Simplesmente burlesco

     SE CONTAR, ninguém acredita: arranjaram um mal-arranjado pretexto jurídico para pedir o impeachment da presidenta Dilma Rousseff; arranjaram três juristas atrapalhados pra assinar esse pedido; utilizaram um deputado federal acusado de corrupção pra instaurar o malfadado processo de impedimento; e agora vão pôr no lugar da presidenta impedida um vice recém-condenado pela Justiça Eleitoral por doação ilegal de campanha.

       Pois é, inacreditável. A imensa maioria dos brasileiros nem sabe exatamente por que estão tirando uma presidenta eleita; os juristas que fizeram o pedido de impeachment não têm a menor condição de sustentá-lo, tanto que um deles (talvez o melhorzinho) chegou a dizer que o processo de impedimento era fruto de uma “chantagem explícita”; o deputado que presidiu a sessão de instauração do impeachment já está afastado pelo STF por corrupção; e o presidente que assumirá no lugar de Dilma Rousseff será o primeiro presidente “ficha-suja” da história do país.

    Moral da história: fizeram tudo isso, ou seja, derrubaram uma presidenta honesta que não era sequer investigada; usaram para derrubá-la um deputado que é réu em processo-crime; puseram no lugar da presidenta ficha-limpa um vice ficha-suja, que está inelegível e condenado por corrupção eleitoral; e, pra completar, para delírio dos humoristas, fizeram tudo isso em nome do quê? Do que mesmo? Pois é: em nome do combate à corrupção. Tem cabimento?

       Era óbvio que essa cruzada moralista que sacudiu o país de uma hora pra outra não poderia dar mesmo em boa coisa!

    Não vou nem lembrar aqui, outra vez, as constantes agressões à nossa ordem constitucional, as arbitrariedades que praticaram contra o Estado de Direito, a fragilização do nosso sistema de liberdades e garantias constitucionais, nem o estrago que essa chusma golpista provocou na economia brasileira – neste momento quero lembrar apenas o fiasco, nada mais.

        Dava pra imaginar que uma campanha moralista encabeçada (e convocada) pela mídia empresarial ia mesmo dar problema para a frágil democracia brasileira; dava pra ver que esses autointitulados “movimentos sociais”, assumidamente fascistas, que foram pra rua pedir moralidade e decência na política não estavam “de boa”, não iriam produzir bons resultados; dava pra imaginar que essa turma do “bate-panela”, que se interessa por política só em vésperas de eleição, iria mesmo fazer alguma trapalhada –  tava na cara.

    Que a elite brasileira fizesse qualquer negócio pra tirar do poder um partido popular com origem no trabalhismo e nos movimentos sociais, a gente já imaginava, pois essa elite é antipopular, antinacional, antidemocrática e não tem escrúpulo nenhum. O que ninguém poderia imaginar é que boa parte dos brasileiros, inclusive brasileiros letrados e cheios de boa-fé, fosse embarcar ingenuamente nessa lambança toda.

      Que papelão, hein?! E amanhã, o que é que essa turma vai falar lá em casa, pros netinhos? Vai dizer que estava mesmo apoiando e aplaudindo essa ópera-bufa? Ou será melhor desconversar? Pensando bem, acho até que podem contar tudo, sem medo, os netinhos não acreditarão, de jeito nenhum – é muito pra cabeça deles!

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Uma resposta para Simplesmente burlesco

  1. Ary disse:

    Sugiro a leitura do artigo “Líder do MBL responde a mais de 60 processos”, hoje publicado no sítio uol.com.br

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