Se…

   SE eu chutasse bem com os dois pés, se eu cabeceasse bem, se fosse um bom driblador, se tivesse boa velocidade e um ótimo senso de colocação, e se ainda tivesse mais ou menos 1,85 de altura, eu certamente teria realizado meu grande sonho de menino e teria sido o maior centroavante da história do São Paulo Futebol Clube, teria marcado gols antológicos em pleno Morumbi lotado e garantido ao tricolor, e também à seleção brasileira, muitos títulos mundiais.

      Mas, infelizmente, pra mim e pra torcida são-paulina, e também pra torcida da seleção brasileira, nada disso aconteceu: nunca fui bom de bola, só fiz gols em campos vazios, fiz alguns gols na várzea mas ninguém se lembra deles, nunca dei um título sequer ao São Paulo nem tive a oportunidade de vestir a amarelinha do escrete canarinho – e tudo por causa do “se”, pois “se” eu tivesse aqueles atributos todos teria me tornado o craque que sonhava ser.

     Dizem que no futebol é assim mesmo: e que o grande problema é o “se”: “Se a bola não tivesse batido na trave”, “Se a bola tivesse entrado”, “Se a bola tivesse saído”, “Se o técnico tivesse feito a substituição”, “Se no juiz tivesse dado o pênalti” etc. E agora, vejo que na política é igualzinho – o “se” também é decisivo.

     Vejamos! Se os brasileiros que apoiavam o impeachment da presidenta Dilma Rousseff conseguissem desvelar um Brasil diferente, se conseguissem mudar este país com a força do povo nas ruas, se fizessem com que doravante uma história digna fosse escrita para as gerações futuras, se impulsionassem realmente a mudança, o impedimento da presidenta teria sido muito bom pra todos nós, e todos estaríamos agora confiantes num Brasil novo.

     Sinto decepcioná-los: tal como o meu sonho de menino, nada disso deu certo. O governo que saiu de toda essa “luta” dos brasileiros para derrubar a presidenta da república não tem nada de novo. Tem um programa igual ou pior do que aquele dos anos 80/90, do tempo de Fernando Collor e Itamar Franco, além de contar com ministros que já foram ministros no passado e integraram os governos de Lula, de Dilma e até de Fernando Henrique Cardoso.

   Se os brasileiros “sonhadores”, que foram às ruas para protestar e bater panela, garantissem mais ética na política, níveis elevados de moralidade político-administrativa, bem como o fim da corrupção com todos os corruptos punidos de maneira exemplar, teria sido especialmente bom para os cofres públicos, para o desenvolvimento e o crescimento do país.

     Sinto decepcioná-los outra vez: o novo governo (se é que se pode chamá-lo de “novo”) tem um presidente “ficha-suja”, tem o Ministro das Cidades (Bruno Araújo) na famosa “lista da Odebrecht”, tem o Ministro da Saúde investigado por fraudar licitação no Paraná, tem o Ministro do Planejamento (Romero Jucá) encrencado no STF, tem o Secretário de Governo (Geddel Vieira Lima) e o Ministro do Turismo (Henrique Alves) enrolados na Lava Jato, tem o Ministro dos Transportes (Maurício Quintella) investigado por embolsar dinheiro de merenda em Alagoas, tem o Ministro da Defesa (Raul Jungmann) investigado por fraude em licitação, peculato e corrupção… tem ministro encrencado de todo jeito.

     Se os brasileiros que apoiaram a deposição da presidenta da república fizessem com que agora as leis fossem respeitadas, que não houvesse mais violações à lei orçamentária, que ninguém mais criaria obstáculos para investigar a corrupção, e que, portanto, entraríamos numa fase de plena legalidade e de supremacia do direito, teria sido muito bom para a nossa história republicana e até para a nossa autoestima.

     Sinto, porém, decepcioná-los mais uma vez: o atual presidente interino, nas vezes em que assumiu a presidência anteriormente, praticou os mesmos atos praticados pela presidenta e que agora dizem ser uma violação à lei do orçamento, o atual ocupante do Planalto já retirou a autonomia da CGU que investigava corrupção no funcionalismo, a presidenta foi derrubada por meio de uma trapaça jurídica que desrespeitou a lei e a Constituição, os parlamentares que a derrubaram não tomaram conhecimento dos aspectos jurídicos que pesavam contra ela e fizeram tudo o que fizeram ao arrepio da lei.

    Mas, essas decepções todas podem ter pelo menos um lado positivo, um lado didático: podem fazer com que os brasileiros enxerguem melhor a política brasileira e o atual momento histórico, e que aquela parcela da população que apoiou os ataques à democracia, as sucessivas violações constitucionais, a destruição do Estado Democrático de Direito, as manobras da mídia e da elite golpista, aprenda com o erro e não volte a cometê-lo.

    Huumm, pode até ser, mas será que aprende mesmo?  Sei não, hein?!

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Uma resposta para Se…

  1. Borborema disse:

    Suspeito,já chega chutando CGU e outra ,só trapalhada .imagino os funcionários do ministério da saúde o que não estão vivendo ,desmontando a saúde numa semana !!
    Esse é ruim de bola !

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