Delação esquisita

      MUITA gente, depois de muito relutar, está vendo agora que a corrupção política no Brasil (e não só no Brasil) é sistêmica, ou seja, o sistema político é que é intrinsecamente corrupto, ou funcionalmente permeável à corrupção. E, pelo menos no caso do Brasil, o fator mais evidente e mais poderoso de toda essa bandalheira é mesmo o financiamento privado de campanha.

      Com apenas um mês do governo (há governo?) interino do senhor Michel Temer, já lá se foram três ministros por água abaixo, tudo por causa de denúncias de corrupção em delações e escutas telefônicas. O próprio presidente interino está inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, e agora se vê inteiramente complicado diante de uma nova delação que o envolve no esquema de corrupção da Petrobras.

      Não vou perguntar (de novo) onde é que anda aquela indignação toda, aquela gente toda, que da noite pro dia queria derrubar governo, prender corrupto, moralizar o país e consertar tudo de qualquer jeito. Não vou perguntar sobre essas coisas porque em nenhum momento, nenhum daqueles que andavam aí, pelas ruas, com camisetas do Brasil (e dos Estados Unidos), com panelas na mão, e com discurso inflamado querendo “limpar” o país, nenhum deles nunca me convenceu de que queria mesmo combater a corrupção – sei bem o que queriam!

    Agora apareceu aí um novo homem-bomba (e tem muitos na praça), o tal Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, que fez sua vida política ora no PSDB, onde começou, ora no PMDB, onde está até agora. Pois é, esse homem botou a boca no trombone e revelou que o esquema de corrupção na Petrobras era mesmo um “condomínio” de todos os partidos. Revelou ainda que o atual presidente interino recebia grana das empresas e comandava um esquema de distribuição da propina dentro de seu partido.

      E revelou mais: esclareceu que o ex-candidato Aécio Neves, que posava de paladino da moralidade política até outro dia, comprou sua eleição à presidência da Câmara dos Deputados e teve a campanha presidencial inteiramente financiada por empresas implicadas na corrupção da Petrobras.

     E revelou mais ainda: contou para as autoridades que o PMDB e o PSDB fizeram um pacto para obstruir a Operação Lava Jato porque essa operação, se ela quiser, poderá chegar (e parece que já chegou) aos caciques desses partidos, com possibilidade de implodir o governo provisório de Michel Temer antes mesmo do julgamento definitivo de Dilma pelo Senado – mas isso, só se as autoridades da Lava Jato quiserem, se a Globo quiser, e se o povão que obedece à Globo voltar de novo pras ruas, coisa em que só acredito vendo.

    Mas não é que o novo homem-bomba revelou também que algumas delações anteriores à sua foram delações dirigidas, ou seja, seletivas? Pois é, os executivos da Camargo Corrêa, por exemplo, omitiram o dinheiro pago ao filho do ex-presidente José Sarney (outro ministro do Temer), e não confessaram os pagamentos de propinas destinadas a campanhas do PSDB, o que põe em dúvida, outra vez, o valor probante desse mecanismo polêmico das delações premiadas.

    O esquisito é que essa nova delação do ex-presidente da Transpetro, um homem do PMDB e ex-filiado ao PSDB, voltou-se contra seus próprios correligionários, implicando-os no esquema de corrupção política investigado pela operação Lava Jato. Porém, o mais esquisito mesmo é que essa delação apontou o envolvimento do presidente interino na corrupção da Petrobras, justamente o homem que puseram na presidência do país para combater a corrupção, mas não revelou nada sobre o envolvimento da presidenta afastada, justamente a mulher que tiraram da presidência para combater a mesma corrupção.

     Esquisito demais, né não, cara?!

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Uma resposta para Delação esquisita

  1. Borborema disse:

    Atenção dr Antonio Alberto.
    Bomba Bomba !
    Moro já não é mais do PSDB !!!!

    http://filiaweb.tse.jus.br/filiaweb/filiacao/registro/detalhar.seam?operacao=Detalhar&cid=44312

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    Partido: PSDB – PARTIDO DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA
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    Data de Desfiliação: — Data de Cancelamento: 07/06/2016 Data de Regularização: —
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    Situação: Cancelado
    Número do Documento de Referência: PROVIMENTO N. 9 CGE/2016

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