Tentando entender

        A ENXURRADA de delações que temos visto ultimamente no âmbito das investigações sobre corrupção na Petrobras revela que a política brasileira é movida a dinheiro. E dinheiro grosso. As acusações já atingiram muita gente importante e dizem que muita coisa ainda vem por aí – estão dizendo que só a delação do ex-presidente da Odebrecht vai atingir centenas de políticos, e que depois dela não restará pedra sobre pedra em Brasília.

             Mas há duas ou três questõezinhas sobre isso tudo que me ficam martelando no cérebro, e que os doutores e entendidos bem poderiam explicar.

                A primeira delas: essa dinheirama toda que corre aí ilegalmente para o caixa dos partidos e para a conta-corrente de alguns políticos, que embolsam parte das doações de campanha, pelo que se tem visto, é um dinheiro pago pelas empresas privadas, portanto, não é dinheiro público que sai dos cofres da Petrobras, certo? Pois bem, se esse dinheiro não sai dos cofres públicos – já que ele sai do caixa das empresas privadas -, onde é que está o prejuízo para o erário? Onde está esse prejuízo que deixa todo mundo indignado e que o juiz da Lava Jato tanto quer recuperar e devolver aos cofres da nação?

                Ora, direis: o prejuízo público está no fato de que as empresas pagam aos partidos e aos políticos para fazer seus contratos com a Petrobras e faturar com a realização das obras contratadas. Sei, sei. Mas esses contratos celebrados não são onerosos de parte a parte, e não são cumpridos até o fim, mediante pagamento pela Petrobras e correspondente prestação dos serviços e materiais fornecidos pelas empresas contratantes, como um contrato normal – sem nenhum prejuízo para a empresa pública?

                 Direis ainda: acontece que são sempre as mesmas empresas que contratam com a Petrobras, frustrando as licitações, e isso acaba formando um cartel que traz prejuízo para os cofres públicos porque afasta a concorrência e os preços pagos pela empresa petrolífera acabam ficando mais caros. Ah, entendi! Mas eu pergunto: se houvesse licitações regulares, haveria empresas capazes de se habilitarem e de concorrer com essa meia dúzia de grandes empreiteiras que há muitos e muitos anos vêm contratando com a Petrobras?

              Em outras palavras, haveria empresas, além delas mesmas, capazes de concorrer e desbancar essas grandes empreiteiras nos requisitos legais de qualificação técnica, especialização tecnológica, suficiência econômico-financeira, aptidão de desempenho, instalação de canteiros, máquinas, equipamentos e pessoal técnico-especializado etc., etc., etc. – como exige a lei?

               Se essas empreiteiras são assim tão fortes do ponto de vista econômico, financeiro e tecnológico, se elas estão entre as maiores do mundo, se elas são imbatíveis em quaisquer processos licitatórios aqui dentro, se não há quem consiga superá-las em todos esses requisitos legais, se elas fatalmente ganhariam as concorrências e as licitações públicas de que participassem, se, no final das contas, as obras públicas seriam mesmo entregues a elas, então por que é que elas precisam pagar “por fora”, “comprar” políticos e partidos, pra fazer contratos com a Petrobras, ou com qualquer outra empresa do governo?

              Por que, meu Deus do céu!, esses empresários vão pagar para celebrar contratos que eles celebrariam de qualquer jeito – nos termos da lei, depois de vencerem as licitações que eles sempre venceram? Ou seja, por que é que as empresas privadas da construção civil teriam de dar dinheiro a partidos e políticos para celebrar contratos públicos que elas fatalmente celebrariam, mediante licitações regulares, sem ter que dar dinheiro nenhum pra ninguém? Entendeu aonde quero chegar?, pois é: essa dinheirada toda que você tá vendo aí, no caixa dois dos partidos, nas contas particulares de alguns políticos, e até em contas na Suíça, essa dinheirama não é dinheiro público, não sai do meu, do teu, do nosso bolso – ela sai do bolso do empresário. E a troco do quê?

                É exatamente isso que eu gostava que os doutos e os “entendidos” discutissem e nos explicassem, tim-tim por tim-tim. Mas antes de dar a palavra aos doutores e aos entendidos, arrisco um palpite: as grandes empreiteiras jogam essa dinheirama toda nas mãos de políticos e partidos não apenas para continuar celebrando contratos com a administração pública, mas, sobretudo, para ter a administração pública e o Estado sob controle. É exatamente assim que o poder econômico “compra” a democracia e subjuga a dimensão da política através do dinheiro – é por isso que a democracia burguesa é uma democracia de fachada e se transforma cada vez mais numa plutocracia.

            É aí que os donos do dinheiro se tornam também donos da política. E o seu votozinho solitário, bem-intencionado, lá na urna no dias das eleições, tem pouca força, é mais pra inglês ver, ou para legitimar a vitória dos candidatos financiados pelos ricos que corrompem o sistema político e aniquilam a soberania popular. Sabe o que fez a maior democracia burguesa do mundo (a democracia norte-americana) para “acabar” com isso, ou seja, para “acabar” com a corrupção política do caixa dois que financiava partidos e candidatos? Simplesmente legalizou o caixa dois, permitindo o financiamento da política pelo dinheiro dos poderosos. É isso mesmo, na caradura. Toda essa corrupção que combatemos aqui a ferro e fogo, cheios de indignação, lá nos States, na maior democracia do planeta, é tudo legal.

                 E tem mais. Até o lóbi – que ultimamente tem levado muitos lobistas à cadeia aqui no Brasil – os Estados Unidos legalizaram. E também na maior caradura. Não sabia não? Pois é, o modelo de democracia que muitos indignados têm louvado como um paradigma a ser seguido não passa de uma plutocracia, um paraíso de endinheirados e lobistas. É por isso que nos Estados Unidos será muito difícil, ou impossível, um partido trabalhista de esquerda chegar ao poder. É por isso que lá um torneiro-mecânico jamais seria presidente da república (e não me venham com o exemplo do lenhador Abraham Lincoln no século XIX, que não por acaso acabou assassinado) – vide agora esse senador Bernie Sanders: com seu discurso de esquerda e antineoliberal ele jamais chegará à Casa Branca, nem com reza braba.

            Enquanto os brasileiros ficarem aí “indignados” contra este ou aquele corrupto, achando que a Lava Jato é a redenção moral do país, dizendo que político não presta e que o lugar deles é na cadeia, embarcando nesse bafafá moralista que a imprensa faz de tempos em tempos (para derrubar os governos que não lhe interessam), sem perceber que o problema é a falência da democracia burguesa, os endinheirados continuarão nadando de braçada e às vezes ainda conseguem o apoio dos distraídos para seus golpes de Estado – como esse que acabou de ocorrer no Brasil.

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Uma resposta para Tentando entender

  1. Chico Bento disse:

    Realismo didático. Assaz didático. Moral da crônica: Economia Capitalista/Neoliberal + Mídia Privada = Dominação Perpetuada.

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