Mídia, poder e neoliberalismo

          DEU nas folhas e nas mídias que o ministro das relações exteriores, José Serra, recebeu 23 milhões por meio de caixa dois da empresa Odebrecht em 2010, dinheiro esse destinados a sua campanha à presidência da república – quem disse isso foram os próprios executivos da Odebrecht, em suas delações premiadas. Deu também que a mesma Odebrecht, cujo presidente está preso, pagou 10 milhões ao PMDB a pedido do interino Michel Temer – quem disse isso foram ainda os empresários da Odebrecht.

            Isso tudo deu nas mídias e nas folhas, mas já sumiu. Ninguém fala mais no caso. Nem os jornais, nem as tevês, nem as revistas têm feito qualquer estardalhaço por causa dessas doações ilegais aos políticos da direita. Manchetes de primeira página? Editoriais indignados? Fotografia do juiz da Lava Jato nos jornais? Articulistas raivosos escrevendo contra o governo interino? Que nada. Tudo isso desapareceu de uma hora pra outra, como num passe de mágica, e como se a corrupção política no Brasil tivesse acabado de vez.

            Há menos de três meses, uma notícia dessas, contra a presidenta eleita, ou contra algum de seus ministros, teria causado o maior rebuliço. Na mídia e nas ruas. Certamente que esses fatos ficariam por muitos dias, e muitas semanas, e muitos meses, nas primeiras páginas dos jornais, no noticiário da televisão em horário nobre, nas capas das grandes revistas, e na boca do povo – em casa, no almoço, na janta, no café, no trabalho, no futebol, nas rodinhas, nos grupos da internet, nos lares e nos bares.

            Por que será que um fato assim tão grave já não revolta mais ninguém? Por que será que uma delação premiada dessas, que incrimina o atual ocupante do Palácio do Planalto e seu importante ministro, já não quer dizer muita coisa? Por que será que os bate-panelas não dizem nada sobre isso, sossegaram o pelo, e parecem ter até enfiado as panelas e a viola no saco? O que é que mudou nestes últimos três meses quando parecia que o Brasil ia pegar fogo de tanta indignação, de tanta preocupação com a coisa pública?

           O que mudou foi apenas o seguinte: tiraram do Governo Federal uma presidenta eleita pelo povo, com a ficha limpa, e colocaram em seu lugar um presidente não eleito, com a ficha suja. E mesmo assim os moralistas que pediam decência na política, e até agora há pouco queriam botar todo corrupto na cadeia, andam de bico calado: a mídia burguesa esconde a corrupção dos atuais ocupantes do Planalto; e o público que se informa por essa mídia segue enganado como sempre.

        Isso deixa bem claro duas coisas: primeiro, a mídia teve um papel decisivo na “fabricação” da crise política em que se meteu o Brasil, e o objetivo dela era um só: derrubar o governo popular do Partido dos Trabalhadores; segundo, há uma grande parcela da população brasileira que se enquadra mesmo naquele perfil do “inocente midiático”. Não adianta espernear e dizer que não, esse inocente existe mesmo – nem a “doutorzada” que se diz bem-pensante escapa dessa manipulação. Se não, como é que se explica que numa hora tá todo mundo revoltado com a corrupção, e, de repente, da noite pro dia, fica todo mundo sossegado, e nem fala mais nela?

            É óbvio que a mídia empresarial manipula fatos e notícias de acordo com seus interesses. Isso é um fenômeno universal. O problema é que em outros países não existe um monopólio da informação tão grande como esse que há aqui no Brasil – não existe propriedade cruzada dos meios de comunicação, nem muito menos a concentração desses meios em mãos de apenas quatro ou cinco famílias, que acumulam a propriedade de rádios, tevês, jornais, revistas e sites on-line.

          Há muito que a mídia deixou de ser um contrapoder ou simples mecanismo de fiscalização dos demais poderes. Sobretudo a partir dos anos 90, a mídia passou a ser o que o jornalista francês, Serge Halimi, chamou de uma “peça de consenso político e empresarial”. Mas, um consenso em torno do neoliberalismo e da globalização capitalista. É por isso que governos populares, refratários às políticas neoliberais do capitalismo atual, sempre serão atacados – e se possível derrubados -, pela mídia que hoje não é mais um veículo de informação apenas: é um agente político, um agente de poder, e poderosíssimo; a mídia é hoje o que Serge Halimi chamou de Os novos cães de guarda – do capital, do neoliberalismo, da burguesia…

             O caso do Brasil é emblemático. A mídia atiçou a opinião pública contra o Governo Federal; levou a população brasileira a uma histeria sem exemplo na nossa história republicana; gerou a ingovernabilidade do país; colocou no poder os esbirros do neoliberalismo (já estão falando até em acabar com o décimo-terceiro salário); e agora esconde os episódios e as acusações de corrupção que pesam sobre os políticos que tomaram o poder para tocar a pauta neoliberal.

             A doutrinação ideológica feita pela mídia é tão natural, e é tamanha; é tão intensa, e ao mesmo tempo tão sutil a propaganda neoliberal veiculada pela cotidianamente mídia, que alguns inocentes midiáticos, ainda que subjugados pelas políticas neoliberais, chegam mesmo a dizer que o termo “neoliberalismo” está muito desgastado, já não quer dizer mais nada. Vai nessa!

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Uma resposta para Mídia, poder e neoliberalismo

  1. FERNANDO CESAR DE MATOS disse:

    É doutor. Nossa mídia é um grande problema para o país e para o povo. E a “doutorzada” não vê mesmo (devem ter faltado às aulas de filosofia na graduação). Mais uma vez a OAB defende o golpe, e, antes Promotor de Justiça era candidato a prefeito pelo PT, agora Promotor se alia ao deputado merendeiro.

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