “O STF está decidindo muito bem, pelas mãos firmes do relator Teori Zavascki”. Que coisa, não? Perguntaram-lhe se ele mandava prender as pessoas para arrancar delações. Adivinhe a resposta. Preciso falar?

           E prosseguiram perguntando  ao juiz se a Lava Jato era uma operação partidária que perseguia só o PT. Adivinhe o que ele respondeu. Isso mesmo, exatamente o que você está pensando. Perguntaram-lhe ainda se ele era de direita ou de esquerda, e ele ficou em cima do muro (tucanamente). Perguntaram-lhe se iria prender o Lula, e ele não disse nem sim nem não. Peguntaram-lhe, finalmente, se ele seria candidato a alguma coisa, e ele disse que jamais – nem pensar.

          Vamos e venhamos: sair daqui de São Paulo pra ir até Curitiba pra fazer um papelão desses é melhor não ir. Fica parecendo até que se trata de “matéria encomendada”. Ou propaganda mesmo – da Lava Jato e do juiz. Ou demonstração de força – da operação e do seu “condutor”.

          Por que não perguntaram ao juiz sobre a condução coercitiva do Lula, desnecessária e ilegal, decretada gratuitamente por ele? Por que não lhe perguntaram sobre os “vazamentos” seletivos que fez à mídia (em especial à Rede Globo) no auge da operação Lava Jato? Por que não lhe perguntaram sobre a quebra de sigilo telefônico de Lula e Dilma, cuja conversa ele jogou na imprensa e depois pediu desculpas ao STF porque essa divulgação é crime? Por que não lhe peguntaram sobre o “perdão” do STF diante de seu crime? Por que não lhe perguntaram sobre as delações premiadas que só foram negociadas quando os delatores estavam presos ou em vias de o ser?

          E tem mais coisa ainda, não acabou, não.

          Por que não lhe perguntaram sobre o “grampo” ilegal que ele determinou em relação aos telefones de todos os advogados do ex-presidente da república? Por que não lhe perguntaram sobre o cerceamento de defesa dos advogados da Lava Jato, que só têm conhecimento do conteúdo das delações às véspera das audiências? Por que não lhe peguntaram sobre a prisão, desnecessária e ilegal, do ex-ministro Guido Mantega decretada por ele? Por que não lhe perguntaram sobre o prêmio que ele ganhou da Rede Globo que é, como se sabe, a maior adversária dos réus da Lava Jato? Por que não lhe perguntaram sobre suas reiteradas palestras na revista Veja e em eventos do PSDB. Por que não lhe perguntaram sobre seu fracasso no caso do Banestado, ao tempo dos governos do PSDB, cuja investigação deu em nada?

            E teriam ainda muitas outras perguntinhas desconfortáveis – porque perguntar não ofende. Perguntar, por exemplo, por que um juiz que vai investigar corrupção numa empresa tão estratégica como a Petrobras tem que ser treinado pelo Departamento de Estado norte-americano – justamente o departamento estratégico de um país que já fez tanta guerra por causa de petróleo. Perguntar por que um juiz que investiga essa corrupção não sai dos Estados Unidos, em palestras e cursos. Perguntar por que esse juiz – e até um procurador da Lava Jato -, achou de fazer pós-graduação em Harvard – justamente a “meca” do neoliberalismo. Perguntar, enfim, coisas desse tipo – e não ficar perguntando trivialidades cujas respostas são mais que óbvias, como, por exemplo, se o juiz é de direita ou de esquerda, ou se ele acha que o STF decide bem ou mal. Tenha dó!

          Essas coisas todas, sim, é que seriam de interesse público esclarecer – para evitar dúvidas, suspeitas e mal-entendidos sobre uma operação tão importante como a Lava Jato. Mas, para que essas perguntas desconfortáveis fossem feitas por algum jornalista, para que isso tudo fosse investigado pela mídia empresarial, era preciso que ela (mídia) tivesse alguma imparcialidade, e algum compromisso com a verdade republicana – e também que não tivesse exercido o papel que exerceu no golpe contra a presidenta da república. Para que a mídia fizesse essas perguntas ao juiz era preciso que não fosse aliada dele.

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