Veja que ato falho

           O CONCEITO de “ato falho” é um conceito freudiano e significa uma espécie de lapso ou “deslize” da fala que, sem querer, acaba revelando algum desejo que está no inconsciente do indivíduo – seria, portanto, uma falha (deliberada ou não, não sei!) provocada pelo inconsciente para realizar um desejo inconsciente. Acho que foi bem isso – um ato falho – o que cometeu a revista Veja em sua última edição, de 12.10.16, logo na matéria principal.

            O título da manchete estampada na capa era o seguinte: A FORÇA DA DIREITA. E o subtítulo dizia logo em seguida que, na primeira eleição depois dos governos do PT, o eleitorado PREMIA CONSERVADORES – E ISSO NÃO SE DEVE APENAS À DIFUSÃO DO ANTIPETISMO.

              Notaram o ato falho da revista, ou melhor, os atos falhos?

             Primeiro deles: essa revista, e todos os demais órgãos de comunicação de massa do país, sempre buscaram convencer seus leitores cativos de que os conceitos de “direita” e “esquerda” já não significam mais nada; que eles tiveram algum sentido ao tempo da Revolução Francesa, mas hoje, segundo a grande mídia reacionária, já não servem para designar posições ou tendências políticas. Muito bem. Estranho que agora, em tom de bravata, a revista dos Civitas se permitisse “comemorar” a vitória dos conservadores com a manchete triunfante: A FORÇA DA DIREITA.

              Então a direita, e por conseguinte a esquerda, existe mesmo?

          Segundo ato falho: a mídia brasileira, reconhecidamente ultrarreacionária, jamais admitiu que era, sequer, “conservadora”. Os órgãos de mídia no Brasil sempre se acharam modernos, progressistas e porta-vozes do que há de mais avançado em termos políticos. Muito estranho que agora se assumissem como “conservadores premiados pelo eleitorado”, que, na última eleição, votou em massa nos candidatos da direita – que, não por acaso, são os candidatos da mídia.

             Então, os conservadores, e, por conseguinte, os progressistas, existem mesmo?

           O terceiro ato falho: a revista Veja, em sua manchete, diz que essa vitória da direita NÃO SE DEVE APENAS À DIFUSÃO DO ANTIPETISMO. Epa! Difusão do quê? Do antipetismo? Quem é que difundiu o antipetismo senão a mídia reacionária da direita? Posso concluir, por essa manchete, que a revista Veja assumiu expressamente – num ato falho, é verdade – que manipulou o eleitorado nas últimas eleições “difundindo o antipetismo?

               Então a imparcialidade da mídia não existe mesmo, é mito?

           Parece que a direita resolveu sair do armário. Até bem pouco tempo a gente não ouvia ninguém dizer que era de direita, que era conservador, ou que era reacionário. Esses conceitos não faziam sentido para a maioria do povo brasileiro. Agora, depois que o Brasil “rachou” ideologicamente, e com esse verdadeiro “extermínio” praticado contra a esquerda no país, parece que a direita tomou coragem, saiu do armário e assumiu de vez a dicotomia “direita” versus “esquerda”, assumindo também que é conservadora; e que, no caso da Veja, até difunde o antipetismo, manipulando seus leitores e o eleitorado.

            É uma pena que a mídia brasileira seja assim tão atrasada; é uma pena que os órgãos de imprensa no Brasil, ultrarreacionários, não tenham nenhum contraponto à altura; é uma pena que não tenhamos órgãos de mídia progressistas (nem um sequer) para fazer esse contraponto. Desse jeito, o pensamento político fica homogêneo demais, facilmente manipulável e reacionário, pois fica muito exposto ao preconceito ideológico e social que os “donos” da informação, os “barões da mídia”, despejam todo santo dia na cabeça de seus indefesos leitores.

              É realmente uma pena, um desastre!

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