Presidentes, ora os presidentes

           POUCO mais de vinte anos de democracia e dois presidentes da república impedidos, dois impeachments – Collor e Dilma. Esse fato chama a atenção, e, penso eu, deveria merecer uma reflexão mais detida por parte dos brasileiros. Que se poderiam perguntar: “Por que, em tão pouco tempo, dois presidentes derrubados?”. “Quem os derrubou?” “Com quais propósitos?”. As respostas a tais perguntas, quando não servissem para outra coisa, serviriam ao menos para sabermos quem é que manda de fato neste país, quem é que realmente detém o poder nesta república – “das bananas”?

              Quem era Fernando Collor antes de ser presidente da república? Era simplesmente um bon vivant, filho de família rica e tradicional. Representante das elites mais arcaicas do país, tornou-se político em Alagoas e foi governador daquele estado – uma das unidades mais pobres da federação, que representa menos de 1% do PIB brasileiro. Em 1989, lançou-se à presidência da república apregoando que iria acabar com a inflação e combater os corruptos, apresentou-se como o “caçador de marajás”.

           Desconhecido e com apenas 1% das intenções de voto, foi catapultado à liderança nas pesquisas por ação e obra da grande mídia, que o apresentava como a “salvação nacional”, e a melhor alternativa para barrar a ascensão de Lula da Silva, um simples torneiro-mecânico, semianalfabeto, que ameaçava chegar à presidência do país. Durante a campanha, os órgãos de imprensa apadrinharam abertamente a candidatura de Collor – e até manipularam notícias e debates, como viriam a reconhecer depois – com o objetivo de assegurar a vitória desse político provinciano e obscuro, vindo lá das Alagoas.

            Uma vez eleito, Fernando Collor revelou sua verdadeira face autoritária. Impôs ao país um plano econômico radical e tresloucado (Plano Collor), promovendo o maior confisco de que se tem notícia na história econômica do Brasil. Seu plano fracassou em pouco tempo, não debelou a inflação, e ainda contrariou o grande empresariado brasileiro. No meio de seu mandato, a mídia que o havia posto no Palácio do Alvorada resolveu tirá-lo de lá.

          As revistas Veja e Istoé noticiaram com grande alarde as denúncias de corrupção feitas pelo irmão do presidente (Pedro Collor), e a Rede Globo pôs o povo na rua contra o governo, inclusive com a exibição da minissérie Anos Rebeldes, retratando a ação dos estudantes caras-pintadas, que então saíram às ruas protestando contra a corrupção no governo Collor – o “caçador de marajás” estava abandonado por seus “padrinhos”; estava perdido – a burguesia já tinha no bolso do colete um substituto, do seu gosto.

           Para o lugar de Collor, a burguesia já tinha o nome certo – Itamar Franco – um liberal que, pelo cargo, certamente estaria disposto a implementar as políticas de desestatização, de abertura da economia, de reforço do poder do mercado, e de combate à inflação – coisa que acabou acontecendo com o chamado Plano Cruzado, conduzido pelo então ministro da Fazenda e futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. Dessa forma, o “ex-caçador de marajás”, construído e desconstruído pela alta burguesia e pela mídia nativa, era apeado do cargo para dar lugar ao vice comprometido com o neoliberalismo.

               Até hoje os brasileiros acreditam que Fernando Collor caiu por causa da corrupção em seu governo, por causa do “esquema PC Farias”, ou ainda porque comprou um simples Fiat Elba com dinheiro das empresas de seu tesoureiro de campanha. Fernando Collor de Mello caiu porque (1) contrariou os interesses do grande empresariado; (2) com isso, contrariou a mídia nativa; e (3) perdeu legitimidade para promover as privatizações que iriam acabar com 86% das empresas estatais nos anos seguintes – a corrupção denunciada por seu irmão era só o pretexto para derrubar Collor, tanto que ele acabou absolvido pelo STF.

            Não por acaso, ela (a corrupção) foi também o pretexto que derrubou Dilma Rousseff agora em 2016. Por paradoxal que possa parecer, no espectro ideológico oposto ao de Collor, a presidenta Dilma caiu pelas mesmas razões que derrubaram o obscuro e atabalhoado político alagoano em 1992. Ou seja, caiu porque (1) contrariou os interesses da grande burguesia; (2) com isso, contrariou automaticamente os interesses da grande mídia nativa; (3) e ainda porque representava um sério obstáculo às novas políticas neoliberais de privatização do Estado brasileiro.

              A alta burguesia, liderada pela Fiesp, e a grande mídia local, com a Veja, a Istoé e a Rede Globo à frente, agiram de novo: desestabilizarem o governo Dilma, insuflaram a crise econômica, geraram uma crise política, puseram parcela significativa do povo nas ruas para “legitimar” tudo isso e pronto – outro impeachment.

             Para o lugar de Dilma Rousseff, tal como em 1992, já está lá um outro neoliberal, o golpista Michel Temer – não por acaso, do mesmo PMDB de Itamar Franco – todo assanhado e disposto a promover as privatizações que o grande capital cobiça, a ampliar a abertura do nosso mercado ao capital estrangeiro, bem como a comprimir os direitos sociais e trabalhistas de acordo com o “austericídio” do neoliberalismo – resta saber se um presidente ilegítimo terá agora a legitimidade suficiente para completar o desmonte do Estado nacional e impor mais sacrifícios ao povo brasileiro – se não tiver, a burguesia o põe pra fora rapidinho.

          Enfim, qual a moral dessa história toda? Parece óbvia: nem Collor nem Dilma detinham realmente o poder; detinham apenas o governo. E quando contrariaram o interesses dos poderosos, daqueles que realmente mandam neste país, ambos caíram. Não importa se eram presidentes de direita ou de esquerda, não importa a soberania do voto popular, não importa se temos ou não uma democracia de verdade – o que importa mesmo é manter o poder nas mãos de seus verdadeiros donos, seus donos “eternos” – esses mesmos que põem e dispõem dos presidentes da república.

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