A solidão da Lava Jato

           QUANDO o Supremo Tribunal Federal negou as prisões preventivas da cúpula do PMDB – José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e Eduardo Cunha – pedida pelo Ministério Público no âmbito da Operação Lava Jato, o fez com bastante tranquilidade, sem nenhuma pressão, pois já não havia mais nenhum clamor popular pela “moralização do país”, nem aquela ridícula “sede de justiça” dos moralistas que queriam porque queriam “limpar o Brasil”.

           A meu ver, e pela letra da lei, não era mesmo o caso de prender provisoriamente nenhum desses peemedebistas investigados na Lava Jato, e o STF, portanto, decidiu direitinho, de acordo com o Código de Processo Penal e com a Constituição. A única coisa digna de nota nessa decisão do STF é que ninguém, ninguém mesmo – nem a mídia nem os paneleiros -, se revoltou com a decisão da Suprema Corte de deixar os corruptos do PMDB soltos por aí – por que será, hein?!

             Essa decisão, porém, tem um significado maior: ela sinaliza à Operação Lava Jato que doravante não haverá mais aquele festival de prisão preventiva que houve até agora, contra os petistas e empresários a eles ligados. Acabou a festa, não há mais necessidade de prender qualquer um, por qualquer motivo e de qualquer jeito. Está chegando a hora de “cumprir a lei e a Constituição”.

           A mídia empresarial, que só queria mesmo derrubar o governo democrático-popular do PT, atiçou a parcela conservadora e manipulável da população com o cínico propósito de “limpar o Brasil”, botou essa população ingênua contra o governo, e agora vai saindo de fininho, à francesa, pois a Operação Lava Jato já não frequenta mais as manchetes de primeira página – nem dos jornais impressos, nem dos eletrônicos, nem das grandes revistas.

            Consequentemente, as ações da Lava Jato, e o tema da corrupção, pouco a pouco, estão desaparecendo da “boca do povo”. Já não vejo mais tanto justiceiro por aí querendo a cabeça do presidente interino porque ele é um ficha-suja, nem pedindo a prisão da cúpula do PMDB, nem a investigação dos políticos do PSDB citados em várias delações na Lava Jato – nada disso. Esse povão que andava nas ruas com suas panelas e seus discursos inflamados, que se dizia contra a corrupção, querendo prender Deus e mundo, esse povão sossegou o facho, enfiou as panelas e o rabo no meio das pernas e voltou pra casa, como sempre: longe da política, indiferente à política, alienado da política.

            Assim, se o Supremo Tribunal Federal já não quer referendar mais o autoritarismo judiciário que prevaleceu até aqui; se a mídia burguesa, que era a grande “aliada” do juiz Sérgio Moro (segundo ele mesmo), está tirando seu time de campo; e se o povão, que pensa e faz o que a Rede Globo manda, já não está mais tão excitado com o problema da corrupção, suponho que a Operação Lava Jato vai seguir trabalhando sozinha, discretamente, nos termos da lei, como deveria ter sido desde o começo.

           Já até vejo nas folhas e nas mídias que o juiz da Lava Jato pretende que a operação termine até dezembro, no máximo até março do ano que vem – ele sabe que sem a mídia burguesa não terá o mesmo poder que teve até agora, ele sabe muito bem disso; não é bobo não. E pretende-se ainda que os processos por corrupção, doravante, sejam distribuídos regularmente aos demais juízes competentes para apreciar a matéria, aliás, do jeitinho que deveria ter sido desde o começo.

            Portanto, uma vez derrubado o governo do PT – que era tudo o que se queria, obviamente – a Operação Lava Jato pode voltar aos trilhos da legalidade, pode seguir seu curso sem alarde e sem grandes emoções, muito discretamente, com toda serenidade, no silêncio dos gabinetes de investigadores, procuradores e juízes… como deveria ter sido desde o começo.

            Mas, apesar da solidão, a Lava Jato continua seu trabalho. Pois ainda lhe falta julgar (e condenar) alguns petistas, dentre eles o alvo maior: Lula. Falta incriminar o Partido dos Trabalhadores, falta colocar esse partido na ilegalidade, falta tornar o Lula inelegível, falta deixar bem claro, com trânsito em julgado, que, neste país dominado por elites autocráticas e oligarquias truculentas, um partido popular e um líder trabalhador não devem nunca mais ter a ousadia – supremo atrevimento! – de chegar ao poder. Que essa ousadia não se repita nunca mais, viu, Lula!

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