O que foi e o que será

     SE já era difícil entender o atual momento político brasileiro – refiro-me, obviamente, às manobras políticas que resultaram na deposição de Dilma Rousseff – imagine entender o que virá por aí, com o novo governo do presidente interino. Mas, nada impede que especulemos, pois, como já se disse, às vezes é preciso entender o futuro para compreender bem o passado, e além do mais, ao que saiba, no Brasil ainda não está proibido pensar.

     Sobre o passado e os antecedentes deste novo golpe de Estado perpetrado pela direita no país, há algumas pistas que talvez ajudem a explicá-lo.

     Em primeiro lugar, é preciso ter presente que a direita brasileira jamais engoliu o fato de o Partido dos Trabalhadores chegar à presidência da república, nem muito menos o fato de termos na presidência um operário sem curso superior. A eleição do Lula em 2002 foi a morte pra direita! Desde aí, ela não pensou em outra coisa senão tirar do Palácio do Planalto o partido, o projeto popular-democrático, e o líder Lula da Silva – no voto ou na marra.

   A primeira estratégia da direita para atingir esse objetivo foi o “mensalão do PT”. O deputado Roberto Jefferson fez o serviço na CPI dos Correios, confessando e delatando a existência de um esquema de compra de votos no Congresso Nacional que atingiria toda a cúpula do PT, e apenas o PT, muito embora todos os outros partidos, em todos os outros governos, também estivessem envolvidos nesse esquema.

   Pois bem, em meio ao grande escândalo do “mensalão petista”, mesmo com todo o estardalhaço feito pela mídia e a atuação arbitrária do STF, que passou por cima das regras do devido processo legal para condenar petistas históricos em nome do combate à corrupção, Lula da Silva conseguiu se reeleger em 2006 – a estratégia de utilizar politicamente o escândalo do “mensalão” havia fracassado, portanto.

    Com o sucesso dos oito anos de governo Lula, na área econômica, social e política, inclusive na política externa, e tudo isso reconhecido pelo mundo todo, o ex-presidente deixou o governo com 87% de aprovação (um recorde) e fez a sua sucessora, Dilma Rousseff, uma esquerdista mais radical que ele e que, no passado, já havia participado até da luta de guerrilha contra o regime militar.

   Esse foi outro golpe que a direita não assimilou. Lula da Silva escarnecia dos conservadores tanto na competência político-administrativa quanto nas sucessivas vitórias eleitorais.

      Pois bem, a segunda estratégia para derrotar o PT nas urnas foi o “petrolão petista”. Não funcionou também. Apesar de toda a manipulação da mídia e da atuação partidarizada dos responsáveis pelas investigações na petroleira nacional, inclusive com sucessivas violações à Constituição Federal, Dilma Rousseff conseguiu reeleger-se com 54 milhões de votos.

    A direita entrou em desespero. E o desespero foi ainda maior porque chegou à seguinte conclusão: os 52% de votos obtidos pela presidenta reeleita em 2014 correspondem a um “eleitorado fiel” que, certamente, votará de novo no PT em 2018, sobretudo, se o candidato for o ex-presidente Lula da Silva, o homem que deixou a Presidência da República com o maior índice de aprovação popular desde que se começou a fazer esse tipo de pesquisa, e havia sido reeleito com folga em meio ao “escândalo do mensalão” – a direita concluiu também o seguinte: se 52% dos eleitores votaram no que chamavam de “poste de Lula”, certamente que também votarão, em 2018, no homem que “inventou e iluminou o poste”.

      Foi um Deus nos acuda! Chegaram à conclusão de que, nas urnas, não conseguiriam eliminar a “erva daninha do PT”, pois nem “mensalão” nem “petrolão” o haviam conseguido. Era preciso, portanto, eleger outra via. E a via eleita foi o golpe “à paraguaia” – um golpe conduzido pelos barões da mídia, pela Fiesp, e por algumas outras forças que se escondem atrás do “Pato da Fiesp”, com a colaboração do parlamento e a complacência relevante ou decisiva de setores do judiciário – que resultou, como todos sabemos, na deposição de Dilma Rousseff sob um pretexto jurídico qualquer.

     Então, e agora, o que vem por aí? Toda essa guerra para defenestrar do Palácio do Planalto um governo popular com origem nos movimentos sociais, no movimento sindical e no trabalhismo, não foi à toa. É mais um capítulo da “Velha Senhora” luta de classes. E a direita não está de brincadeira! Há muitas razões para supor que o “Pato da Fiesp” será pago, mais uma vez, pela classe trabalhadora e pelos mais pobres.

     Com efeito, o ministério formado pelo governo interino, as primeiras medidas desse novo governo, e o seu programa denominado “Ponte Para o Futuro”, autorizam crer que a direita vai mesmo impor ao país um projeto econômico neoliberal, com sacrifício de direitos e programas sociais, com intensificação das privatizações – e a Petrobras, desta vez, corre enorme perigo -, com mais abertura da economia, e completo atrelamento dos interesses nacionais ao imperialismo econômico ianque-europeu.

    Do ponto de vista estritamente político, pode ser que o país passe por uma fase autoritária, sobretudo se houver o recrudescimento dos protestos contra o novo governo, experimentando até mesmo um certo fechamento do regime, algum nível de repressão, e o consequente macartismo (ou caça às bruxas) em face da esquerda, dos descontentes e de todo o campo progressista que venha a contestar a legitimidade dos novos detentores do poder.

     Assim, à vista desse cenário aparentemente surreal, por mais dolorosas que possam ser quaisquer conclusões neste momento, não há como ignorar que o nosso passado recente foi de ruptura institucional, o presente é de perplexidade, e o futuro será mesmo o retrocesso!

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