A política é podre, será?

         É PERFEITAMENTE compreensível o desencanto dos brasileiros com a política. E desencanto talvez seja um eufemismo, pois o que os brasileiros experimentam neste momento parece ser uma verdadeira frustração; ou até pior: uma ojeriza, um ódio à política e aos políticos. E há muitas razões para isso. Essa rejeição toda tem suficientes motivos, não é gratuita, ela é perfeitamente explicável neste momento em que a corrupção do nosso sistema político veio à tona e deixou claro que quem manda e desmanda na política é o dinheiro – não o voto, nem a soberania popular.

           A primeira reação diante de todas as denúncias de corrupção que afloraram no país nos últimos dez anos foi, como não poderia deixar de ser, de indignação, de revolta – compreensível revolta. E as conclusões daí decorrentes eram as mais óbvias: “Político nenhum presta”, “São todos ladrões”, “São todos uma corja de vagabundos”, “Não existe político honesto”, “Qualquer um que entra na política vira malandro”, “Política não é lugar de gente honesta”, “Política é pura safadeza”, coisas assim.

        Em seguida, vêm aquelas soluções evidentemente irracionais, num claro tom de desabafo: “O certo mesmo era acabar com a política e com os políticos”, “Deviam era fechar o Congresso e botar todo mundo na cadeia”, “Tinha de começar tudo de novo, do zero”, “Tinha de pôr os militares pra governar e acabar com a farra”; “O certo era eliminar os partidos políticos”; alguns mais exaltados apelam logo pra carnificina: “Tinha que matar tudo quanto é político, não deixar nem um pra semente”.

            Mas há também aqueles mais ponderados que criticam a política e buscam soluções menos radicais, porém, não menos irracionais, acreditando que “o certo mesmo era escolher os candidatos mais honestos”, “votar naqueles que são realmente gente-boa”, “escolher os que não têm histórico de corrupção”, “verificar bem os antecedentes dos candidatos”; e há até os que apelam para o céu: “precisamos orar e pedir a Deus que ilumine o povo na hora de votar”.

            Como se vê, o eleitorado brasileiro está aturdido e revoltado. Essa revolta começou com as denúncias do “mensalão” em 2005, sobre a compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional, e cresceu com as investigações da operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobras, financiamento ilegal de candidaturas, e a conhecidíssima prática do chamado caixa-dois nas campanhas políticas.

             Primeiramente, o povo andou mais revoltado com o Partido dos Trabalhadores e com os petistas, pois a mídia burguesa fez a sociedade acreditar que a corrupção era obra exclusiva do PT, do Lula, da Dilma. Depois, apesar da operação-abafa da imprensa conservadora, acabaram aparecendo as denúncias de corrupção que atingiram todos os grandes partidos, e grandes políticos da direita. O povo viu que o sistema político está corrompido e vieram novas conclusões indignadas: “Político é tudo igual”, “É tudo farinha do mesmo saco”, “Não salva um”, e por aí vai.

              Não é preciso citar Platão, nem Maquiavel, nem Hannah Arendt – nem se dar ares de intelectual -, para afirmar que a política é o único meio racional de resolver os conflitos coletivos em sociedade; a mediação entre a sociedade e o Estado só se faz por meio da política, ou seja, através dos partidos e das organizações coletivas que representam os diversos segmentos sociais – a alternativa à política é a força, o despotismo, a eliminação autoritária do diálogo, da negociação e do contraditório.

           Por isso, essa ojeriza à política que tomou conta do cotidiano dos brasileiros é perigosa – e é construída deliberadamente. Como se pode ver, até nas conversas do dia a dia a indignação é com os políticos e com a política, dificilmente encontramos alguém indignado com os donos do dinheiro que corromperam o sistema político – a indignação é só com os corruptos, não com os corruptores. Trata-se de uma indignação compreensível, legítima – ninguém nega, ninguém discute -, mas é uma indignação desorientada, alienada, construída deliberadamente por aqueles que pretendem apenas criminalizar a política sem esclarecer devidamente a origem e as verdadeiras causas da corrupção, pois isso não interessa aos corruptores, que pretendem dominar o mercado e também o campo político.

          Todavia, a política brasileira está do jeito que está porque foi inteiramente subjugada, e corrompida, pelos poderosos, pelos donos do dinheiro; por aqueles que pretendem substituir a política pelo mercado. Pelos que tencionam definir direitos e estabelecer padrões de sociabilidade a partir de uma lógica exclusiva de mercado, exatamente a lógica que exclui a participação da maioria, que amordaça os sujeitos e os alija do debate, que transforma o povo num simples objeto daqueles que comandam a economia e que pretendem impor seus valores e objetivos, comandando (ou anulando) também a política.

            O enfraquecimento (ou a desmoralização) dos políticos e da política faz parte das estratégias neoliberais de “divinização” do mercado e “demonização” do setor público. A cantilena da mídia empresarial, manipuladora e reacionária, vai logicamente nesse sentido, e faz da corrupção o mote para convencer o povo, sobretudo os mais distraídos, de que a política é um fracasso, uma disquisição irracional, ou coisa de bandido. É bem por isso que se tem visto tanta gente indignada aqui e ali; tanta má vontade com a política, com os políticos e com o Estado.

            Mas, é preciso abrir os olhos com esse discurso que demoniza o setor público, o Estado e política. Pois ela (política) é a única via racional, desde a Antiguidade até hoje, imaginada para a solução dos conflitos coletivos, para a construção do consenso e realização do bem-estar de todos; o fim da política e dos políticos é também o fim da democracia.

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