Cabeça de mídia

             FOI como passar um apagador numa lousa: as notícias da Lava Jato, o juiz da Lava Jato, os delatores e delatados da Lava Jato, e a própria Laja Jato sumiram das primeiras páginas dos grandes jornais. E até das páginas internas. Sumiram também das manchetes televisivas, das reportagens de capa das grandes revistas, e do noticiário eletrônico na internet – desapareceram como num passe de mágica.

            Com isso, sumiu também aquela suspeitíssima “indignação” dos puritanos, desses que andavam aí até ontem verberando contra a corrupção do governo e se dando ares de catões da república. Sumiram com seus discursos inflamados que davam aulas de macroeconomia, de economia política, de governabilidade, de probidade administrativa, de direito financeiro, e até de direito penal em matéria de crime de responsabilidade eles pontificavam.

           Aonde foi parar toda aquela indignação?, seria legítimo perguntar. Isso mesmo: aquela indignação branca e bem-postada na vida dos que lotaram um Itaquerão para ofender a presidenta da república; dos que saíram às ruas com suas panelas bem fornidas; dos que queriam “limpar o Brasil”, e que fizeram um auê danado até agora há pouco, porque não aceitavam corrupção nem corruptos no poder.

          Essa indignação toda foi parar onde ela sempre esteve: nas mãos da mídia empresarial, liderada pelo Grupo Globo, que manipula a cabeça dessa moçada do jeito que quiser. E a mídia burguesa sabe, há muito tempo, de pelo menos duas coisas: 1) o tema da corrupção é altamente eficaz para mobilizar o senso comum da massa; 2) a massa numerosa da classe média é facilmente manipulável.

               A história já demonstrou isso: a mídia, liderada por Carlos Lacerda, manipulou a classe média nos anos 50, contra o governo de Getúlio Vargas, utilizando o mote da corrupção que levou o presidente ao suicídio; manipulou a mesma classe média em 1964 para depor o presidente João Goulart; e manipulou agora também essa turma para derrubar o governo constitucional de Dilma Rousseff.

           A maior prova dessa manipulação toda, tanto no passado quanto agora, é que enquanto a mídia mantinha o tema da corrupção na pauta, bombardeando diariamente o governo, os indignados se assanhavam de uma tal maneira que dava até dó; pareciam muito angustiados com o problema. Aí, foi só a mídia tirar o tema de pauta e os indignados sossegaram da noite pro dia, se acalmaram, voltaram apaziguados para seus afazeres particulares, para suas vidas privadas, inteiramente esquecidos da política, indiferentes e alienados em relação a ela.

            Se algum desses indignados, que caíram na esparrela da mídia, quiser protestar na avenida Paulista contra o presidente interino que é “ficha-suja”, que foi citado várias vezes em delações na Lava Jato, que tenta salvar o Eduardo Cunha, que nomeou meia dúzia de ministros encrencados com a corrupção, se esses bona fide quiserem protestar contra a corrupção do Michel Temer na Paulista, não conseguirão lotar nem um fusca – exceto se a “titia” Rede Globo quiser, se ela convocar.

            E por que é que a classe média engole assim tão facilmente essas manobras da mídia burguesa, mesmo contra a democracia e os interesses nacionais? Basicamente por duas razões: primeiro porque a classe média é naturalmente conservadora e pequeno-burguesa, está sempre disposta a fazer oposição a governos de extração popular: foi assim em 1954, foi assim em 1964, e foi assim em 2016 – isso é fato, não é tese; não é simples hipótese nem mero argumento – é fato.

           E segundo porque a classe média é também, naturalmente, presunçosa. Presume que é mais esclarecida, presume que é mais bem-informada, presume que sabe escolher os governantes do país, presume que os de baixo são ignorantes, presume que os de cima são mais capacitados, e presume até que é culta, que tem cultura geral e cultura política pra dar e vender.

           Quem presume tudo isso não precisa saber de mais nada. Basta dar um bicadinha, dessas de beija-flor, na Folha de São Paulo, outra no Estadão, dar um pulinho nas páginas do jornal O Globo, uma passadinha rápida pelas páginas da Veja, da Época ou da Istoé, e completar tudo isso deitado confortavelmente no sofá, diante do noticiário noturno da televisão, e pronto, já estará bem informado, apto a discutir os grandes temas nacionais e opinar com desenvolvtura sobre política, direito e economia, bem como eleger e derrubar governantes.

           A presunção é irmã gêmea da ignorância. Pois, se presumo que já sei o suficiente, então não preciso saber mais nada, nem pesquisar mais nada, nem estudar mais nada, nem muito menos buscar informações em outras fontes, em fontes alternativas e divergentes, que possam fazer algum contraponto às informações “oficiais” e impedir os estragos do pensamento único, do pensamento manipulado e dirigido. A mídia nativa, que historicamente é antidemocrática e antinacional, já percebeu isso tudo, e não precisa fazer muito esforço, nem ser muito competente, pra manipular essa tropa toda. Com efeito, é muito fácil manipular quem quer ser manipulado e quem não tem defesa nenhuma contra a manipulação.

           Não adianta nada a mídia internacional dizer lá fora que houve agora um verdadeiro “golpete” político no Brasil – foram vários editorias nesse sentido do The New York Times, do Financial Times, do The Guardian e do Le Monde -, não adianta nada os técnicos do Senado dizerem que a Dilma não é responsável pelas “pedaladas fiscais”; não adianta nada o Ministério Público Federal ter arquivado os inquéritos porque considerou que as “pedaladas” não configuram crime, não adianta nada disso se a mídia não quiser que assim seja.

           Não adianta nada a Rede Globo e o jornal Estadão admitirem agora, décadas depois, que cometeram o erro de apoiar a derrubada de João Goulart, apoiando também a ditadura dos militares; não adianta nada a Rede Globo admitir expressamente que em 1989 manipulou o debate entre Lula e Collor para favorecer o candidato das oligarquias; não adianta nada esse eloquente silêncio atual da mídia em relação à corrupção depois de derrubar uma presidenta com esse pretexto, não adianta mostrar nada disso se a classe média não quer ou não consegue ver.

            É por isso que a concentração da mídia nas mãos de meia dúzia de famílias num país continental como o Brasil é um verdadeiro desastre – um empecilho à democracia. Mas não seria tanto se a classe social mais numerosa, a classe média, não fosse assim tão conservadora e tão manipulável. Falam na existência de “inocentes midiáticos”. E os há. Falam nos politicamente alienados. E os há. E há também os casos de “anencefalia” política. Mas, apesar disso, tem muito reaça por aí, que só não é mais conservador do que a mídia que o representa… e o manipula.

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